Domingo |
À procura da Palavra
A ovelha, a moeda e os filhos
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DOMINGO XXIV COMUM Ano C

“Este homem acolhe os pecadores

e come com eles.”

Lc 15, 2


Numa única parábola, com três histórias, Jesus apresenta o amor de Deus de uma forma inimaginável. Como não ficarmos admirados com o pastor, a mulher e o pai desta imensa história de amor, com que Jesus responde às objeções de escribas e fariseus? Sim, temos de nos colocar no lugar deles, assumindo alguma estreiteza de coração e uma mentalidade de contabilista que até “faz contas” com Deus. E ainda que nos sintamos próximos do filho que se perde e afasta da casa do pai, importa estar no lugar do “filho cumpridor”, para ver se entramos na festa ou não.


Começando pelo pastor, há uma decisão ilógica no início da sua busca: deixar noventa e nove ovelhas para procurar uma é correr um risco estúpido. O contraste é propositado: o cuidado por aquela que se perdeu exige um movimento de procura urgente. Não pode descansar enquanto não a encontrar. E vai ser a alegria e a festa a marcar o encontro; não a repreensão ou o castigo. Ai daqueles que propagam o medo e o castigo! Não basta já o sofrimento de andar perdido?


E que dizer da mulher à procura da moeda? Voltamos ao valor de cada um, numa menor proporção, mas num idêntico movimento: acende uma lâmpada, varre, procura cuidadosamente. O que encontraríamos se procurássemos com o mesmo afinco? E o que perdemos porque não ousamos arriscar semelhantes procuras?


Ovelhas e moedas podem perder-se sem que daí venham grandes males ao mundo. Mas um filho, um irmão, como fica o coração de quem os perde? E toda a perda é uma pequena morte. Sim, é grave a decisão deste jovem que trata o pai como se estivesse morto ao pedir a herança, e parece não ter relação com o irmão. Não é herói de nenhuma epopeia e a sua vida é uma descida até ao abismo. Abaixo de porco, irá bater mesmo no fundo. É então que recorda o coração do pai. Abre-se à dor dos seus erros, à consciência da dignidade que perdeu. Ensaia um pedido de perdão e de alguma compaixão. Assim que o vê vir ao longe, o pai entra em acção e não pára mais: corre, abraça-o, cobre-o de beijos, escuta-o, reconhece-o como filho, faz uma festa. Não acusa, não recrimina, não castiga. Que adianta remexer na morte se a vida é mais forte?


A alegria e a festa são o culminar das três histórias. Mas ficamos por saber se o irmão mais velho, que vimos a descobrir tratava o pai como uma espécie de patrão, entrou ou não na festa. Também ele andava perdido nas suas muitas tarefas e ainda não entendera o que era viver com o pai. E como esta parábola é para ele, quer dizer, para nós, a resposta tem de ser nossa. Agarramo-nos aos méritos do que fazemos, indiferentes ao amor de Deus por todos? Ou entramos no seu dinamismo de vida que não se esgota, de esperança que não seca, de alegria que nos transforma em irmãos?

P. Vítor Gonçalves (ilustração por Tomás Reis)
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