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P. Gonçalo Portocarrero de Almada
A Páscoa e o sacerdócio feminino
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Porque foi mandado aos apóstolos o que foi proibido às mulheres?! Porque não se consentiu a Maria Madalena o que se exigiu a Tomé?!
Os relatos evangélicos relativos à ressurreição de Jesus Cristo são uma sucessão de encontros e desencontros que, a bem dizer, causam alguma perplexidade. É desafiante a manifesta incapacidade dos mais próximos amigos reconhecerem Jesus ressuscitado. Esta realidade expressa, no entanto, uma verdade de fé fundamental: a ressurreição de Jesus, ao contrário das outras ressurreições referidas nos Evangelhos, não é um regresso à vida mortal, mas uma nova vida, agora vivida na gloriosa imortalidade de que se viu revestida a humanidade de Cristo na sua ressurreição. Uma segunda dificuldade resulta da aparente imaterialidade do corpo ressuscitado, que aparece e desaparece instantaneamente, surge com diferentes formas, apresenta-se de repente em lugares fechados, etc. Se se tratasse apenas de um espírito, não teria havido, como é óbvio, ressurreição, uma vez que esta diz respeito ao corpo e não à alma, a qual, pela sua própria natureza, é espiritual e, portanto, imortal. O Professor Frederico Lourenço, na sua magistral tradução do Novo Testamento, comenta, a propósito desta característica singular do corpo ressuscitado de Cristo: “As portas fechadas são um dado importante para percebermos a conceção que o evangelista quer transmitir de como o corpo de Jesus se tornou imaterial, a ponto de passar através de portas fechadas. No entanto, mantém a imanência das marcas da crucificação nas mãos e no flanco.” Com efeito, o incrédulo Tomé foi convidado a meter a sua mão nas chagas do crucificado, para comprovar que era o mesmo corpo que morreu na Cruz (Jo 20, 27). No entanto, essas marcas não eram visíveis nas outras aparições do ressuscitado, em cujo caso tal se teria feito constar, até para corroborar a sua identidade e, portante, a veracidade da sua ressurreição. Se todas as pessoas a quem Jesus apareceu, depois da sua ressurreição, tivessem visto as suas chagas, como as viu Tomé, tê-lo-iam reconhecido de imediato, o que não aconteceu. A hipótese de que, pela sua ressurreição, “o corpo de Jesus se tornou imaterial” não colhe, porque é contraditória nos seus termos: a materialidade é essencial à natureza corpórea. A única solução possível para este estado da matéria é a que aponta Joseph Ratzinger/Bento XVI, quando sugere um outro tipo de realidade de que não temos experiência nem, portanto, conhecimento (Jesus de Nazaré, Parte II, pág. 202). Frederico Lourenço, a propósito da aparição de Jesus a Maria Madalena, é claro ao dizer que Cristo lhe proíbe o contacto físico. Com efeito, segundo a sua tradução, que é certamente a de maior rigor literário, a proibição que outros descrevem de forma menos taxativa – “não me detenhas”, ou “não me retenhas” – é expressa em termos imperativos e categóricos: “Não me toques!” (Jo 20, 17). Como muito acertadamente comenta, em nota, “o facto de Jesus vedar a Maria Madalena a possibilidade de o tocar contrasta com o convite dirigido a Tomé daí a poucos versículos no sentido contrário (v. 27).” Não é apenas a Tomé que é dada a ordem de tocar as chagas das mãos, pés e lado do ressuscitado, porque a mesma indicação é dada aos restantes apóstolos, quando lhes aparece ao fim do dia da sua ressurreição: “Jesus disse-lhes: ‘Porque estais agitados e porque surgem dúvidas no vosso coração? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou eu mesmo. Tocai-me e olhai, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho’. E dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés.” (Lc 24, 38-39). João confirma que o seu conhecimento de Jesus tem origem no que ele próprio viu, ouviu e as suas mãos tocaram, usando expressões que manifestam um extraordinário realismo: “o que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos, o que apalparam as nossas mãos relativamente ao Verbo da vida (…), isso que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos, para que vós também tenhais comunhão connosco, e para que a nossa comunhão seja com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo” (1Jo 1, 1-3). Pergunta-se então: porque foi mandado aos apóstolos o que foi proibido às mulheres?! Porque não se consentiu a Maria Madalena o que se exigiu a Tomé?! Porque pôde o evangelista João apalpar – como ele próprio diz – o corpo de Cristo, que Maria Madalena pôde ver e adorar, mas não tocar?! Não convinha que ela, que foi a ‘apóstola dos apóstolos’, tivesse também essa experiência física da verdade que iria anunciar aos apóstolos, para que eles assim testemunhassem ao mundo inteiro?! (At 1, 21-22). Pode-se justificar essa atitude de Jesus em relação à Madalena por razão da sua condição feminina, num duplo sentido. Por um lado, enquanto mulher, o seu testemunho, segundo as leis e tradições judaicas, não era válido. Por outro, é sabida a extraordinária prudência de Jesus no que se refere ao relacionamento com mulheres: porque falou a sós, embora num lugar público, com a samaritana, os seus discípulos, que tinham ido à cidade comprar alimentos, “admiravam-se porque ele falava com uma mulher” (Jo 4, 8.27). No entanto, na casa do fariseu Simão, “certa mulher, conhecida na cidade como pecadora”, “colocando-se por detrás dele e chorando, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas; secava-os com os cabelos e beijava os pés dele e ungia-os com perfume” (Lc 7, 36-38). Este episódio, como afirma Frederico Lourenço, “faz inevitavelmente pensar na unção de Betânia narrada por Mateus (26, 6-13), Marcos (14, 3-9) e João (12, 1-8).” Assim sendo, se o ressuscitado tivesse deixado que Maria Madalena o tocassse, não teria permitido nada que não tivesse acontecido já, até com mulheres que, por razão da sua vida pouco exemplar (Lc 7, 37; Jo 4, 17-18), poderiam ter sido causa de escândalo. Se o corpo mortal de Jesus Cristo pôde ser tocado, beijado e ungido por mulheres, a razão que explica a proibição de que Maria Madalena toque no seu corpo glorioso parece dever-se a esta sua condição, até porque as outras mulheres a quem também apareceu podem não ter tido nenhum contacto físico com ele quando, prostradas, o adoraram (Mt 28, 9). Mas, por que razão Tomé e os restantes apóstolos puderam tocar, com as suas mãos, a realidade corpórea de Cristo ressuscitado, mas não Maria Madalena?! Decerto porque essa prerrogativa lhes correspondia enquanto sacerdotes que eram do Corpo e Sangue de Cristo, que as suas mãos consagradas deveriam doravante tocar, ao celebrarem e distribuírem a Eucaristia. Neste sentido, não será temerário supor que esta diferença entre ela e eles sublinha a distinção essencial, e não apenas de grau, entre o sacerdócio comum de todos os fiéis, homens e mulheres, e o sacerdócio ordenado, respectivamente (Constituição dogmática Lumen gentium, 10 e 62; Catecismo da Igreja Católica, nº 1547). Do mesmo modo como as mulheres, embora mais fiéis do que os homens na paixão, morte e ressurreição de Cristo, não foram admitidas na última Ceia, porque o mandato de renovar sacramentalmente aquele sacrifício não lhes dizia respeito, também Madalena foi privada do gesto sacerdotal de tocar o glorioso Corpo de Jesus, que compete às mãos consagradas do sacerdote ministerial, enquanto é, pela sua condição masculina e, sobretudo, pela sua ordenação sacramental, outro Cristo e o próprio Cristo. Se nenhuma mulher pode representar sacramentalmente Cristo, também nenhum homem pode ser mãe, nem muito menos mãe de Jesus. Se ao sacerdote ministerial compete ser pai (ou father’, ‘père’ ou padre); ao sacerdócio comum da mulher compete ser mãe, mãe de Cristo (Lc 8, 19-21) e apóstola de apóstolos, como Maria Madalena, que foi a primeira a crer e anunciar a ressurreição de Jesus. As mães cristãs são, de algum modo, mães de Cristo, porque os seus filhos baptizados são outros Cristos, e elas são as primeiras que os tocam e beijam, tocando neles o próprio Jesus (Mt 25, 31-46). As mães cristãs são também as primeiras evangelizadoras e catequistas dos seus filhos: este é o seu sublime sacerdócio, que também exercem as que, pela sua consagração a Deus, praticam uma verdadeira maternidade espiritual e, por isso, também são mães (ou ‘mother’, ‘mère’, ou madre). As mães cristãs, de modo análogo a como comunicam aos seus filhos o dom natural da vida, também os concebem para a vida sobrenatural e alimentam na fé. Neste sentido são também, como a Mãe de Jesus e Maria de Magdala, mães de Cristo e apóstolas de apóstolos. A vocação natural do homem é a paternidade, como a vocação natural da mulher é a de ser mãe. A vocação sobrenatural do homem é a de ser pai de Cristo nos seus filhos, ou ser pai de Cristo por via sacramental, por via do sacerdócio ministerial. A vocação sobrenatural da mulher é a de ser mãe de Cristo nos seus filhos, ou a de ser mãe dos filhos de Deus, por via da sua consagração religiosa. P. Gonçalo Portocarrero de Almada