Ao visionar a película, o espectador é confrontado com duas visitas dos protagonistas ao Arquivo Secreto do Vaticano e depara-se com um quadro de alta sofisticação técnica colocada ao serviço da manutenção e salvaguarda do património documental. Os depósitos da documentação são câmaras isoladas com baixos níveis de oxigénio, alarmes e sensores de tudo e mais alguma coisa. Pese embora o nosso desconhecimento in situ dos depósitos de arquivo da Santa Sé, certamente não dispõem de todo o aparato técnico representado no filme. Contudo, e sem pretendermos cair na apologia utópica deste tipo de estruturas para a salvaguarda e conservação do património documental, não podemos deixar de nos sentir motivados para a necessidade e urgência que se coloca ao cabal tratamento dos nossos documentos.
A Igreja Católica é, em verdade, depositária de um extenso património documental passível de gerar perplexidades quando urge o seu tratamento. Há cerca de um ano, João Soalheiro, director do Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja, estimava em 500 mil metros lineares a documentação produzida e acumulada pela Igreja em Portugal. Aliado este volume documental aos custos inerentes a um processo moroso e com exigências técnicas e humanas específicas, acreditamos que os responsáveis pelas várias estruturas vacilem entre as sugestões de um “anjo” que lhes diz que vale a pena apostar em organizar os arquivos e um “demónio” que os convence de que o melhor é deixar estar como está, pois não advêm daí resultados visíveis e imediatos.
Na Diocese de Lisboa, o serviço desenvolvido em torno do património documental, embora com alinhamentos estratégicos e enquadramentos organizacionais diferentes, remonta há alguns anos. Em 1972, o cónego Isaías da Rosa Pereira publicou na «Lusitania Sacra» um «Inventário Provisório do Arquivo da Cúria Patriarcal de Lisboa». Em 1993, D. António Ribeiro, reconhecendo que o património documental continua incessantemente a enriquecer-se por força da acção pastoral que todos os dias se vai desenvolvendo nas estruturas da Igreja, decretou a instituição do Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa com a competência de recolher, conservar e ordenar a documentação à sua guarda, facultá-la à investigação e velar pela organização dos arquivos das paróquias. No ano 2000, fruto dos trabalhos de estágio do curso de arquivística religiosa promovido pelo Centro de Estudos de História Religiosa, é elaborado o recenseamento prévio de parte da documentação existente em depósito. Em 2006, por estímulo de D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa, são desenvolvidos esforços para que este serviço da diocese seja dotado de uma equipa estável com capacidade para gerir os trabalhos de forma sistemática, recorrendo ao mecenato e apoio de voluntários. Foi neste contexto que o Serviço de Arquivo Histórico e Biblioteca, integrado recentemente no Centro Cultural do Patriarcado de Lisboa, se dotou de um corpo técnico consolidado e uma equipa de voluntários que têm desenvolvido actividade multifacetada: constituição e organização da biblioteca e sala de leitura; limpeza e organização de várias séries documentais; organização e descrição do arquivo do Cardeal Cerejeira; incorporação e organização de arquivos paroquiais, com destaque para os arquivos das paróquias de Santo Estêvão e São Miguel de Alfama que acolheram o apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian, entre outros.
Na linha do quem sido o trabalho desenvolvido, é objectivo deste serviço da diocese:
ü recolher, conservar, preservar, seleccionar, tratar e difundir a documentação que, pela sua natureza e valor, se revista de interesse histórico para a diocese, obrigando à sua conservação definitiva;
ü actuar na promoção do património documental da diocese, a fim de o inserir e transmitir nos circuitos vitais da acção cultural e pastoral;
ü proceder ao tratamento arquivístico de toda a documentação reunida, segundo as normas nacionais e internacionais em vigor, e elaborar instrumentos de descrição (guias, inventários, catálogos, índices).
ü colaborar e apoiar a realização de estudos por parte de investigadores internos e externos, sobre temas ligados à história do Patriarcado, em particular, e à história da Igreja em Portugal, em geral;
ü cooperar com todos os departamentos e sectores da diocese em actividades ou manifestações de carácter pastoral, cultural, científico ou técnico que dignifiquem e sirvam os interesses da diocese.
A inviabilidade em dotar serviços da Igreja com um aparato técnico-científico simulacro do exibido na película citada, não pode ser factor para um descomprometimento com a memória das comunidades cristãs. Para uma digna conservação dos documentos basta, muitas vezes, cuidados básicos de higiene das salas e correcto acondicionamento.
Na medida em que os documentos contêm testemunhos claros de uma marca genética que nos identifica como membros destes corpo que é Igreja, apelamos aos que tiverem disponibilidade e gosto em colaborar, em regime de voluntariado, com o Serviço de Arquivo Histórico e Biblioteca, que nos contactem através do telefone 218810500 ou do e-mail: r.aniceto.ccultural@patriarcado-lisboa.pt.
Informação complementar:
O Serviço de Arquivo Histórico e Biblioteca do Patriarcado de Lisboa procura estar atento aos manuscritos relativos à história da diocese que, por vicissitudes históricas, foram parar à mão de particulares, e que aparecem no circuito comercial. Em leilão da colecção António Capucho, recentemente realizado no Palácio do Correio Velho, e com autorização do Sr. Cardeal Patriarca foram adquiridos os seguintes exemplares de manifesta relevância histórica e artística:
«LIVRO// DO REGULAMENTO DE TODAS AS // MISSAS, CAPELLAS E ANNIVERSARIOS // e mais Legados pertencentes ao Real// Mosteiro de S. Vicente a que hoje// este de Mafra he obrigado a Satisfa// zer conforme o Ex. Snr. Nuncio por// sua Sen[tenç]a as reduziu, comotou, e es// tabeleceu em virtude do Breve de// 1786 do S. P. Pio PP. VI// ainda Reinante na Igreja de De// os neste anno de// 1788.»
Descrição: In-fólio de 137 fólios. Encadernação de vitela. Contém o processo de redução de encargos com missas, capelas, etc. que passaram para o Mosteiro de Mafra com a extinção de outros conventos e mosteiros. Particular relevo é dado ao de São Vicente de Fora, em virtude da instalação da Patriarcal no edifício e passagem dos cónegos para Mafra.
«COMPROMISSO DA IRMANDADE DAS ALMAS DO PURGATÓRIO DE NOSSA SENHORA DA SUMPÇAM DOS OLIVAIS. Olivais, 1662.»
Descrição: In-4º gr. de 26 fólios em pergaminho e (6) págs., em papel. Encadernação em chagrin da época. Interessantes e invulgares estatutos com doutrinação sobre a remissão das almas do purgatório e dois desenhos ingénuos da morte e da alma no purgatório, em medalhões. Na parte final, além das assinaturas e das aprovações de 1662 e 1670, estão dois documentos em seis páginas, da aprovação da Cúria Romana em 1722, com selo em papel, e a aprovação do cardeal patriarca D. Francisco I, em 1772, também com selo em papel.
«COMPROMISSO da Irmandade de Nossa // Senhora da Purificação sita na ygreja ma-// triz da Villa de Aldea Galega ins-// tituida pellos homens traba -// -lhadores moradores // & estantes na di-// ta villa.// 1607.»
Descrição: In-4º máx. de 15 fólios. Pastas da encadernação em carneira da época, refeitas sobre encadernação recente. Frontispício com desenho de flor-de-lis policromada. A partir do verso do 7º fólio seguem as assinaturas, petições, aprovações e selo em lacre (já imperfeito), chegando até ao ano de 1807. Importante documento da piedade seiscentista na Aldeia Galega de Riba Tejo, actual Montijo, à altura pertencente à circunscrição geográfica do Patriarcado de Lisboa.
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