Enquanto na vizinha Espanha nos debatíamos numa triste guerra “incivil”, e no mundo, a guerra destruía a paz e a convivência, levanta-se de braços abertos à paz e diálogo, abraçando Lisboa e o mundo, a majestosa imagem do Cristo Rei, que cumpre cinquenta anos da sua inauguração.
Aqueles que erigiram a imagem conseguiram transmitir bem o sentir do povo. Com efeito, é impossível conceber a História da Europa em geral, e de Portugal de modo particular, sem a contribuição cristã. A sociedade será a confessional ou laica, mas o povo, na sua grande maioria, vai beber as suas raízes a Jesus de Nazaré. Um povo devedor das essências cristãs e esquecê-lo seria um terrível lapso que a Historia um dia julgaria.
Na expansão deste sentir cristão, tem Portugal um lugar privilegiado. Não podemos esquecer que foi um membro de uma das dioceses mais importantes da Igreja, a bracarense, Martinho de Dume, que impulsionou a evangelização de grande parte da península. O exemplo do Beato Nuno Álvares Pereira constituiu o mais claro exponente da perfeita simbiose entre a fé, a política, a caridade e a lealdade inquebrantável à sua Pátria. A ele podemos associar a impressionante vida da Rainha Santa Isabel, peregrina de Compostela onde o arcebispo lhe concedeu o seu báculo, hoje conservado em Coimbra. Não podemos esquecer, de igual modo, a pobreza do único Papa português, Pedro Hispano, que não de Espanha, nasceu em Lisboa e foi arcebispo de Braga, João XXI, que não pode aguentar a derrocada da sua humilde casa e faleceu sob os seus escombros. Na “Divina Comédia”, Dante Alligieri diz que é o único Papa digno dos Céus. Fé que se entrelaça com a devoção mariana desde o Sameiro à Cova da Iria, a mais importante manifestação mariana dos tempos modernos. E a esta fé se somaram outras grandes personagens portuguesas cuja figura do Infante D. Henrique é o expoente máximo, que levou cultura e fé além-mar. Nas cortes celebradas em Lisboa no ano de 1646, declarou el-rei D. João IV “O Restaurador” (1640-1656) que tomava a Virgem Nossa Senhora da Conceição por padroeira do Reino de Portugal. Depois da expulsão dos espanhóis, dando inicio à dinastia Bragança, depositou a coroa real na Imaculada Conceição (1646) data a partir da qual os monarcas portugueses nunca mais utilizaram.
Além disso, Portugal possui a personagem mais universal da Igreja. Ninguém no mundo inteiro é mais citado, honrado e querido em todas e em cada uma das regiões, que Fernando de Bulhão. Santo António é o reflexo da idiossincrasia portuguesa. Ora seria altura, de uma vez por todas, que o mundo católico deixasse de o chamar de Pádua (onde viveu apenas dois anos) para reconhecer mundialmente que é de Lisboa, de essência lisboeta, do bairro mais típico que é Alfama, onde se funde o fado, a arte, a cultura e a fé.
A figura do Cristo Rei recolhe todas estas essências, abraça-as e bendi-las. Os “alfacinhas” de nascimento podem estar orgulhosos; e os que somos apenas de coração gostamos de viver numa cidade que é de luz, de arte manuelina, do fado triste e também alegre, da fruta madura no estio e das castanhas assadas quando o frio acena.
Nunca um povo é tão grande como quando honra os seus mais egrégios personagens; Lisboa assim o faz. Trezentas mil pessoas dirigem-se anualmente ao Corcovado. Aí subiu Einstein, Diana de Gales, Michael Jackson, João Paulo II... Aqui, todos continuamos a acreditar na mensagem de amor e paz que a sua imagem exala.
Quando no próximo dia 17 de Maio os lisboetas e demais população cruzarem as águas de toda a Península, para se dirigirem a Almada a fim de venerarem e honrarem quem é a sentinela da urbe e do orbe, símbolo e realidade de paz e amor, sinónimo das Bem-Aventuranças, não podem dirigir outra oração senão a que vem do coração: Senhor de Almada, Redentor do mundo, Salvador do universo, Cristo Rei, Deus feito homem: no Golgota uma espada com dor atravessou o teu divino peito; que este povo, beijo a beijo, te acompanhe com amor.
A cruzar o Tejo também nos virá acompanhar a Virgem Branca vinda da capelinha de Fátima. Ela invocaremos juntamente com Pessoa: “Avé Maria, tão pura/ Virgem nunca maculada/ ouvi a prece tirada/ no meu peito de amargura. / Vós que sois cheia de graça/ escutai minha oração, / conduzi-me pela mão/ por esta vida que passa. / Bendita sois vós Maria, entre as mulheres da Terra/ e voss’alma só encerra/ doce imagem d’alegria. / Ditosa Santa Maria, / Vós que sois Mãe de Deus/ e que morais lá nos céus, / orai por nós cada dia.”
Cónego José Carlos Fernández Otero
Capelão dos cidadãos espanhóis
gacetaparlante@hotmail.com
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