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Jesus expulsa os vendilhões do Templo: A Pedra Angular
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Em várias ocasiões, o jornal Voz da Verdade tem feito referência à importância da arte e do património artístico e cultural da Igreja, para a dinamização e transmissão da fé. Contudo, a catequese pela arte ainda está longe de ser plenamente entendida em Portugal.

Como artista plástica (pintora) pude confrontar-me, ao longo do curso de Conservação e Restauro de Pintura, com uma obra de um outro artista, finais do séc. XVII ou princípio de XVIII, e perceber a importância da transmissão da arte de umas gerações para outras. Em adiantado estado de degradação, de difícil visibilidade e leitura, não era previsível que o trabalho de intervenção pudesse devolver vitalidade a esta pintura. É o testemunho dessa passagem da “morte para a vida” que pretendo transmitir.  

 

“Estava próxima a Páscoa dos Judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.” (Jo 2,13-17)

Ao entrar no Templo Jesus encontrou todo um cenário de profanação, onde os negociantes se tinham apropriado do espaço reservado ao recolhimento e à oração. Jesus faz um chicote de cordas e num gesto de desconcerto e revolta expulsa “da casa de Seu Pai” os vendedores e cambistas. «Tomaram então a palavra os judeus e disseram-lhe: “Que sinal nos mostras para assim procederes?”. Jesus Respondeu-lhes: “Destruí este Templo e o reedificarei em três dias”. Replicaram os judeus: “Este Templo foi edificado em quarenta e seis anos, e tu o reedificarás em três dias?” Ora Ele falava do Templo do Seu corpo.»

 

Ao proceder à fase de limpeza descobri a imagem de Jesus Cristo, enérgica, colocada no centro da pintura. Contrasta com as escuras colunas de pedra do Templo de Jerusalém. A cena desenrola-se numa espécie de palco, a partir do qual se constrói toda a dinâmica da imagem. A tensão que se observa entre a Pessoa de Jesus Cristo e as colunas do Templo torna presente uma outra passagem do Evangelho, onde Jesus lança um desafio aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas: “A pedra que os construtores desprezaram, tornou-se pedra angular. Todo o que cair sobre aquela pedra será quebrado; e sobre quem ela cair será esmagado.” (Lc 20, 17-18). Do eixo central, que é Cristo, parte um movimento de dispersão circular, que se acentua pela linha dos dois degraus. Este movimento é reforçado por duas sombras, projectadas pelas colunas do lado direito, fazendo supor como que a propagação dos círculos dos degraus, produzindo um efeito semelhante como quando se atira uma pedra na água. Ao mesmo tempo que se dá este movimento de dispersão e queda, existe um outro movimento que obriga a centrar na figura de Cristo: todos os olhares à Sua volta estão direccionados para Ele. Na queda das figuras por terra está implícito o desmoronamento do Templo de Jerusalém, que se verificou no ano 70 da Era Cristã, levado a cabo pelos romanos.

À entrada do Templo, do lado esquerdo, existe uma figura feminina, pertencendo já a um segundo plano da imagem, mas que atrai os nossos olhares pela tranquilidade com que coloca sobre a mesa os elementos do pão, do vinho e os peixes. Esta figura provavelmente refere-se a “Maria, primeira Igreja” e que, simbolicamente, introduz a Eucaristia no Templo.

Ao longo de muitas horas de trabalho pude meditar e contemplar o tema e perceber como se desenvolve a unidade entre oração e acção. Deus não é apenas a Palavra, Ele tem um rosto muito concreto com o qual nos podemos relacionar. Aliás, é essa mesma Palavra que tem dado visibilidade a tantas obras de arte. O trabalho metódico, paciente e contemplativo, que se aplica na Conservação e Restauro é de facto um privilégio face ao activismo. A arte, e concretamente a arte sacra, é um meio muito privilegiado para transmitir as verdades da fé e tornar próxima a transcendência de Deus. Daí a necessidade de se apostar mais na preservação do património artístico na Igreja. Infelizmente estamos a habituar-nos cada vez mais à dimensão virtual da imagem e, deste modo, corremos o risco de despersonalizar, quer a relação com Deus, em Jesus Cristo, quer a relação com os nossos semelhantes. “A morte de Deus” passa também pela aniquilação da sua Imagem na arte, como “Imagem do Deus invisível” (Col 1,15).

«O encontro com Cristo é a essência do Cristianismo», disse-nos Bento XVI a 1 de Setembro de 2006, quando visitou o Santuário do Santo Rosto de Manopello «onde se encontra o véu com que, segundo a tradição católica, Verónica enxugou o rosto de Jesus na Paixão. (...) Bento XVI constatou que para viver “em Deus já nesta terra”, é necessário deixar-se transformar “pelo fulgor do seu rosto”.»

Perante o novo iconoclasmo a que estamos a assistir, ressoam as palavras de Jesus Cristo: «“Destruí este Templo e o reedificarei em três dias”. (...) Ora Ele falava do Templo do Seu corpo». Ou seja, a Imagem eterna, a Imagem consubstâncial, é indestrutível.

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