Nas últimas Jornadas Diocesanas de Catequese, D. José Policarpo abriu novas perspectivas para uma catequese voltada para os pais. O texto pode ser encontrado no site www.faz-teaolargo.com ou em www.jornalw.org.
1. O problema da evangelização dos pais das crianças e jovens que frequentam as catequeses paroquiais supõe uma visão de Igreja, toda ela em atitude de permanente “estado de catequese”. Esta atitude permanente de toda uma comunidade em “estado de catequese” aponta para duas vertentes: todos os membros da comunidade precisam, continuamente, de ser catequizados e toda a comunidade assume a missão de catequizar. A catequese como “acto sectorizado”, necessidade só de alguns e responsabilidade de poucos, bem depressa choca com a sua própria fragilidade. Só a comunidade como um todo garante à catequese a densidade da missão e a continuidade do aprofundamento da vida cristã.
A catequese é uma expressão permanente da Igreja como mistério de comunhão (Koinonia). “A comunhão exprime a relação profunda da Igreja universal e das Igrejas particulares, que constituem a comunidade cristã de referência. Esta torna-se próxima e visível na rica variedade das comunidades cristãs imediatas, em que os cristãos nascem para a fé, se educam na fé e nela vivem: a família, a paróquia, a escola católica, as associações e movimentos cristãos, as comunidades eclesiais de base. São estes os «lugares» da catequese, isto é, os espaços comunitários, em que se realiza a catequese de iniciação cristã e a educação permanente da fé”[1].
A catequese encontra a sua origem no dinamismo comunional da Igreja, porque é sempre partilha da fé e caminhada em conjunto; o crescimento da comunidade é, por sua vez, a meta a atingir pela catequese. A qualidade da catequese reflecte, em grande parte, da qualidade de uma comunidade cristã. Leiamos, mais uma vez, o Directório: “A comunidade cristã é a origem, o lugar e a meta da catequese. É sempre da comunidade cristã que nasce o anúncio do Evangelho, que convida os homens e as mulheres à conversão e a seguirem Cristo. E é esta mesma comunidade que acolhe aqueles que desejam conhecer o Senhor e comprometer-se numa vida nova. Ela acompanha os catecúmenos e os catequizandos, no seu itinerário catequético; e, com materna solicitude, chama-os a participar na sua própria experiência e fé e integra-os no seu seio”[2].
2. A catequese enquanto elemento permanente do crescimento da comunidade cristã, supõe que se tenha em conta a especificidade dos diversos momentos do processo da fé. A catequese, enquanto dinamismo de aprofundamento e fidelidade, supõe a fé. Não pode ser a primeira expressão da missão evangelizadora. O primeiro momento é querigmático, isto é, o anúncio de Jesus Cristo em ordem a suscitar a fé. A catequese supõe uma primeira evangelização. Estas etapas sempre foram mais claras na missão “ad gentes”, onde o primeiro anúncio leva ao catecumenato e à catequese.
Em países como o nosso, de tradicional ambiente de cristandade, a situação é, hoje, mais complexa. Para além do pequeno número de “não baptizados”, o grupo mais significativo é de baptizados “descrentes”, que nunca fizeram o processo de iniciação cristã, para os quais a fé não é um dinamismo de vida. Muitos dos pais das crianças das nossas catequeses estão nessa situação, em que a catequese supõe uma primeira evangelização. O Directório é claro a esse respeito: “Na situação que exige uma nova evangelização, a coordenação torna-se mais complexa, visto que, por vezes, quer-se ministrar uma catequese ordinária a jovens e adultos que, antes, necessitam de um tempo de anúncio e de serem despertados na sua adesão a Cristo. Surgem problemas semelhantes em relação à catequese para as crianças e para a formação dos seus pais. Outras vezes são oferecidas formas de catequese permanente para adultos, que, na realidade, necessitam mais de uma verdadeira catequese de iniciação cristã.
A situação actual da evangelização implica que as duas acções, o anúncio missionário e a catequese de iniciação cristã, sejam concebidas de maneira coordenada; e que, na Igreja particular, sejam propostas através de um projecto evangelizador missionário e catecumenal unitário. Hoje, a catequese deve ser vista sobretudo como a consequência de um anúncio missionário eficaz”[3].
Isto exige que aquilo a que chamamos a catequese tem de ser capaz de oferecer acções evangelizadoras, diferenciadas na própria pedagogia, para as diversas situações dos destinatários em relação à fé: não baptizados, baptizados “descrentes”, baptizados com fé. Esta é, certamente, uma das maiores exigências da renovação das nossas catequeses.
3. A catequese é, neste quadro, uma expressão permanente da vitalidade de uma comunidade cristã e recebe desta as características dinâmicas e a inspiração pedagógica.
* A catequese parte da graça sobrenatural dos sacramentos da iniciação cristã, de modo particular o baptismo e visa a “iluminação” da mente e do coração em ordem a uma vida cristã autêntica. Durante a caminhada catequética o cristão descobre e experimenta o que é viver como cristão, e percebe, no concreto da sua vida, qual é o caminho da fidelidade, a Deus, a Cristo, e à Igreja. Descobre a Igreja como “casa da comunhão”, a “barca” onde encontra a salvação. É importante experimentar que fora da Igreja ou contra ela, não há salvação. É por isso que o catecumenado, como era praticado nos primeiros séculos da Igreja, continua a ser o modelo da catequese: é uma caminhada, feita em comunidade eclesial, para descobrir toda a exigência e riqueza do baptismo, sacramento que nos uniu a Jesus Cristo. “O modelo de toda a catequese é o catecumenado baptismal, que é a formação específica através da qual o adulto, convertido à fé, é levado à confissão da fé baptismal, durante a Vigília Pascal. Esta formação catecumenal deve inspirar as outras formas de catequese, nos seus objectivos e no seu dinamismo”[4].
A caminhada catequética, aprofundando o baptismo já recebido, prepara o cristão para a “confissão de fé”, que ele deve exprimir na celebração litúrgica, na proclamação convicta do Evangelho e no testemunho da vida. É a isso que a Igreja chama “iniciação cristã”, como diz o Directório: “A catequese é, assim, um elemento fundamental da iniciação cristã e está estreitamente ligada aos sacramentos de iniciação, de modo particular ao Baptismo, sacramento da fé. O elo que une a catequese ao Baptismo é a profissão de fé, que é, ao mesmo tempo, o elemento interior deste sacramento e objectivo da catequese. A finalidade da acção catequética consiste precisamente nisto: favorecer uma profissão de fé viva, explícita e actuante. Para alcançar esta finalidade, a Igreja transmite aos catecúmenos e aos catequizandos a sua fé e a sua viva experiência do Evangelho, a fim de que estes a assumam como sua e, por sua vez a professem”[5].
* A caminhada catequética faz-se em comunidade de fé. Na experiência da vida cristã, a dimensão comunitária prevalece sobre a individual. Neste aspecto, o próprio grupo de catequese deve ter a qualidade e o dinamismo de uma pequena comunidade de crentes, que caminham em conjunto, sempre com a consciência de que são parte de uma comunidade mais alargada, com a qual celebram a Eucaristia.
* Para que o grupo de catequese adquira o ritmo de uma pequena comunidade que caminha, o catequista tem de assumir a função – “o ministério” – de “pastor” do grupo. Nele a arte e a pedagogia precisam de ser completadas com a convicção e a força do testemunho. Nesse aspecto ele é, simultaneamente, catequista e catequizando, deve caminhar com outro grupo, onde continue a aprofundar a sua experiência cristã.
* Do enunciado destas características ressalta que o processo catequético não é só, nem sobretudo, aprendizagem doutrinal. É descoberta progressiva da pessoa de Jesus, da Igreja, do mistério da salvação. A compreensão da mensagem de Jesus faz-se com a inteligência e com o coração, guiados pela Palavra de Deus, aprendendo a rezar e a celebrar, e ganhando gosto missionário de testemunhar a fé.
A caminhada catequética introduz o cristão na “lógica da graça”, ajudando-o a vencer uma visão naturalista da vida.
4. É neste quadro que se situa a hipótese de envolver os pais das crianças e dos jovens na caminhada catequética. Isso torna-se mais difícil se a catequese for concebida apenas como comunicação doutrinal de conhecimentos. Trata-se de os convidar a entrar num processo de vida que os seus filhos estão a percorrer.
Convém “tipificar” os pais na sua situação crente e relação com a vida cristã, normalmente bastante diversificada na sociedade actual. Há as famílias cristãs, em que os pais são praticantes, inseridos na vida da comunidade paroquial. A comunidade é o enquadramento natural para o seu crescimento na fé e a família é a primeira comunidade de crescimento da fé dos filhos. Entre estas famílias e a catequese paroquial deve haver sintonia e coordenação. Para estas famílias, a paróquia deve prever experiências de caminhada de fé, porventura algumas em conjunto com os próprios filhos.
Há, depois, um grande número de pais que ainda inscrevem os seus filhos na catequese, mas que não sendo praticantes guardam uma atitude de fé elementar ou que, na prática, são “descrentes”. Para este grupo, a pedagogia não pode ser a da catequese mas a da primeira evangelização, de cariz querigmático.
Há atitudes em relação a este último grupo que qualquer catequese organizada deve valorizar:
* Valorizar o acolhimento dos pais no acto de inscrição. É um momento importante na sua missão de educadores. Dizer-lhes claramente o que a Igreja se propõe fazer com os seus filhos na caminhada catequética, o que pede, não apenas a sua aceitação, mas o seu empenhamento. Todo o acolhimento pastoral pode ser momento de primeiro anúncio da fé.
* Despertar o sentido missionário das crianças e jovens junto das próprias famílias. Na medida em que eles se vão “convertendo” a Jesus Cristo e à Igreja, tornam-se agentes de evangelização.
* Aproveitar todos os contactos com os pais para lhes anunciar a fé, envolvendo-os o mais possível na caminhada dos filhos.
* Envolvê-los de simpatia e amor fraterno no contexto comunitário, fazendo-os sentir a Igreja como família.
* Desafiá-los para experiências mais estruturadas de aprofundamento da fé.
5. Ao terminar esta conferência, gostaria de sublinhar a complementaridade, na caminhada catequética, do ministério sacerdotal e do “ministério” dos catequistas, ambos expressão do ministério da Igreja. O sacerdote deve considerar todas as experiências de catequese na sua comunidade, como prioridade do seu ministério. Dedicará uma particular atenção à caminhada com os catequistas, para que eles possam ser testemunhas da fé da Igreja e “pastores” no seu grupo de catequese. A missão catequética da Igreja é das que exige uma complementaridade, continuamente posta em prática, entre o ministério sacerdotal e os “ministérios laicais”.
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