Ser profeta das nações não está na natureza de Ezequiel, embora também não seja contra ela. Tornar Ezequiel profeta das nações é desígnio de Deus, não imposto, como se fizesse parte da natureza, (no natural não há liberdade, só há necessidade), mas convite que se torna dom, graça – uma sobre-natureza – onde se cruzam o desígnio amoroso de Deus, feito convite, feito vocação, e a resposta livre e amorosa do homem feita entrega confiante a Deus (Não é a confiança a primeira manifestação do amor, assim como a desconfiança é o primeiro sinal da falta de amor?): Tu amas-Me? Pergunta Jesus, Tu sabes que Te amo. Apascenta as minhas ovelhas.
Vale a pena determo-nos aqui um pouco mais. Tu amas-Me? Senhor Tu sabes tudo… E no entanto é preciso fazer a pergunta, não para informar quem interroga, mas para confirmar quem responde. É Pedro e não Cristo que precisa de saber se ama de verdade.
Meus irmãos, deixai que eu seja ao mesmo tempo a boca de Cristo que vos pergunta e os ouvidos e boca de cristão que ouve e deve responder: Francisco, Luís, Marta, Leonor… Tu amas-Me? Esta é a pergunta fundamental. A qualidade da nossa vida quer humana, quer cristã e, é necessário dize-lo com toda a clareza, quer da nossa vida de sacerdotes e pastores, tem a ver com a resposta que lhe dermos.
Ao ver o amor de Pedro Cristo confia-lhe as suas ovelhas, ou se quisermos, porque Pedro ama a Cristo está apto a ser pastor das ovelhas de Cristo. (Sim, as ovelhas são de Cristo. Cristãos fixai-o bem, vós não sois de nenhum Pedro, sois de Cristo que vos adquiriu ao preço de seu sangue). Mas, seja-me permitido dize-lo, já que estou cada vez mais convencido disto, a resposta de amor que Cristo quer de Pedro não é de boca, mas de acção. Pedro só pode dizer a Cristo que O ama apascentando o seu rebanho. Foi quando deu a vida, quando a gastou à frente do rebanho que Pedro respondeu à pergunta do Senhor. Amar é obedecer, amar é cuidar do amado e o amado deixa-Se cuidar no seu corpo que é a Igreja.
Ser pastor do povo de Deus é um acto de amor, mas não do meu amor humano. Ouvimos S. Paulo: O amor de Cristo nos impulsiona, (quando fui para o Seminário de Almada em 1972, havia duas frases que o director espiritual estava sempre a repetir e uma delas era esta – charitas Christi urget nos - é este amor de Cristo, ou como agora se tem dito, são estes sentimentos do Bom Pastor, recebidos na sagrada ordenação, a ordenação imprime carácter, este carácter, que conservados e cultivados pelos sacerdotes servem de credencial que o acreditam diante do povo. Todo o embaixador precisa de credenciais. Estas são as nossas. Santo Agostinho reclamava: Estejam todos os pastores no único Pastor. Estaremos no único Pastore se apascentarmos com os seus sentimentos. Fora desta comunhão com o Senhor não daremos fruto. Sem mim nada podereis fazer (Jo.15,5). Sem esta união ao Senhor o padre terá fãs, admiradores, mas Cristo não terá fiéis. (…)
Ser parecido com Cristo, possuir os seus sentimentos, dar a vida a Cristo, servi-Lo no seu corpo, eis o programa de vida espiritual que configura a identidade dum padre e assegura aquela frescura entusiasmada da primeira hora que o tempo não faz murchar. E eu tenho tido a sorte de conhecer sacerdotes, muitos, padres e Bispos cujo exemplo tem facilitado a difícil tarefa de ser imitador de Cristo para O tornar presente. E não posso esquecer tantos irmãos leigos, fiéis a Cristo e à Igreja, que não têm sido apenas objecto da minha acção pastoral, mas como que “formadores” que Deus tem colocado no meu caminho e que não apenas tornam verdadeira a promessa do Senhor – recebereis cem vezes mais em casas campos, irmãos, irmãs…- mas pela sua dedicação à Igreja, e pela sua amizade e apreço, têm sido verdadeiros estímulos ao cultivo daquelas virtudes humanas onde se torna possível chegarmos a compreender alguma coisa de Deus e da glória futura. (…)
Passados estes 25 anos sou o mesmo padre e não sou o mesmo padre. Sou o mesmo porque hoje como naquele domingo daria o passo em frente dizendo: sim quero! Conhecendo hoje melhor o que é a vida de padre e do presbitério, e conhecendo melhor, às vezes de forma tão dolorosa, os meus limites e pecado, voltaria a repetir com o mesmo alvoroço de então: Prometo! Nesse dia talvez mais motivado por cumprir o desígnio de Deus a meu respeito, hoje mais consciente de que a minha resposta não é um bem que só a mim aproveita, mas uma bênção para o povo que Deus ama. Não sou o mesmo, porque no serviço da Igreja, Cristo não me tem dado tréguas, ao repetir-me todos os dias: Tu não és padre por tua conta, mas pela minha. Tu não és padre à tua maneira, mas á minha. Tu, depois da ordenação, se queres ser tu, tens de ser Eu.
Queridos amigos, jovens e mais velhos, isto é terrível e fascinante. Um padre como outro cristão não tem como projecto da sua vida aumentar a posse das coisas, ou das pessoas, mas o tornar-se semelhante a Deus. É para ser, não para ter que pomos o nosso maior empenho. O Senhor é a nossa herança. E só ficaremos saciados quando contemplarmos a sua glória. Glória que já nos visita na celebração dos sagrados mistérios.
Dou graças a Deus por me ter sempre mantido na consciência do carácter sagrado do meu ministério: é Deus quem vos exorta por meu intermédio (…) Foi Ele que nos confiou este ministério da reconciliação (…) mas foi Jesus quem nos reconciliou com o Pai. Isto tem-me protegido de protagonismos que só roubam a glória de Deus e perturbam os fiéis. Esta glória manifestou-se na obediência crucificada de Cristo, e hoje não é diferente. É na obediência que a glória se revela. Ninguém vai para padre para ganhar a vida, vai para a perder. Qualquer opção, qualquer movimento que contrarie isto frustra e arruína a vocação sacerdotal e destrói a Igreja. (…).
Da homilia da celebração do 25º aniversário da ordenação presbiteral
Linda-a-Velha, 26 de Junho de 2008
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