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Padres vivem uma vida ?terrível e fascinante?
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Nós procuramos entender a nossa vida, a nossa história, não como uma sucessão de acasos determinados por força de pressões sociais ou genéticas, mas à luz da fé, como um desígnio, um projecto de Deus. Desígnio amoroso e cheio de respeitosa delicadeza que chega até nós sob a forma de um chamamento a que chamamos vocação. Desígnio de Deus que acolhido em nós dignifica, capacitando, a nossa natureza: Não digas não sei falar (…) pois o que Eu te ordenar falarás (…) Javé estendeu a mão e  tocou-me na boca (…) e disse não temas porque Eu estarei contigo para te salvar.

Ser profeta das nações não está na natureza de Ezequiel, embora também não seja contra ela. Tornar Ezequiel profeta das nações é desígnio de Deus, não imposto, como se fizesse parte da natureza, (no natural não há liberdade, só há necessidade), mas convite que se torna dom, graça – uma sobre-natureza – onde se cruzam o desígnio amoroso de Deus, feito convite, feito vocação, e a resposta livre e amorosa do homem feita entrega confiante a Deus (Não é a confiança a primeira manifestação do amor, assim como a desconfiança é o primeiro sinal da falta de amor?): Tu amas-Me? Pergunta Jesus, Tu sabes que Te amo. Apascenta as minhas ovelhas.

Vale a pena determo-nos aqui um pouco mais. Tu amas-Me? Senhor Tu sabes tudo… E no entanto é preciso fazer a pergunta, não para informar quem interroga, mas para confirmar quem responde. É Pedro e não Cristo que precisa de saber se ama de verdade.

Meus irmãos, deixai que eu seja ao mesmo tempo a boca de Cristo que vos pergunta e os ouvidos e boca de cristão que ouve e deve responder: Francisco, Luís, Marta, Leonor… Tu amas-Me? Esta é a pergunta fundamental. A qualidade da nossa vida quer humana, quer cristã e, é necessário dize-lo com toda a clareza, quer da nossa vida de sacerdotes e pastores, tem a ver com a resposta que lhe dermos.

Ao ver o amor de Pedro Cristo confia-lhe as suas ovelhas, ou se quisermos, porque Pedro ama a Cristo está apto a ser pastor das ovelhas de Cristo. (Sim, as ovelhas são de Cristo. Cristãos fixai-o bem, vós não sois de nenhum Pedro, sois de Cristo que vos adquiriu ao preço de seu sangue). Mas, seja-me permitido dize-lo, já que estou cada vez mais convencido disto, a resposta de amor que Cristo quer de Pedro não é de boca, mas de acção. Pedro só pode dizer a Cristo que O ama apascentando o seu rebanho. Foi quando deu a vida, quando a gastou à frente do rebanho que Pedro respondeu à pergunta do Senhor. Amar é obedecer, amar é cuidar do amado e o amado deixa-Se cuidar no seu corpo que é a Igreja.

Ser pastor do povo de Deus é um acto de amor, mas não do meu amor humano. Ouvimos S. Paulo: O amor de Cristo nos impulsiona, (quando fui para o Seminário de Almada em 1972, havia duas frases que o director espiritual estava sempre a repetir e uma delas era esta – charitas Christi urget nos - é este amor de Cristo, ou como agora se tem dito, são estes sentimentos do Bom Pastor, recebidos na sagrada ordenação, a ordenação imprime carácter, este carácter, que conservados e cultivados pelos sacerdotes servem de credencial que o acreditam diante do povo. Todo o embaixador precisa de credenciais. Estas são as nossas. Santo Agostinho reclamava: Estejam todos os pastores no único Pastor. Estaremos no único Pastore se apascentarmos com os seus sentimentos. Fora desta comunhão com o Senhor não daremos fruto. Sem mim nada podereis fazer (Jo.15,5). Sem esta união ao Senhor o padre terá fãs, admiradores, mas Cristo não terá fiéis. (…)

Ser parecido com Cristo, possuir os seus sentimentos, dar a vida a Cristo, servi-Lo no seu corpo, eis o programa de vida espiritual que configura a identidade dum padre e assegura aquela frescura entusiasmada da primeira hora que o tempo não faz murchar. E eu tenho tido a sorte de conhecer sacerdotes, muitos, padres e Bispos cujo exemplo tem facilitado a difícil tarefa de ser imitador de Cristo para O tornar presente. E não posso esquecer tantos irmãos leigos, fiéis a Cristo e à Igreja, que não têm sido apenas objecto da minha acção pastoral, mas como que “formadores” que Deus tem colocado no meu caminho e que não apenas tornam verdadeira a promessa do Senhor – recebereis cem vezes mais em casas campos, irmãos, irmãs…- mas pela sua dedicação à Igreja, e pela sua amizade e apreço, têm sido verdadeiros estímulos ao cultivo daquelas virtudes humanas onde se torna possível chegarmos a compreender alguma coisa de Deus e da glória futura. (…)

Passados estes 25 anos sou o mesmo padre e não sou o mesmo padre. Sou o mesmo porque hoje como naquele domingo daria o passo em frente dizendo: sim quero! Conhecendo hoje melhor o que é a vida de padre e do presbitério, e conhecendo melhor, às vezes de forma tão dolorosa, os meus limites e pecado, voltaria a repetir com o mesmo alvoroço de então: Prometo! Nesse dia talvez mais motivado por cumprir o desígnio de Deus a meu respeito, hoje mais consciente de que a minha resposta não é um bem que só a mim aproveita, mas uma bênção para o povo que Deus ama. Não sou o mesmo, porque no serviço da Igreja, Cristo não me tem dado tréguas, ao repetir-me todos os dias: Tu não és padre por tua conta, mas pela minha. Tu não és padre à tua maneira, mas á minha. Tu, depois da ordenação, se queres ser tu, tens de ser Eu.

Queridos amigos, jovens e mais velhos, isto é terrível e fascinante. Um padre como outro cristão não tem como projecto da sua vida aumentar a posse das coisas, ou das pessoas, mas o tornar-se semelhante a Deus. É para ser, não para ter que pomos o nosso maior empenho. O Senhor é a nossa herança. E só ficaremos saciados quando contemplarmos a sua glória. Glória que já nos visita na celebração dos sagrados mistérios.

Dou graças a Deus por me ter sempre mantido na consciência do carácter sagrado do meu ministério: é Deus quem vos exorta por meu intermédio (…) Foi Ele que nos confiou este ministério da reconciliação (…) mas foi Jesus quem nos reconciliou com o Pai. Isto tem-me protegido de protagonismos que só roubam a glória de Deus e perturbam os fiéis. Esta glória manifestou-se na obediência crucificada de Cristo, e hoje não é diferente. É na obediência que a glória se revela. Ninguém vai para padre para ganhar a vida, vai para a perder. Qualquer opção, qualquer movimento que contrarie isto frustra e arruína a vocação sacerdotal e destrói a Igreja. (…).

 

Da homilia da celebração do 25º aniversário da ordenação presbiteral

Linda-a-Velha, 26 de Junho de 2008

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