Lisboa |
Solenidade de Pentecostes
Patriarca crisma 93 universitários e desafia-os a viver “para os outros”
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O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, presidiu à Missa na Solenidade de Pentecostes, na manhã deste Domingo, dia 24 de maio, durante a qual crismou 93 estudantes universitários provenientes de diversas escolas da cidade, a quem incentivou, pela força do Espírito Santo, a abandonarem uma postura passiva para promoverem o bem comum e a paz na sociedade.

A celebração na Sé Patriarcal constituiu um momento marcante de envio e compromisso cristão, sublinhado pela reflexão do Patriarca na homilia, centrada na ação transformadora do Espírito Santo na vida dos fiéis. D. Rui Valério começou por refletir sobre a tendência humana para a autoconservação, afirmando que “um dos primeiros critérios de ação da nossa natureza enquanto seres humanos é aquela coisa da chamada sobrevivência, da autoconservação”, alertando que, sem a ação do Espírito Santo, a vida pode ficar centrada “no ego”.

“Ora, se nós nos deixarmos conduzir apenas pela força do natural, nós podemos viver até 500 anos que o foco da nossa existência estará concentrado numa coisa só. Não se escandalizem: no ego. Ele pode ser maior ou menor, mas é a referência, é o marco. Ele é aquele farol que nos guia, que nos ilumina, que nos determina”, alertou.

Em contraste, destacou a novidade introduzida pelo Espírito Santo: “Pelo Espírito Santo, permitam-me que o diga, nós tornamo-nos capazes de mais coisas, habilitamo-nos a algo mais”.

Aos jovens que enchiam a Sé, o Patriarca sublinhou ainda que “o Espírito Santo dá-te a capacidade de fazer da tua vida, e de ti próprio, uma oferta para os outros”. “O Espírito Santo dá-nos a prerrogativa, a condição de o nosso ser, ser um ser para os outros. É o Espírito Santo que nos habilita a isso”, garantiu.

Referindo-se à diferença entre atitudes naturais e a ação da graça, D. Rui Valério acrescentou: “Mesmo quando nós, nalguns contextos culturais, temos a ocasião de verificar que existem atos de heroísmo, de quem deu a vida por alguém, mesmo prescindo de toda esta avaliação ou este apoio do Espírito Santo ou da graça de Deus, mas normalmente subjacente está aquela realidade da conservação ou da defesa de algo que à pessoa diz diretamente respeito, que é si próprio – pode ser a sua família, pode ser o grupo de amigos que tem, pode ser a sua pátria. Mas com o Espírito Santo, a dádiva que tu vais fazer de ti próprio é uma dádiva gratuita. Segundo as palavras de Jesus, pode ser até pelos teus inimigos. Isto, o Espírito Santo é que nos torna capazes disso. Mais nada e mais ninguém”.

 

Coragem para testemunhar publicamente a fé

Numa segunda parte da homilia, o Patriarca de Lisboa evocou a passagem dos Atos dos Apóstolos, escutada na primeira leitura, destacando a transformação dos discípulos após a vinda do Espírito Santo. Recordou que, apesar do medo inicial, “eis que eles ganham ali uma força, uma coragem e vêm para a rua anunciar Jesus Cristo, vêm para a rua testemunhar o Evangelho”.

Segundo D. Rui Valério, esta ação do Espírito continua atual, permitindo aos cristãos superar barreiras e receios: “É como se o Espírito Santo nos desse a capacidade de vencer preconceitos, de vencer vergonha, de vencer aquelas coisas que, muitas vezes, enfim, fazem que os cristãos sejam todos eles cristãos de sacristia. Ou então que só funcionam como cristãos dentro de uma igreja”.

Na presença de D. João Marcos, Bispo Emérito de Beja que reside na diocese, e de muitos sacerdotes que acompanham os universitários, o Patriarca alertou ainda para os desafios concretos do testemunho no contexto atual, referindo situações de crítica ou pressão social. “São cristãos que, pelo Espírito Santo, vão anunciar o Evangelho e já não têm medo nem sequer da perseguição, da oposição, da resistência, do bullying, de que os colegas lhe apontem o dedo, dizendo: ‘Olha ali um beato ou uma beata que vai ali’”, expressou.

 

Um apelo a transformar a sociedade

Na parte final da homilia, D. Rui Valério descreveu o perfil do cristão animado pelo Espírito Santo: “Um cristão inundado do Espírito Santo, caríssimas e caríssimos, é uma pessoa que vive na vertical, cara erguida, coração aberto, na certeza de que a mensagem do Evangelho é aquela mensagem que é capaz de salvar o mundo, que é capaz de salvar a humanidade”.

Neste sentido, sublinhou o impacto da ação do Espírito na vida pessoal e social. “Vou-me aventurar dizer uma coisa como última palavra: não haja dúvida que o Espírito Santo quando atua na nossa disponibilidade, quando atua em nós e a partir e através de nós atua no mundo e na sociedade, acreditem, vai fazer com que a nossa vida, aí sim, valha a pena, com que a vida tenha sentido”, assegurou a cada um dos 93 universitários que iam ser confirmados na fé.

Dirigindo-se novamente aos jovens crismados, o Patriarca terminou a homilia deixando um apelo claro ao compromisso: “Caras crismandas e caros crismandos, a Igreja conta convosco, conta com a vossa disponibilidade, conta com a vossa docilidade ao Espírito Santo para que transformemos a nossa cidade, a nossa sociedade, numa sociedade de paz, numa sociedade de proximidade, numa sociedade de coragem, mas sobretudo numa sociedade que é capaz de cultivar o bem, não só o bem meu, o bem nosso, o bem individual, mas que é capaz de promover o bem dos irmãos”.

 

Agradecimento às comunidades, aos padres e aos formadores

Na saudação antes da bênção final, o Patriarca de Lisboa quis expressar reconhecimento a todos os que acompanharam o percurso dos crismados, evocando a importância das pessoas e comunidades que marcaram este caminho: “Certamente para vós, caros crismados, quantos rostos, quantas histórias, quantas pessoas é que não se cruzaram convosco e que pertencem realmente à etapa que hoje alcançastes com a aceitação, o acolhimento do dom do Espírito Santo. A todas e a todos, em nome do Senhor e no Senhor, nós vamos agradecer”.

D. Rui Valério agradeceu também às comunidades e aos responsáveis pela formação que “prepararam, acompanharam os nossos jovens para este momento de cenáculo, para este momento de Pentecostes”. “Aqui eu coloco em primeiro lugar os seus capelães, os seus padres. Eu tenho aqui alguns deles na minha presença. Obrigado, que Deus os abençoe”, referiu, reconhecendo também o papel dos formadores: “Certamente, o Senhor pediu-nos para lançarmos a semente do Evangelho, da nossa dedicação. Depois, o recolhedor é Ele. Ele depois é que faz o trabalho do verdadeiro agricultor. Mas obrigado pela vossa cooperação, porque isso revela que, para além da força da vossa fé em Jesus, a vossa fé também nos jovens, no que nós nos habituamos a chamar os homens do amanhã, mas eu que estou convencido que já são os homens e as mulheres de hoje”.

 

O Crisma como sacramento da maturidade cristã

O Patriarca evocou ainda a evolução da compreensão do sacramento do Crisma, partilhando uma memória pessoal. “Quero agradecer também às famílias, aos padrinhos, aos amigos que disponibilizaram tempo, acolhimento, acompanhamento para que os nossos crismados, hoje, tenham alcançado este momento que, no meu tempo, quando eu fiz o Crisma, tinha na altura 10 anos e recordo-me que o senhor Bispo, que já partiu para a casa do Pai, disse que é o sacramento do adulto”, partilhou.

E acrescentou: “Hoje, nós já não usamos tanto essa essa terminologia. Hoje a nossa terminologia é o sacramento da maturidade cristã, que envolve o amor a Deus, o amor ao próximo, mas sobretudo esta coragem de anunciar o Evangelho numa atitude missionária e numa atitude evangelizadora”.

Concluindo, D. Rui Valério reforçou o caráter missionário da celebração e do envio final: “Um bem-haja no Senhor. Todos os obrigados estão feitos, todos os agradecimentos estão realizados também, nesta maravilhosa celebração. De facto, respiramos aqui o ambiente do cenáculo, no silêncio, na contemplação, na interiorização. Aquela palavra que o diácono irá dizer: ‘Ide em paz’, não vos está a mandar embora, está-nos a enviar em missão. E para vós, crismandas e crismandos, esta missão começa logo na família, com o grupo de amigos, na escola, na universidade, na academia, no trabalho. Por isso, que Deus seja louvado em vós e que nós sejamos louvor para a glória de Deus”.

A celebração de Pentecostes na Sé Patriarcal de Lisboa ficou assim marcada por um forte apelo à gratidão, à maturidade cristã e ao compromisso missionário no quotidiano.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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