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Guilherme d'Oliveira Martins
Cuidar da Criação e da humanidade
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A paz de que necessitamos não se alcança com meras boas intenções. Importa que sejamos determinados em ações capazes de construir um mundo mais humano. No Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, o Papa Leão XIV apelou aos cristãos e pessoas de boa vontade para que sejamos convidados a contemplar o dom da vida e a valorizar a terra que a sustenta, pois estas são formas concretas de louvar o Criador. O momento que atravessamos é de grande incerteza, testemunhamos muitas crises e muito sofrimento humano, que decorrem dos conflitos descontrolados e da ausência de um normal funcionamento das organizações internacionais. “Parece, ao mesmo tempo, que a perturbação do equilíbrio harmonioso da criação está a acelerar”. Pode dizer-se que o mundo atravessa um momento muito difícil e perturbador. O que se passa no Médio Oriente constitui um fenómeno que atinge o cerne da humanidade. O mesmo se passa na Ucrânia e em todos os casos semelhantes que presenciamos. Os fenómenos estão relacionados e exigem um apelo a uma cultura de paz, o que é tanto mais urgente, quanto é certo que vivemos num mundo doente e perigoso.
Nestes termos, o Papa faz um apelo profético para «transformar as espadas em relhas de arados» (Is 2, 4) o que não é simplesmente um ideal para as nações, mas um chamamento individual, que nos convida a transformar o mal em vida. Esta transformação, todavia, não pode ser alcançada por meio de mudanças apenas exteriores. Exige, “em colaboração com a graça de Deus, uma conversão pessoal e coletiva mais radical: um regresso a Deus, que reordenará os nossos desejos, curará as nossas feridas e nos ajudará a crescer na virtude”, para usarmos a expressão do próprio Papa numa declaração bastante clara. De facto, as “verdadeiras ferramentas para construir a paz não são as armas de destruição, mas sim a verdade, o diálogo, a paciência, a bondade, a justiça, a misericórdia, a compreensão, o cuidado e o amor” É assim que se deve falar de “desarmamento”. Só as qualidades que resultam dos Evangelhos “possuem o poder de transformar os indivíduos, renovar as comunidades e curar as feridas do nosso mundo”.
As crises exigem “não só responsabilidade, mas também uma conversão do coração que dê fruto numa maior fidelidade a Deus, no amor mútuo e no respeito pelo dom da criação. Realmente, as discórdias que vemos no mundo, como a violência, a injustiça e a degradação ecológica, não são simplesmente o resultado de sistemas ou estruturas insuficientes, mas estão ligadas «com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem» (Gaudium et Spes, 10). “Na verdade, o coração humano é o lugar onde acontecem as lutas fundamentais e onde a nossa condição decaída se revela. Não é meramente a sede das emoções, mas o centro da pessoa: o lugar onde convergem razão, desejo, vontade e consciência. É aqui que lutamos com desejos contraditórios que existem dentro de nós entre amor e indiferença, verdade e ilusão, justiça e injustiça (cf. Tg 1, 14–15). As feridas da guerra e a degradação da terra estão, portanto, intimamente ligadas à condição do coração humano. Os conflitos que atormentam a humanidade são, em muitos aspetos, a expressão exterior da discórdia e da divisão interiores. Quando o coração está deformado, as relações sofrem e as estruturas que construímos começam a refletir essa desordem”. Dir-se-ia que a “desordem estabelecida” de que falava Emmanuel Mounier se generalizou, sem que pudesse prevalecer o respeito e a salvaguarda da dignidade da pessoa humana, fundamento de uma sociedade conforme com um espírito de compromisso com a justiça e a verdade. E prossegue o Papa Leão XIV: “O profeta Isaías falou de um tempo em que as nações «transformarão as suas espadas em relhas de arados» (Is 2, 4), mudando aquilo que destrói a vida naquilo que a sustenta. Hoje, porém, testemunhamos com demasiada frequência exatamente o contrário, já que os esforços continuam a ser direcionados para a violência e a guerra. A guerra deixa feridas que vão muito além do campo de batalha. Ela ceifa vidas, separa famílias e obriga milhões de pessoas a fugir para longe dos seus lares, aumentando assim o medo, a injustiça e a divisão. A guerra deixa atrás de si uma destruição social e ecológica que perdura por gerações. Além disso, a interação entre os conflitos armados e a degradação ambiental cria um ciclo vicioso, que destrói ecossistemas, contamina recursos essenciais, como o ar e a água, e compromete a segurança alimentar. Isto faz crescer a pobreza, a desigualdade e novas tensões sociais que podem contribuir para o surgimento de mais conflitos”.
Assim, para Leão XIV, somos chamados a deixar que os nossos corações sejam renovados, para que possamos procurar a paz e cuidar da criação. “Se assumirmos esta tarefa com humildade e fé, tornar-nos-emos colaboradores na obra divina de renovação” Gradualmente, “passaremos do deserto ao jardim, da divisão à comunhão e da violência à paz”. Leão XIV tem-se empenhado especialmente em lançar desafios concretos aos governantes do mundo no sentido de haver passos concretos que conduzam a uma ligação efetiva entre o desenvolvimento sustentável e a paz, quando a violência e a guerra estão a realizar a terra queimada. Devemos aspirar à coragem de percorrer um caminho novo, para que, no nosso tempo, as espadas sejam verdadeiramente transformadas nas relhas dos arados, em nome da Boa Nova de Jesus Cristo, para que a paz reine sobre toda a criação.
Guilherme d’Oliveira Martins