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Guilherme d'Oliveira Martins
Por uma Ética da Paz
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De um modo persistente e sem interrupção o Papa Leão XIV tem prosseguido um combate permanente por uma Ética de Paz. Impõe-se agir para pôr termo ao ciclo infernal da violência. Trata-se do único método eficaz num tempo em que se acumulam todos os sinais de indiferença e incompreensão. Assim, visitou a comunidade monástica e a Abadia de Montecassino, onde rezou diante do “túmulo de São Bento, confiando-lhe sua súplica pela paz nas regiões do mundo marcadas pelo sangue e pelo conflito”. A Abadia de Montecassino fica a cerca de 130 km de Castelgandolfo, onde Leão XIV está num período de repouso. O mosteiro, fundado por São Bento de Núrsia no ano de 529, fica na montanha de mesmo nome na província italiana de Frosinone. É considerado o maior mosteiro do mundo em termos de dimensões e o segundo mais antigo da Itália, depois do de Santa Escolástica, em Subiaco. São Bento de Núrsia (480–547), fundador da Ordem dos Beneditinos, é venerado como padroeiro da Europa. O monge italiano nasceu em Núrsia, foi para Roma para estudar, onde buscou oração e isolamento como eremita em uma gruta na região de Subiaco, antes de fundar o mosteiro em Montecassino. Para celebrar os 1500 anos da fundação, a Família Beneditina segue em preparação durante os quatro anos que precedem as comemorações. A peregrinação vai percorrer os “Lugares de Esperança” por onde São Bento passou. Em 1947, o Papa Pio XII declarou São Bento como o “Pai da Europa”. Em 1964, o Papa Paulo VI proclamou-o “Patrono da Europa". Ao fundador da Ordem dos Beneditinos, o Papa confiou “a súplica pela paz nas regiões do mundo marcadas pelo sangue e pelo conflito”. Esta foi uma visita inesperada, na qual o Papa teve a oportunidade de cumprimentar crentes anónimos, peregrinos e turistas. Leão rezou com a comunidade de monges, visitou o Arquivo e a Biblioteca, e almoçou com a comunidade. “Acredito que o Papa tenha ficado contente por poder visitar este lugar onde esteve sozinho há muitos anos, quando ainda era estudante em Roma”.
Hoje, mais do que nunca, recorda-se o Salmo 33 (34) “Procura a paz e vai ao seu encalço”, citado por São Bento – cuja memória litúrgica foi celebrada em 11 de julho – no Prólogo da sua Regra. Essa confiança do Papa a São Bento ocorreu no mesmo local onde, em 1964, São Paulo VI havia rezado quando consagrou a catedral após a destruição causada pela guerra. Foi nessa ocasião que o Cardeal Montini proclamou São Bento patrono principal da Europa, definindo-o como “Pacis Nuntius”, ou seja, testemunha e anunciador da paz. “Assim como Paulo VI naquela época, e como fizeram também os pontífices subsequentes, tanto João Paulo II quanto Bento XVI, o Papa Leão também subiu a Montecassino como peregrino da paz”. E pôde ainda acender a lâmpada que o próprio Paulo VI havia trazido em 1964, a lâmpada da paz.
O compromisso de rezar pela paz é diário para esses monges, por meio da intercessão do seu fundador. Ainda mais neste momento, no início do triénio de preparação para o ano jubilar de 2029, quando serão comemorados os 1.500 anos do nascimento de Montecassino. “No grande portão de entrada da Abadia há justamente a grande inscrição PAX que se torna uma mensagem que se transmite a todos aqueles que vêm aqui e depois partem. Não se trata apenas de receber a mensagem da paz, mas de nos tornarmos testemunhas dela, anunciadores ali onde vivemos”. E quem foi aqui agraciado com o Prémio Pacis Nuntius, foi o cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca de Jerusalém dos Latinos. Rezar pela paz em um lugar como este significa relembrar as feridas causadas pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. Em suma, para Montecassino, é uma vocação peculiar ser um sinal de paz justamente por causa da história que viveu: foram os homens da paz que reconstruíram estas muralhas, como disse o Papa Montini. “Conhecendo os horrores da guerra, compreendemos com ainda maior compaixão e misericórdia o sofrimento de todos aqueles que vivem hoje sob a ameaça, no aperto da guerra e dos conflitos. E, portanto, com ainda mais razão, há não apenas nossa oração, mas justamente o compromisso com a paz que procuramos viver, antes de tudo, em comunidade, para irradiá-la por meio de nosso testemunho e da nossa oração”. “Sentimo-nos confirmados e encorajados tanto em nosso compromisso monástico quanto em nosso compromisso eclesial mais amplo”. O Papa lembra que o primeiro dom que Cristo ressuscitado ofereceu aos seus amigos e ao mundo inteiro foi a paz. Devemos aprender a olhar para a cruz para nos tornarmos artesãos da paz. A paz é um dom, mas também uma responsabilidade, uma resposta a esse dom e, ao mesmo tempo, essa posição não esconde nada do drama violento da vida. Não se trata de uma supressão irrealista do mal ou do ódio, mas sim de uma superação. O Papa lembra que a paz se constrói. “Com a verdade, até mesmo quem faz a guerra afirma estar agindo em nome da paz. Ninguém tem a audácia de declarar que quer a guerra pela guerra.” Então temos medo de pronunciar a palavra verdade. O Papa insistiu, de facto, convidando a inverter o ponto de vista de quem narra os conflitos, colocando-se na perspetiva de quem é vítima. Pessoas reais, portanto. A referência a pessoas que são vítimas da guerra, de carne e osso, mulheres e crianças. A palavra “inimigo”, como sempre, em todas as guerras, esconde uma abstração.
Guilherme d’Oliveira Martins