Na Tua Palavra |
D. Nuno Brás
Editorial: No início como hoje
Quando o leitor ler este meu escrito, tudo pode ter já mudado. A sentença de morte que paira sobre Yusuf Nadarkhani, o pastor protestante que se converteu do islão ao cristianismo pode já ter sido executada, do mesmo modo que a sua pena, por força da pressão internacional, pode já ter sido comutada.

Como quer que seja, o facto é que Yusuf compareceu há dias pela 4ª vez perante os juízes do Supremo Tribunal do Irão, que lhe perguntaram se estava disposto a arrepender-se. À questão, Yusuf respondeu: “Arrepender significa regressar. Devo regressar a quê? À blasfémia que tinha antes da minha fé em Cristo?”. “À religião dos seus antepassados, o islão”, respondeu um juiz, ao que Nadarkhani disse simplesmente: “Não posso”.

Ao ler a breve descrição do que aconteceu há poucos dias, não pude deixar de me recordar das Actas do martírio de S. Cipriano de Cartago, quando este foi levado à presença do procônsul Galério Máximo que lhe disse: “Os sacratíssimos imperadores ordenaram-te que oferecesses sacrifícios aos deuses”. Cipriano respondeu: “Não o faço”. Galério Máximo insistiu: “Reflecte bem”. E Cipriano voltou a afirmar: “Faz o que te foi mandado; numa questão tão justa, não é preciso reflectir mais”. E Galério Máximo condenou Cipriano a ser decapitado.

No caso de Cipriano, o seu diálogo com o procônsul teve lugar no dia 14 de Setembro do ano 258; no caso de Yusuf, a sua presença no Tribunal teve lugar no dia 28 do mesmo mês, mas do ano 2011. No caso de Cipriano, os cristãos eram perseguidos pelo imperador romano Valeriano; no caso de Yusuf, os cristãos continuam a ser perseguidos pela lei de um país, mas em pleno século XXI.

Quando somos confrontados com relatos como aquele que transcrevemos acima, não podemos deixar de nos interrogar sobre o modo como vivemos hoje a fé e dela damos testemunho – sobretudo nós que, ao contrário de muitos cristãos contemporâneos, temos tantas facilidades em fazê-lo!

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