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Palavra bem dita
O fenómeno Barack Obama merece atenção. Independentemente do ângulo político em que nos situemos, a onda de entusiasmo que se gerou à sua volta é digna de registo e análise. Como se explica que, numa era em que as lideranças políticas (mas não só) encontram dificuldades até para galvanizar as suas próprias militâncias, um entusiasmo assim se tenha gerado? O facto de ser o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos explicará tudo? Será que tal ocorre apenas como ressaca da presidência cessante? Dever-se-á simplesmente a uma certa nostalgia messiânica? Sim, mas não só.

Creio pacífica a afirmação de que só uma confluência de factores poderá interpretar correctamente este fenómeno. Destaco um, que julgo tão importante quanto sugestivo: a enorme capacidade retórica do presidente Obama. Não questiono aqui se o seu brilhantismo formal é acompanhado, de forma proporcional, por um efectivo conteúdo (aspecto, devo reconhecer, não negligenciável para um discurso que se queira em sintonia com a realidade e, ainda mais, ao serviço da verdade), nem me detenho a analisar o beneplácito mediático que bem cedo, para alguns, soube conquistar ou que, para outros, pôde gozar. Limito-me a verificar o óbvio: a beleza de um discurso bem pensado, bem escrito e bem dito foi até capaz de «ressuscitar» muitos que estavam «mortos para a política»!

Não há nisto, propriamente, nada de novo, mesmo que com demasiada frequência pareça esquecido. Há muito que se conhece a força transformadora da «ars bene dicendi – arte de bem dizer». Mas se assim é, cabe perguntar se, num tempo algo depressivo como aquele que vivemos, a «palavra» e sobretudo a «palavra bem dita» serão caminhos para construir o entusiasmo consciente e a esperança criativa que parecem ir rareando. Válida para todos, esta questão sê-lo-á especialmente para os cristãos, uma vez que o anúncio da «Palavra de Salvação» suporá hoje um esforço de «salvação do uso da palavra». Grande é a responsabilidade de quantos tomam a «palavra», falada ou escrita, como grande deverá ser a exigência de quem a escuta. Não menores serão, contudo, os frutos que desta cultura da «palavra» se poderão colher.

Como sempre, o primeiro destinatário de uma «palavra» é o seu emissor! Neste caso eu, pois inicio com este texto uma colaboração com a Voz da Verdade que me levará, de tempos a tempos, a partilhar convosco algumas reflexões.