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Tony Neves
LUSOFONIAS – Alegrias e dores do mundo da Cultura

O mundo da Cultura é agridoce, em constante efervescência, sempre a borbulhar, a provocar contínua inquietação. Cada dia que passa, fazemos a experiência de eventos ou saltam nos media e redes sociais notícias que nos alegram e outras que nos fazem doer por dentro.

A semana passada tive a alegria de participar na inauguração, nos Jardins do Vaticano, da estátua de Álvaro Siza Vieira, com o título de ‘Encontro’. Também sofri por dentro a partida inesperada de Jorge Palma, a 21 de setembro, um dos maiores compositores e cantores da atualidade.

Comecemos pela boa notícia. A escultura de mármore, intitulada ‘O Encontro’,  foi inaugurada nos belos Jardins do Vaticano na manhã de 24 de setembro, logo após o encontro entre o Papa Leão XIV e o Presidente de Portugal, António José Seguro. O cardeal Tolentino Mendonça foi dos primeiros a chegar e é o grande responsável do evento, pois a obra fez parte do conjunto escultórico concebido para o Pavilhão do Vaticano na Bienal de Veneza de 2023, que tinha por tema ‘a amizade social’.

A escultura é discreta, feita em mármore branco de Estremoz, insinuando uma figura humana esguia e está solenemente instalada num ponto alto dos Jardins do Vaticano, a partir do qual se vê a imponente cúpula da Basílica de São Pedro. Foi colocada junto a uma oliveira centenária que mostrou já as suas azeitonas quase maduras e deu alguma sombra aos convidados para este evento.

A sessão iniciou com palavras da Irmã Raffaella Petrini, Presidente do Governo do Estado do Vaticano. Disse que esta estátua, situada nos Jardins do Vaticano com vista privilegiada para a Basílica de S. Pedro, proporciona um encontro feliz entre a natureza, nossa Casa Comum, e a Missão da Igreja. Todos quantos ali passarem e virem a estátua – lembrou a Irmã – percebe que ela é portadora da mensagem universal de fraternidade de que o mundo tanto precisa.

O Presidente da República de Portugal defendeu que a estátua de Siza Vieira ‘acrescenta um ponto mais de beleza a este espaço já de si tão belo’. Definiu Siza Vieira como ‘um dos maiores arquitetos de Portugal e do mundo’, dizendo que ele ‘é um arquiteto com vocação de escultor’. Evocando a tradição cristã, António José Seguro disse que ‘todos somos encontro’ e o diálogo é decisivo para o futuro da humanidade. Concluiu citando o Papa Leão XIV, que acabava de encontrar: ‘dialogar não significa renunciar à própria identidade’.

Partiu Jorge Palma, mas deixou-nos um legado enorme. Quando morre um conceituado artista, o mundo parece ficar mais pobre, mas a riqueza da sua inspiração e produção permanece inesgotável porque a memória e o património são sempre fonte de criatividade e de lições de vida para o futuro.

Os media tradicionais e as redes sociais evocaram o artista nos dias que se seguiram à sua morte. As suas canções repetiram-se à saciedade e deu para perceber a riqueza das suas músicas e a força interventiva das suas letras. Multiplicaram-se artigos de opinião que foram mais ‘elogios fúnebres’ do que recensões da sua obra musical e literária. Destacaram o seu espírito aberto e a sua constante intervenção social e política. Muito evocadas foram as suas palavras, na véspera do 25 de abril deste ano, quando recebeu o Prémio Carreira dos Prémios Play 2026. Já visivelmente agastado pela doença disse: ‘temos de reinventar o espírito de Abril, sempre. Liberdade, democracia, justiça. Como o Sérgio Godinho dizia, ‘a paz, o pão, habitação…saúde, educação’. Malta, mãos à obra, vamos fazer deste país uma coisa que merece ser melhor!’.

Recorto apenas dois curtos extratos de canções que me marcam e que mereceram destaques mediáticos:

‘Tudo o que eu vi / Estou a partilhar contigo / O que não vivi, hei de inventar contigo / Sei que não sei / Às vezes entender o teu olhar / Mas quero-te bem / Encosta-te a mim’. (Encosta-te a mim).

‘Enquanto houver estrada pra andar / A gente vai continuar / Enquanto houver ventos e mar / A gente não vai parar’. (A Gente Vai Continuar).

Sim, alegrias e dores como estas fazem o mundo avançar e tornar-se mais humano. Obrigado Siza Vieira, obrigado Jorge Palma.

Leão XIV esteve em França, onde pediu para darmos prioridade à conversão missionária. Por isso, neste mês das Missões, duas crónicas nascerão do rescaldo desta visita papal que, com banhos de multidão, encheu Paris, Lourdes e Metz de fé, cultura, alegria e missão.

 

Tony Neves, em Roma