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Guilherme d'Oliveira Martins
Uma peregrinação africana
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O périplo africano do Papa Leão XIV constitui no momento atual motivo de séria reflexão, pela importância do gesto apostólico, cívico e político e pelos apelos muito exigentes feitos nas intervenções que produziu. Lembrou, assim, antes do mais que “a África é, para o mundo inteiro, uma reserva de alegria e esperança, que não hesitaria em definir como virtudes “políticas”, porque os seus jovens e os seus pobres ainda sonham, ainda esperam, não se contentam com o que já existe, desejam reerguer-se, preparar-se para grandes responsabilidades, empenhar-se na primeira pessoa. A sabedoria de um povo não se deixa esmorecer por nenhuma ideologia e, realmente, o desejo de infinito que habita o coração humano é um princípio de transformação social mais profundo do que qualquer programa político ou cultural”. De um modo muito claro e corajoso, o Papa lembrou “quanto sofrimento, quantas mortes, quantas catástrofes sociais e ambientais acarreta uma lógica extrativista! Em todas as partes do mundo, vemos como ela, no fundo, alimenta um modelo de desenvolvimento que discrimina e exclui, mas que ainda pretende impor-se como o único possível”. Usando palavras que contrastam com o “espírito do tempo”, lembrou Paulo VI e a Encíclica “Populorum Progressio”, quando falava do “aspeto senil – totalmente anacrónico – de uma civilização comercial, hedonista, materialista, que ainda tenta passar por portadora do futuro».
Graças a sabedorias muito antigas, “a África tem uma necessidade urgente de superar situações e fenómenos de conflitualidade e inimizade, que dilaceram o tecido social e político de tantos países, fomentando a pobreza e a exclusão. Somente no encontro a vida floresce. No princípio, está o diálogo. Este não exclui a divergência, que pode tornar-se conflito. Como ensinou o Papa Francisco na Exortação “Evangelii gaudium”: «Perante o conflito, alguns limitam-se a olhá-lo e passam adiante como se nada fosse, lavam as mãos para poder continuar com a sua vida. Outros entram de tal maneira no conflito que ficam prisioneiros, perdem o horizonte, projetam nas instituições as suas próprias confusões e insatisfações e, assim, a unidade torna-se impossível”. Mas há uma outra forma de enfrentar o conflito: é aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo. «Felizes os pacificadores». Daí o discurso eminentemente positivo de Leão XIV, segundo o qual “Angola pode crescer muito, se, em primeiro lugar, vós, que detendes autoridade no país, acreditardes na multiformidade da sua riqueza”. E a palavra serena do Papa lançou o desafio: “Sabei gerir conflitos, transformando-os em caminhos de renovação. Colocai o bem comum acima das partes, não confundindo nunca a vossa parte com o todo. Então, a história dar-vos-á razão, mesmo que, no imediato, alguns vos sejam hostis”.
Sem margem para ilusões, o Sumo Pontífice deixou a um tempo a prevenção relativamente aos recursos mal aproveitados, ao risco de corrupção, bem como à ganância extrativista e à lógica transacional. “Juntos, podeis fazer de Angola um projeto de esperança. A Igreja Católica, cuja obra de serviço ao país sei o quanto estimais, deseja ser fermento na massa e promover o crescimento de um modelo justo de convivência, livre das escravidões impostas por elites com muito dinheiro e falsas alegrias”. Ao ouvir estas palavras, lembrámo-nos de D. Alexandre do Nascimento, o grande Cardeal que é um verdadeiro exemplo para as terras angolanas. E com sentido profético a Papa acrescentou: “Só juntos poderemos multiplicar os talentos deste povo maravilhoso, mesmo nas periferias urbanas e nas regiões rurais mais remotas, onde pulsa a sua vida e se prepara o seu futuro” Com efeito, urge eliminar “os obstáculos ao desenvolvimento humano integral, lutando e esperando com aqueles que o mundo rejeitou, mas que Deus escolheu. Foi assim, na verdade, que surgiu a nossa esperança: A pedra que os construtores rejeitaram veio a tornar-se pedra angular”.
Mas nesta viagem histórica, ficam-nos ainda os ecos da presença ecuménica de Leão XIV na Grande Mesquita de Argel: “Nesta tarde, rezo por vós, pelo povo da Argélia, por todos os povos da terra, para que a paz e a justiça do Reino de Deus se tornem presentes também entre nós, e para que todos nós estejamos cada vez mais convencidos da necessidade de sermos promotores da paz, da reconciliação, do perdão e daquilo que é verdadeiramente a vontade de Deus para toda a sua criação”.
Numa conjuntura de guerra, intolerância, de incompreensão e de incerteza, ouvimos da boca de Leão XIV estas palavras: “Neste lugar (o memorial do mártir Maqam Echahid na Argélia), recordamos que Deus deseja a paz para todas as nações: uma paz que não é apenas ausência de conflito, mas expressão de justiça e dignidade. E esta paz, que permite enfrentar o futuro com o coração reconciliado, só é possível através do perdão. A verdadeira luta pela libertação só será definitivamente vencida quando se tiver finalmente conquistado a paz dos corações. Sei como é difícil perdoar. Todavia, enquanto os conflitos continuam a multiplicar-se em todo o mundo, não se pode acrescentar ressentimento ao ressentimento, de geração em geração. O futuro pertence aos homens e às mulheres de paz. Por fim, a justiça triunfará sempre sobre a injustiça, e a violência, apesar das aparências, nunca terá a última palavra”.
Num tempo em que ouvimos palavras de ódio e ressentimento, a voz do Papa é encorajante, mas cada vez mais difícil, perante a cegueira e a indiferença. Eis por que teremos de serenamente ouvir estes ensinamentos, sabendo interpretar os sinais dos tempos à luz de uma corajosa determinação, mesmo que os tempos imediatos pareçam estar muito longe desta esperança. Mais do que respostas imediatas, impõe-se a que a dignidade humana prevaleça, como Leão XIV bem recordou ao evocar a perenidade da mensagem de Santo Agostinho de Hipona.
Guilherme d’Oliveira Martins