Artigos |
Pedro Vaz Patto
Um caminho que continua

Se algumas dúvidas ainda subsistissem sobre o propósito do Papa Leão XIV de dar continuidade ao caminho sinodal lançado pelo seu antecessor Francisco, elas seriam dissipadas pelas suas intervenções no Jubileu das equipas sinodais e organismos de participação que decorreu nos dias 24 a 26 de outubro com a presença de um grupo português em que me integrei.

Todos notaram a diferença de temperamento entre estes dois Papas. Leão XIV não suscita o entusiamo efusivo que suscitava Francisco, mas a mim agrada o seu estilo discreto e sereno e a sua clareza de pensamento.

Logo a abrir a sessão de respostas a perguntas formuladas por representantes das várias partes do mundo, o Papa colocou o foco no essencial: o caminho sinodal não é um fim em si mesmo, só tem sentido como instrumento ao serviço da missão da Igreja que é a evangelização. Como se afirmou na celebração da peregrinação dos participantes no encontro à Porta Santa, trata-se de «anunciar no nosso tempo a verdade inexaurível do Evangelho». E como sublinhou, no final do encontro, o cardeal Mario Grech, secretário do Sínodo dos Bispos, o desafio que temos pela frente é o da evangelização, mas não o enfrentamos individualmente, enfrentamo-lo juntos.

Do panorama sobre o estado do processo nas várias partes do mundo que ia sendo apresentado, notava-se a persistência de resistências e temores de riscos e desvios ou más interpretações que possam contribuir para a confusão doutrinal e o exacerbamento das tensões dentro da Igreja que não podem ser ignoradas.

A este respeito, retive, em especial, uma breve referência de um bispo anglicano sobre o que pode a Igreja Católica aprender com os erros seguidos pela Igreja anglicana na sua ancestral experiência de sinodalidade. Pessoalmente, não pude deixar de associar esses erros ao grave cisma que nessa comunidade eclesial se consolidou há poucos dias.

Para dissipar esses temores, algo de essencial foi sublinhado neste encontro. Em síntese, podemos dizer que a escuta recíproca a que somos chamados deve ser precedida da escuta da Palavra de Deus. Isso foi também sublinhado no momento penitencial da celebração da passagem da Porta Santa, quando se evocou a «tentação de fazer prevalecer as nossas ideias sobre a escuta da Palavra de Deus e a prática do discernimento». O discernimento conduz à luz do Espírito Santo, que é, como várias veze sublinhou o Papa Francisco o verdadeiro protagonista do caminho sinodal. E porque Deus é uno e trino, o Espírito não pode contrariar a Palavra.

Nesta linha, o Papa Leão XIV, na homilia da missa conclusiva do encontro, também realçou algumas importantes ideias sobre a verdadeira natureza do caminho sinodal.

Afirmou que esse caminho supõe que à lógica do poder se substitua a lógica do amor. Não se trata, pois, de contrapor ao poder da hierarquia o poder democrático dos leigos, porque é qualquer lógica de afirmação do poder e de luta pelo poder, venha ela de um ou de outro lado, que dever ser rejeitada. Só desse modo, e porque antes de tudo deve ser colocada a «busca de Deus em conjunto» poderão ser vividas «com confiança e com um novo ânimo as tensões que atravessam a vida da Igreja – entre unidade e diversidade, tradição e novidade, autoridade e participação». Essas tensões devem ser transformadas pelo Espírito, para que não se tornem «oposições ideológicas e polarizações prejudiciais». «Não se trata de resolvê-las reduzindo uma à outra, mas de deixar que o Espírito as fecunde, para que sejam harmonizadas e orientadas para um discernimento comum».

O caminho sinodal é, pois, um meio de reforçar a unidade da Igreja, não certamente de a enfraquecer.

E outro aspeto também retive do que se disse neste encontro. Entre muitos e diversificados testemunhos da vivência da sinodalidade em várias partes do mundo que foram apresentados, ouvi um sacerdote africano dizer que nas suas comunidades essa vivência leva que mais pessoas participem regularmente na eucaristia. Porque se sentem escutada e participantes em todos os aspetos da vida da Igreja. Ainda não é assim em muitos outros lugares. Mas seria bom que fosse.

 

Pedro Vaz Patto