O Sector da Pastoral Familiar aborda hoje uma tarefa de todos os dias: a consciência de que a passividade dos educadores entrega a outros a tarefa de ensinar e de formar uma personalidade forte nas novas gerações.
Quer em casa, quer na catequese paroquial, quer na escola, o discernimento esclarecido por uma escuta atenta leva-nos a assumir que o progresso da sociedade depende da intervenção responsável de todos.
Construir a sociedade, construindo o homem
As notícias sobre o Haiti chegam-nos a todo o momento e já hoje se conta com um número de mortos superior a duzentos mil. O terramoto de 12 de Janeiro destruiu o país e está a destruir a sociedade.
Quando tudo está destruído perde-se o sentido da vida e nós por cá, neste ainda jardim à beira mar plantado, mal nos damos conta do grau de destruição que aquele terramoto continua a fazer.
Sobretudo na capital do Haiti, Port-au-Prince, está já instalado o “salve-se quem puder” e há uma autêntica luta pela sobrevivência. Mas pior do que os danos provocados pela falta de uma estrutura de ordem, está em causa a verdadeira destruição daquela sociedade, daquele país.
Também os sobreviventes que ficaram fisicamente afectados pelo terramoto – sobretudo o crescente número de mutilados – constituem um ponto fraco da sociedade, a quem é preciso ajudar: será uma ajuda física e psíquica, que eleve o moral e constitua uma concreta reconstrução do homem dependente da sociedade.
A ajuda médica e hospitalar debateu-se com enormes dificuldades. O atraso de alguns dias na intervenção médica, a falta de medicamentos, apesar da gigantesca operação humanitária de governos e de organizações voluntárias de vários países, não evitou o elevado número de jovens e adultos que tiveram de sofrer amputações de mãos, braços ou pernas. Estimam-se já em mais de quatro mil.
E por cá o que podemos fazer? O fundamental será chamar a atenção dos nossos jovens para a complexidade desta situação que envolve dor, muito sofrimento pela perda dos familiares e amigos, desânimo pela perda dos bens pessoais, pela destruição completa de tudo e uma grande falta de perspectiva de futuro. (E não será que também aqui, na sociedade portuguesa, estamos a viver uma falta de perspectiva de futuro? ) Assim, o que se torna prioritário será a “reconstrução do homem”.
Num país profundamente católico, como o Haiti, claro que há excepções, claro que há o “salve-se quem puder”, mas o que em termos educativos podemos transpor do Haiti para o nosso núcleo familiar será a plenitude de Deus Vivo, que se define a si mesmo como fonte de vida. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Na cena que nos é apresentada na passagem do Evangelho, Jesus mostra que tem poder sobre a morte, pois Ele pode fazer viver aquele que está morto.
Todos nós somos Igreja, porque como baptizados fazemos parte do Corpo de Cristo. Ora o ministério da Igreja é um serviço à vida que só se consegue realizar com autenticidade em Cristo ressuscitado.
Só em Jesus Cristo o homem atinge a plenitude de vida na sua semelhança com Deus. Do mesmo modo que no mistério da criação, Deus é a fonte de todos os seres vivos, na morte e ressurreição de Jesus Cristo está o concreto da humanidade crente que o anuncia e celebra cada domingo.
A construção do homem é tarefa dos pais, dos padrinhos, da família em geral e do Estado, com as suas políticas educativas e sociais. Em família, porém, essa construção da personalidade passa pela transmissão dos valores assumidos pelos pais, pelos avós, etc. no seu exemplo, nas suas atitudes do dia a dia.
Dos mais jovens, o que se espera é uma atitude de escuta, de acolhimento e abertura ao saber dos mais velhos. Escuta empenhada como participantes de uma história que se constrói todos os dias, para se aprender a ler os sinais dos tempos.
A atitude de escuta, porém, não pressupõe passividade, pois quem escuta aprende a intervir e a nossa sociedade precisa de iniciativas dinâmicas e esclarecidas, na medida em que o progresso do nosso país depende da intervenção responsável de todos os portugueses.
Neste aspecto é cada vez mais decisiva a mobilização do que habitualmente designamos por sociedade civil. Portugal será o que os portugueses quiserem e hoje os atentados contra a família são muito profundos e deixarão marcas talvez irreversíveis. Por isso temos que assumir que a construção da sociedade pressupõe a construção equilibrada do homem.
Os pais hoje demitem-se?
Dizem os sociólogos que os pais hoje de demitem da verdadeira função de serem pais. Como tal, querem dizer que se demitem de serem educadores na construção de autênticos Homens e Mulheres que assegurem o amanhã.
Na família os seres humanos exprimem uma qualidade essencial: serem homens e mulheres iguais e diferentes, mas sentindo que são chamados a encontrarem-se na complementaridade do amor.
Toda esta polémica, que temos vivido a propósito do casamento de homossexuais, abana a estrutura dos nossos valores cristãos e vai minando os mais jovens, que são levados a tomar como padrão o que lhes é apresentado pela comunicação social.
São dois os aspectos da instituição familiar: os pais e os filhos. A heterossexualidade (homem e mulher) e a fecundidade, são qualidades constitutivas da família, que precisa dessa complementaridade das características fisiológicas e psicológicas inerentes ao homem e à mulher. Isto é preciso dizer aos nossos filhos e à sociedade em geral.
A palavra família significa a união de um homem e de uma mulher, selada pelo contrato matrimonial, e dispostos a que cada um seja o complemento do outro no amor posto ao serviço da vida.
Hoje fala-se muito na crise da família, mas pode-se perguntar quando é que a família não esteve em crise: a crise do crescimento e da fidelidade? A família supõe o amor dos outros, ou seja a busca do bem dos outros e não apenas de si mesmo, numa entrega generosa, pois só assim se pode experimentar a felicidade.
Há que dizer aos mais novos – sobretudo à adolescência inquieta - que se cada um pensa na sua felicidade, nos seus interesses e no seu bem-estar, porventura à custa dos outros, o que se vai gerar é inevitavelmente o conflito.
Mas os psicólogos mais experimentados no acompanhamento de jovens são unânimes: é importante que a personalidade dos adultos de amanhã se forme a partir de uma liberdade controlada. Ou seja, os pais devem apontar os limites e definir fronteiras. Desta tarefa não se podem demitir e mesmo que as fronteiras definidas sejam transpostas ocasionalmente, há que relembrar e reposicionar os jovens, dando-lhes a referência e o sentido dos limites.
Não é à custa de cedências constantes que os pais formam o carácter dos seus filhos e amanhã já poderá ser tarde.
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