Lisboa |
Cónego António Marim celebra 50 anos de ordenação sacerdotal
“Ser caminho por onde outros possam encontrar Deus”
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A família foi “determinante” para a vocação sacerdotal do cónego António Marim, que celebra 50 anos da sua ordenação sacerdotal. Ao Jornal VOZ DA VERDADE, o pároco da Lapa, em Lisboa, recorda as paróquias por onde passou, os Bispos com quem trabalhou diretamente e fala do desafio “engraçado e apaixonante” que continua a ter, aos 81 anos, na Basílica da Estrela.

 

“Nasci num berço onde Deus estava presente” e essa “graça determinou toda a minha existência”. A importância da educação cristã, recebida em casa, definiram, desde muito cedo, o caminho percorrido pelo cónego António Marim até aos dias de hoje, em que assinala meio século de sacerdócio. “Se quisesse resumir estes 50 anos de sacerdote diria que a minha paixão tem sido por ser um caminho por onde se passa e que permite a outros, através de mim, mas por graça d’Ele, poderem encontrar Deus”, partilha o sacerdote, ao Jornal VOZ DA VERDADE, numa imagem que lhe foi transmitida “pela avó”.

Apesar de pertencer a uma família fortemente “empenhada em dar notícia da sua fé”, a boa-nova da sua inquietação vocacional deixou, nos seus pais e seis irmãos, algum “espanto” quando propôs deixar de lado aquilo que “seria a continuidade de uma história, de um nome” de família. “Mas aceitaram muito bem, de forma muito serena”, assegura. Para esta compreensão contribuiu certamente a “boa” formação religiosa da mãe e a formação do pai, que tinha sido aluno num colégio dos Jesuítas. E foi, precisamente, na Companhia de Jesus que teve lugar uma das “fases mais marcantes da vida” de António Marim.

 

Ter referências na vida

Terminando o liceu, então com 18 anos, e através da “intervenção muito cuidadosa” do padre António Queiroz, jesuíta, é sensibilizado para pensar na possibilidade de se abrir à vida sacerdotal. “Foi pouco a pouco que fui pensando nisso”, revela. Para essa abertura contribuiu muito uma imagem do seu pai que guarda até hoje. “Desde muito novo, há uma imagem que me percorre sempre que é ver o meu pai, de joelhos, a confessar-se, na Igreja de Santa Isabel. Foi muito curiosa a impressão que aquilo me causou, a incompreensão do momento e, depois, a ajuda da minha avó, ao pedir-lhe explicações. De uma maneira muito singela deu-me a explicação de como era importante ter referências na vida e voltar, de vez em quando, a fazer o ponto de situação. As referências que estão presentes na nossa vida, no caso, Nosso Senhor Jesus Cristo, leva-nos a ter que reajustar, reajustar constantemente o nosso caminho com o caminho d’Ele. Era o que o meu pai estava a fazer”, descreve.

 

Encontro com “verdadeiros santos”

Depois de “circunstâncias favoráveis”, proporcionadas pela Companhia de Jesus, António Marim decidiu avançar com a sua decisão e ingressou no seminário de Soutelo, em Braga. “Aí fiz o meu noviciado, a primeira parte de estudos académicos, seguindo depois para a formação filosófica e, posteriormente, teológica”, já em Espanha. “Foram momentos preciosos de apuramento da vida espiritual com o encontro precioso de verdadeiros santos”, lembra o cónego Marim, referindo-se “aos irmãos” que foi encontrando na congregação. “Encontrei mestres extraordinários” e “encontrei-me com gente especializada nas coisas de Deus, mas de Deus, e isso é que marca!”. “Quando encontramos um mestre que não ensina, apenas, mas que tem um comportamento que é coerente com aquilo que ensina, isso marca definitivamente. Encontrei isto nos Jesuítas”, assegura.

Completada a formação, o então membro da Companhia de Jesus foi ordenado, na Sé de Lisboa, em 1969, pelo Cardeal Cerejeira. Face aos tempos conturbados que se viviam no clero, em que “entrou numa espécie de crise”, no período pós-Concílio, foi necessário que, em vez de prosseguir com o “remate” dos estudos [como é comum na formação dos sacerdotes jesuítas], tivesse uma “intervenção direta na vida pastoral, ajudando as instituições”, o que veio a acontecer no Colégio São João de Brito, onde lecionou Filosofia e teve como aluno Manuel Clemente, atual Cardeal-Patriarca de Lisboa, como o próprio fez questão de lembrar na celebração do passado Domingo, 7 de julho, na Basílica da Estrela (ver caixa).

Seguindo as ordens do seu superior, o padre António Marim muda-se depois para Bruxelas, na Bélgica, com a missão de lecionar numa universidade em Louvain-la-Neuve. Em 1974, tem a primeira nomeação como pároco, na Paróquia de Notre-Dame, em Dion-le-Mont. “Foram-me confiadas paróquias juntas ao sítio da universidade. Eram aldeias onde se encontravam professores e alunos. Foi um momento muito bonito”, lembra o sacerdote que revela ter recebido, por estes dias, uma mensagem do pároco atual da paróquia belga, onde assinalava os frutos da sua passagem por aqueles lugares.

 

“Separação não desejada”

Na Bélgica, o padre Marim permaneceu 12 anos. Durante esse tempo, o sacerdote não esconde uma “uma separação não desejada da comunidade jesuítica”, que o tinha enviado para aquele país. Durante esse período, e “subordinado ao Bispo local, o então Cardeal Suenens”, uma “grande figura do Concílio Vaticano II”, o padre António Marim não compreendeu o “silêncio inexplicável, e mesmo chocante, dos jesuítas portugueses” em relação à sua estadia em Bruxelas. Isso contrastava com a forma com que foi “acolhido pelo clero da Diocese de Malines-Bruxelles”, aponta.

É precisamente nessa altura, nos inícios dos anos 80, que recebe, em Bruxelas, a visita inesperada do então Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro. “É uma figura que nunca posso esquecer”, sublinha. O prelado português tinha-se deslocado àquele país para “umas pregações quaresmais na Catedral de Bruxelas”. Apercebendo-se da presença do sacerdote português, o Cardeal Ribeiro pergunta-lhe: ‘Meu querido amigo, o que estás aqui a fazer?’. “Ele conhecia-me, mas nada como os Jesuítas e como o Cardeal Cerejeira. Recebi esse olhar, de carinho, e foi muito importante. Foi aí que a porta ficou aberta”, resume o cónego António Marim, que, pouco tempo depois, recebeu a autorização da Companhia de Jesus para poder integrar o clero da Diocese de Lisboa.

 

‘Sacudidela’

Já no Patriarcado, o sacerdote, então com 46 anos, recebe como missão ser coadjutor na Paróquia dos Anjos, em Lisboa, onde veio a trabalhar com o padre João de Sousa. “Foi um tempo maravilhoso. Entrei numa comunidade que estava muito cercada de pobreza, uma pobreza visível. Tínhamos, à frente da igreja, uma espécie de centro social que fornecia comida aos pobres. Foi, para mim, uma ‘sacudidela’ importante sair de um meio académico e passar para um meio urbano, mas muito marcado pelas chagas da pobreza. Foi muito bom”, assegura.

Em 1987, o Cardeal Ribeiro pediu ao padre António Marim que “tomasse conta” da Paróquia da Amadora e não escondeu o desafio que o sacerdote tinha pela frente. “Disse-me: ‘Marim, vou-te pedir que assumas uma comunidade que está em crise. O seu pastor [o padre Luís Maurício], adoeceu há 2 anos, não o tenho retirado por delicadeza para com ele e com alguma esperança na sua cura e a paróquia está desmobilizada e muito entristecida com a doença do seu pastor’”, recorda. Chegado à paróquia, o padre Marim encontrou “traços muito positivos da intervenção pastoral do padre Luís Maurício”, mas deparou-se também com uma “certa desconfiança” na sua entrada. “Logo que as melhoras do padre Luís Maurício deram um certo interregno, organizei uma Missa pelas suas melhoras e pelo reencontro da comunidade com o seu pároco. Aquela celebração marcou de tal maneira aquela comunidade que foi o meu ‘passaporte’ para ser acolhido, ouvido. O Cardeal Ribeiro dizia-me muitas vezes: ‘Aquele teu gesto foi decisivo’. Foi um momento de viragem”, atesta.

 

“Justo lugar”

Nesta paróquia da periferia de Lisboa, o padre Marim encontrou gente proveniente de outras zonas do país, “com uma tradição religiosa” e aberta à “experiência” que o sacerdote tinha trazido da Bélgica. “Era uma comunidade onde o prior não tinha tudo a dizer, tendo tudo a dizer. Isto é, o padre ocupa o seu justo lugar e não deve ultrapassar esse lugar. O seu justo lugar é estar sempre, acompanhar tudo, mas não é para fazer tudo”, justifica. A mobilização dos leigos da paróquia e a “falta de queixas” recebidas no Patriarcado de Lisboa levaram o Cardeal Ribeiro, um ano após a nomeação do pároco, a visitar a paróquia, manifestando a sua alegria pelo facto e a atestar a colaboração dos leigos. “Este gesto do pastor é muito importante. Ele disse-me também: ‘Tu estás rodeado de gente que pode dar o seu melhor porque estão nos melhores anos das suas vidas’. Alguns desses frutos estamos a colher agora, como por exemplo, a ordenação sacerdotal do padre Miguel Rodrigues”, proveniente da Paróquia da Amadora e que teve lugar no passado dia 29 de junho.

 

Bastava a confiança

Depois da morte de D. António Ribeiro, em 1998, e com a nomeação de D. José Policarpo como Patriarca de Lisboa, o padre António Marim é chamado, em 2002, para desempenhar as funções de vigário geral do Patriarcado de Lisboa, assumindo depois as paróquias de São Vicente de Fora, entre 2004 e 2011, e Graça, a partir de 2006 até 2011. Do trabalho próximo com o Cardeal Policarpo, que o criou cónego da Sé, em 2003, o sacerdote recorda este Bispo “determinado e com ideias, projetos” que o convenceu a aceitar o cargo de vigário geral da diocese. “D. José Policarpo era um homem apaixonante. Quando me convidou para vigário geral, eu perguntei o porquê do convite. Ele perguntou-me se era muito importante saber porque me convidava e se não bastava a confiança que isso representava da parte do Bispo. Depois, disse-me: ‘A tua assinatura é a minha assinatura’. E disse-me ainda uma coisa que eu nunca mais esqueci: ‘Não te aflijas: prefiro o erro à hesitação’”.

 

“Estar em comunidade”

Aquando do pedido de resignação apresentado pelo Cardeal-Patriarca D. José Policarpo, por ter completado 75 anos, o cónego Marim é nomeado pároco da Lapa, ficando assim responsável pela Basílica da Estrela. “Ele sentiu que eu tinha, talvez, uma particular tendência para estar em comunidade e viver no seio de uma comunidade e falou-me na Basílica da Estrela. Disse-lhe ‘sim’”, refere. “Encontrei uma comunidade onde, de uma maneira muito bonita e muito real, uma classe mais humilde, muito ligada à vida comercial aqui à volta, convive de forma muito bonita e aberta com uma classe culturalmente mais evoluída e mais estável financeiramente e profissionalmente. É uma comunidade exigente”, assume o sacerdote, referindo que esta missão atual acaba por ser “uma espécie de ciclo que se fecha”. “Tendo nascido em Sintra, viemos para Lisboa por causa dos estudos e tínhamos casa na Rua de São Bernardo. A minha avó materna vinha muito à Basílica da Estrela e tinha uma devoção enorme ao Sagrado Coração de Jesus. Por isso, eu fui, como ela dizia, a sua ‘bengalinha’ e vinha com ela muitas vezes aqui e ganhei um carinho especial por esta igreja. Por isso, terminar este ciclo de vida que está a aproximar-se do seu termo foi, e continua a ser, um desafio engraçado e apaixonante”, assegura.

 

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Vida para chegar a todos

Na celebração que assinalou o “meio século” de ordenação sacerdotal do cónego Marim, o Cardeal-Patriarca de Lisboa felicitou o sacerdote e convidou os paroquianos a refletirem sobre a importância do sinal da cruz. “O sinal da cruz significa as duas dimensões completas que a vida ganha em Cristo e, por isso, são a nossa glória. Para cima, em direção ao Pai, em ação de graças; para os lados, para chegar a todos, em dedicação e caridade. No meio, está o coração de Jesus. Esta é a Basílica do Coração de Jesus, a primeira que lhe foi dedicada na Europa, mas é sobretudo na nossa vida que isso vai acontecer”, desafiou, na Missa que decorreu no passado Domingo, 7 de julho, na Basílica da Estrela e onde também foi assinalado o 6.º aniversário da entrada solene de D. Manuel Clemente como Patriarca de Lisboa.

texto e fotos por Filipe Teixeira
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