Vivemos o Natal, cujo Tempo Litúrgico termina hoje com a Festa do Baptismo do Senhor, mas foi grande o ruído da Leopoldina, Popota e outras personagens que animaram as campanhas publicitárias das cadeias de supermercados. Em detrimento do Presépio, ganham relevância pública outras personagens, imaginadas, criadas e propostas apenas com o objectivo de induzir a comprar. E com a agressividade suficiente para atingir o imaginário das crianças, moldar comportamentos e criar novas necessidades.
As três mensagens de Ano Novo que aqui abordamos têm um ponto comum: a exigência da educação dos agentes de hoje e das novas gerações.
Há dias, perante milhares de peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, no Vaticano, o Papa admitiu que “os problemas não faltam na Igreja e no mundo, bem como na vida quotidiana das famílias”. Quer isto dizer que é preciso formar famílias fortes, para que cada membro seja capaz de vencer as adversidades dos tempos nas situações concretas que cada um enfrenta. E não se formam famílias fortes sem o sentido de compromisso: comprometermo-nos verdadeiramente a amarmo-nos em casal; a amar os filhos dedicando-lhes uma atenção formativa; a amar os que estão no fim da vida, numa entrega generosa de carinho e acolhimento, que os faça sentirem-se pertença da família.
A mensagem do Presidente da República
Na mensagem de Ano Novo de Cavaco Silva destacamos a tónica posta em três valores: Confiança, Ética e Esperança, a viver nos tempos de grande exigência que enfrentamos. Refere o Presidente da República que nesta “conjuntura que é de grandes dificuldades, temos de perceber que a nossa crise não é apenas económica. É, também, uma crise de valores: Há que recuperar o valor da família, pois o esbatimento dos laços familiares tem sido um dos factores que mais contribuem para agravar as dificuldades que muitos atravessam.”
E é na família que aprendemos a ser responsáveis na construção de um futuro melhor, ou que aprendemos a ser indiferentes, procurando passar ao lado e evitar grandes trabalhos ou incómodos, desligando-nos da realidade em que vivemos e adoptando um tom fatalista de vida.
O Presidente diz muito claramente que não quer esconder a realidade difícil dos portugueses e alerta-nos que “devemos apostar em políticas públicas que promovam uma educação exigente e uma formação profissional de qualidade, que fomentem a inovação”.
Como pais sabemos que é difícil incutir nos filhos o espírito de exigência, rigor e perfeição. Porém, esta “educação exigente” faz-se desde a primeira hora, não tolerando erros graves e corrigindo todas as atitudes de “falta de educação”. Um exemplo positivo é o sentido de ecologia (respeito pelo ambiente) na separação dos lixos domésticos, onde os mais novos participam com entusiasmo. Mas temos de ser exigentes connosco e com os nossos, para não ficarmos nos últimos lugares em cidadania e desenvolvimento: “De acordo com os indicadores mais recentes, Portugal já baixou para a 19ª posição, estando apenas à frente de oito países da Europa de Leste que aderiram há poucos anos à União. Tempos difíceis são tempos de maior exigência e de elevada responsabilidade”, alerta o Presidente.
A Mensagem do Santo Padre
Habitualmente em família e com os amigos ou colegas de trabalho, os nossos votos de Ano Novo assentam em duas tónicas: Saúde e Paz. A mensagem do Papa Bento XVI vai bastante mais longe, pois o mote é «Se queres cultivar a paz, preserva a criação». “O respeito pela criação reveste-se de grande importância, designadamente porque «a criação é o princípio e o fundamento de todas as obras de Deus» e a sua salvaguarda torna-se hoje essencial para a convivência pacífica da humanidade.”
Como seria expectável, a mensagem de Ano Novo de Bento XVI não poderia deixar de fazer referência à sua recente encíclica Caritas in Veritate, que é um texto importantíssimo, sobre o qual todos devemos reflectir (ver caixa). Na sua mensagem, o Papa diz-nos que a acção irresponsável do homem tem contribuído para “a desertificação, a deterioração e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento de calamidades naturais, o desflorestamento das áreas equatoriais e tropicais, poluições e lixo, novas doenças, poder destruidor absoluto – mas é o próprio contexto humano que o homem não consegue dominar, criando assim para o dia de amanhã um ambiente global que se lhe poderá tornar insuportável. Problema social de grande envergadura, que diz respeito a toda a família humana.”
Atenção pais, avós e padrinhos com responsabilidade na educação cristã dos mais novos. O Papa dirige-se a nós como “herdeiros das gerações passadas e beneficiários do trabalho dos nossos contemporâneos”, alertando-nos que “temos obrigações para com todos, e não podemos desinteressar-nos dos que virão depois de nós aumentar o círculo da família humana. A solidariedade universal é para nós não só um facto e um benefício, mas também um dever. Trata-se de uma responsabilidade que as gerações presentes têm em relação às futuras.”
A Mensagem do Cardeal-Patriarca
O Cardeal-Patriarca de Lisboa defendeu "uma profunda revolução cultural e civilizacional" para que a humanidade volte a encontrar a justiça e a paz.
"A humanidade está, como nunca, perante o desafio de renovação de civilização", afirmou D. José Policarpo na sua homilia do Dia Mundial da Paz, proferida na paróquia de Nossa Senhora da Purificação de Oeiras.
O Cardeal-Patriarca dirigiu as suas palavras para os "grandes problemas" que, numa época de globalização, "são comuns a toda a família humana, como o são, por exemplo, a salvaguarda do planeta Terra, a casa onde habitamos, a construção da paz, a vitória contra a violência, a promoção da justiça, de modo particular nos sistemas económico-financeiros e sociais".
Conclusão
Podemos tomar agora consciência das nossas responsabilidades como educadores e não deixar que estes problemas sejam ignorados, quando muitas vezes apenas desejamos uns aos outros um “Bom Ano, com tudo de bom”…
É preciso empenho, arrojo, mas sobretudo uma grande vontade de participar na construção de um futuro melhor. Relembramos o desafio de João Paulo II em 22 de Outubro 1978 com a célebre frase “Não tenhais medo. Abri, escancarai as portas a Cristo!” e não nos afastemos dos nossos deveres e dos nossos compromissos.
Informação complementar:
Caritas in Veritate
Neste texto o Papa põe em realce que o desenvolvimento humano integral está intimamente ligado com os deveres que nascem da relação do homem com o ambiente natural, considerado como uma dádiva de Deus para todos, cuja utilização comporta uma responsabilidade comum para com a humanidade inteira, especialmente para com os pobres e as gerações futuras.
É importante perceber que o Papa alerta ainda, neste texto, para que se adopte um modelo de desenvolvimento fundado na centralidade do ser humano, na promoção e partilha do bem comum, na responsabilidade, na consciência da necessidade de mudar os estilos de vida e na prudência, virtude que indica as acções que se devem realizar hoje na previsão do que poderá suceder amanhã.
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