DOMINGO XXVIII COMUM Ano B
“Bom Mestre, que hei-de fazer
para alcançar a vida eterna?”
Mc 10, 17
Nascemos inquietos e curiosos, ansiosos por conhecer e por fazer. As nossas mãos esticam-se no desejo de tocar, de agarrar, de moldar, de dar. Talvez a mão estendida de Adão, que Miguel Ângelo pintou no tecto da Capela Sistina, tenha recebido de Deus, com a vida, o mesmo desejo de criar. A fazer coisas nos descobrimos, e é tão doloroso, por incapacidades várias, sentirmos que não podemos fazer nada! Numa doença, num beco sem saída, na velhice, numa morte, revoltamo-nos contra a inacção, e, nem que seja por dentro, precisamos continuar a fazer sonhos e projectos, a pensar e a amar.
Não sabemos de onde veio a riqueza do homem que interpelou Jesus sobre a vida eterna. Conhecemos muitos casos em que o excesso de bens cria um vazio difícil de preencher. Como se a maldição do Rei Midas (que transformava em ouro tudo o que tocava) se espalhasse naqueles que enchem a vida de coisas! Mas aquele homem não é indiferente aos outros. Passa com distinção no exame dos mandamentos que configuram a vida social. É verdade que a fasquia não é alta, e a proposta é “não fazer o mal”, mas há quem possa dizer como ele: “tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude”? Mais do que orgulho, transparece a sede de algo mais. Mas o convite de Jesus a viver de um tesouro maior implica despojar-se do tesouro que tem: os seus bens. E fazer deles dom aos que precisam. Porque, no seu (e no nosso coração, talvez) o amor a Deus “sobre todas as coisas” é uma frase bonita, mas difícil de viver.
Pois o perigo da riqueza é tornar-se idolatria. Faz-nos “pequenos deuses”, ilude-nos e cega-nos. Exige o “culto” da ostentação e do acumular egoísta. Cria o seu pequeno “reino dos céus” na terra, exclusivo de poucos, excluindo muitos. Fundamenta-se na certeza de que tudo e todos podem ser comprados. Passamos a querer “ser Deus”, em vez de O acolher e amar. “Alcançar a vida eterna” é o contrário de receber e acolher. Como acolher uma dádiva quando a vida está tão cheia? E logo esta dádiva que só entra em nós se nos puder encher em totalidade! Porque a vida eterna começa já aqui, quando somos ressuscitados em Cristo!
Também na fé corremos o risco de sermos funcionários. Dizia-o o Papa Francisco há dias: “Tu és cristão? Tu és cristã?”. “Sim, sim, vou à missa aos domingos e procuro fazer o que é certo…”(…) «Mas tu és uma pessoa aberta? Estás aberta às surpresas de Deus ou és um cristão funcionário, fechado? “Eu faço isto, vou à missa ao domingo, a Comunhão, a Confissão uma vez por ano, isto, aquilo… Cumpro as regras”. Estes são os cristãos funcionários, que não estão abertos às surpresas de Deus, que sabem muito de Deus mas não encontram Deus.» Se queremos seguir Jesus, mais importante do que “fazer”, é “ser”: com Ele e como Ele!
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