Lisboa |
GTMR - Grupo de Teatro Musical Religioso apresenta ‘Clara - Uma luz na noite’
Evangelizar pelas artes
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Começam cada ensaio com uma oração e vão agora dar a conhecer a vida de Madre Clara, religiosa beatificada em Lisboa, em 2011. Fundado há cinco anos, o GTMR - Grupo de Teatro Musical Religioso quer evangelizar pelas artes e passou, neste mês, a integrar os grupos de pastoral juvenil da Paróquia da Parede, em Cascais.

 

Era uma lisboeta. Uma pessoa normal, como qualquer outra, que deixou os salões dourados da nobreza do século XIX para se dedicar aos pobres. ‘Esta é que é a minha gente!’, dizia Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque, mais conhecida como Madre Clara, ou simplesmente Mãe Clara, fundadora da Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (CONFHIC). É a vida desta religiosa portuguesa que o GTMR - Grupo de Teatro Musical Religioso vai levar ao palco, no musical ‘Clara - Uma luz na noite’. “Esta peça demorou seis meses a ser escrita. O desafio inicial foi conhecer a Mãe Clara e ler todos os livros dela para perceber o carisma. Ao mesmo tempo, nos musicais, procuro sempre apelar à juventude e tinha de encontrar uma fórmula para os ‘convencer’. Estamos a falar de uma história do século XIX e o que me lembrei foi fazer uma storyline paralela, nos dias de hoje”, começa por explicar ao Jornal VOZ DA VERDADE o encenador Tiago Sepúlveda, fundador do GTMR. “A história começa assim: é uma família numerosa e há uma miúda, a Pipa, que vai numa visita de estudo ao Instituto Hidrográfico, em Lisboa. Os miúdos portam-se mal e a professora manda-os fazer um trabalho sobre o instituto. A Pipa começa a estudar e descobre que o Instituto Hidrográfico era o Convento das Trinas, das Franciscanas Hospitaleiras. É aqui que ela começa a descobrir a Mãe Clara e a sentir-se tocada pela sua história”, revela o encenador.

 

A primeira encomenda

Tiago Sepúlveda fundou o GTMR - Grupo de Teatro Musical Religioso em 2013. Após três musicais, ‘Clara - Uma luz na noite’ foi “a primeira encomenda” que teve. “As irmãs da CONFHIC viram o musical da Lúcia, na Boa Nova, e gostaram muito. O contacto inicial foi feito talvez no início deste ano e comecei logo a escrever”, recorda, lembrando igualmente “a celebração dos 175 anos do nascimento” da beata Maria Clara e as “várias iniciativas que a congregação tem organizado, como concertos e palestras”. “A Mãe Clara, desde o início da congregação, que era também muito ligada às artes. As irmãs sempre tiveram uma escola de música e um grupo de teatro”, frisa.

Depois de quase meio ano de pesquisa e escrita, ‘Clara - Uma luz na noite’ começou a ver a luz do dia em junho. “Os primeiros ensaios iniciaram-se ainda antes do verão. Batalhámos mais a parte musical, antes ainda dos castings, e aproveitámos para rodar as músicas. Em julho e agosto esteve tudo parado, porque são meses terríveis e não se consegue fazer nada, mas em setembro retomámos em força, já com alguns atores profissionais”, conta o encenador, referindo que ‘Clara - Uma luz na noite’ vai ter “para cima de 30 atores”.

 

O nascer de um projeto

Estávamos em 2013 quando Tiago Sepúlveda fundou o GTMR - Grupo de Teatro Musical Religioso. “Eu gostava de fazer musicais e como ninguém me convidava para fazer nenhum, decidi avançar e fazer os meus próprios musicais”, graceja. Um pouco mais a sério, este encenador lamenta que haja poucos musicais de cariz religioso, mesmo no estrangeiro. “Fiz pesquisas na internet acerca de musicais de cariz religioso e, mesmo a nível internacional, a verdade é que não havia assim nada de especial. Procurei em Londres, e também nos Estados Unidos, peças para poder comprar o librete, para adaptar e traduzir, mas o que havia era tudo muito infantil e não me apelava nada. Como não existia quase nada, pensei: ‘Bem, vou escrever eu. Vou-me aventurar, vou escrever e vou-me tornar libertista’”, conta. E assim foi. Tiago marcou uma primeira reunião, sabendo desde logo que “tinha de começar devagarinho, num projeto pequeno”. “Pensei em criar um grupo e fiz, em julho, uma reunião com vários elementos: um cunhado, uma colega minha da área da música, uma paroquiana da Parede para ajudar com o guarda-roupa… éramos somente quatro ou cinco pessoas. Peguei numa série de livros que tinha lá em casa, dos miúdos, daqueles com apenas dez folhas, grossas, com histórias da Bíblia, porque estes livros têm o que é essencial para se começar a trabalhar: quatro ou cinco personagens principais, a história contada muito rapidamente, eliminando tudo o que é ruído à volta da história e ficando somente o essencial. Pus cada um com um dos livros – era o David e Golias, Moisés, o Jardim do Éden, entre outros – e vimos como é que cada história se poderia pegar. Depois votámos e o que ganhou foi o Jardim do Éden, que levou ao musical ‘Nem tudo são rosas no Jardim do Éden’. Até calhou bem, porque no fundo é quase o início, apesar de não ter sido o primeiro livro da Bíblia, é como se fosse o início da história. Seguiu-se a fase de escrever o guião, em setembro/outubro começámos a ensaiar e apresentámos a peça em dezembro de 2013, no salão paroquial da Parede, que conseguimos encher com 250 pessoas, em cada uma das duas sessões”, refere o pai deste projeto. “Era um musical de cerca de meia hora, com seis ou sete músicas, não mais, e com quatro ou cinco personagens principais. Normalmente, não marco uma data para a estreia; vamos ensaiando, vamos vendo como as coisas vão correndo e depois vê-se quando se consegue fazer. Na estreia, gostei que as pessoas tivessem ficado com pena de ser um musical pequeno. As pessoas gostaram mesmo muito da peça”, recorda Tiago Sepúlveda, sublinhando a relevância do teatro musical: “O teatro musical é uma coisa relativamente simples. Não sendo simplista, o teatro musical é algo para ser apreendido imediatamente. Não é para irmos para casa pensar nesta ou naquela personagem e no que será que aquilo quer dizer. Quando vamos à ópera, são histórias baseadas em grandes livros da literatura; no teatro musical é tudo mais imediato, que vive da imediatitude”.

 

‘O Astrónomo’ e ‘Lúcia’

Após o sucesso da estreia, há cinco anos, 2014 foi um ano sabático e de reflexão do caminho que o GTMR iria seguir. Em 2015, começaram a escrever e ensaiar ‘O Astrónomo’, baseado num conto do padre Nuno Tovar de Lemos, jesuíta, do livro ‘O Príncipe e a Lavadeira’. “O musical ‘O Astrónomo’ esteve em cena no auditório dos Maristas, que já tem uma capacidade para 600 lugares, depois fomos para o auditório da Boa Nova e, passado uns meses, fizemos uma nova sessão nas Aldeias SOS de Bicesse. Era uma história cujo original só tinha três personagens e que teve de ser desdobrada. Se o ‘Jardim do Éden’ tinha meia hora, ‘O Astrónomo’ já teve uma hora de duração e éramos mais de 40 atores”, salienta.

‘Lúcia - O início de Fátima’ foi o terceiro musical do GTMR e foi apresentado em maio deste ano. “O mais desafiante nessa peça foi conhecer e ir ao fundo da história. Baseei-me muito nas memórias da Irmã Lúcia, que tinha diálogos inteiros que foram aproveitados. O número de atores voltou a subir em relação à peça anterior e passámos a mais de 50! Era também uma peça muito grande, com duas horas e meia, mas foi muito recompensador e as pessoas gostaram imenso. Toda a gente me diz para a fazer outra vez e vou tentar colocá-la novamente em cena em Lisboa e no Porto. O problema é que não há capital de risco e alugar uma sala em Lisboa pode custar quase quatro mil euros por noite”, observa o fundador do Grupo de Teatro Musical Religioso.

 

Desafiante

Inês Barcelos integra o GTMR praticamente desde o início, colaborando na produção. “Fiz ballet e teatro durante muito tempo, quando era miúda, e sempre ficou o bichinho, apesar de a minha vida profissional não ter nada a ver com isto, uma vez que sou arquiteta. Como sempre gostei do espetáculo, o Tiago convidou-me para ajudar na parte de produção e no guarda-roupa”, refere Inês, ao Jornal VOZ DA VERDADE.

Sobre a importância de um grupo como este para as artes e a evangelização, esta leiga de 31 anos salienta que o GTMR “acaba por ser um grupo de partilha”. “Os miúdos acabam por conseguir contactar com a fé de uma maneira diferente, conhecer histórias que contribuíram muito para a nossa fé, e é bom também ver o trabalho que se gera dentro do grupo. São miúdos que estão aqui a fazer uma atividade extra, que depois conseguem colaborar com os profissionais”, aponta.

Sobre o musical ‘Clara - Uma luz na noite’, Inês Barcelos destaca o desafio. “Está a ser muito desafiante para todos. Este é um trabalho completamente diferente do anterior musical, da Lúcia, sobre uma pessoa completamente diferente”, menciona.

 

Para todos

Com (quase) quatro musicais no currículo, o GTMR - Grupo de Teatro Musical Religioso quer agora expandir-se. “Depois deste musical da Mãe Clara, está visto que o modelo funciona e estamos em fase de expansão. Estamos a tentar ir para Carcavelos e para o Estoril. São dois grupos que temos preparados para arrancar. Sendo um pouco ambicioso, gostava que este modelo tivesse pernas para evoluir no estrangeiro”, revela Tiago Sepúlveda.

Neste mês de outubro, este grupo vai passar a integrar os grupos de pastoral juvenil da Paróquia de Parede.  O conceito, segundo o encenador, é ter uma pastoral para todos. “Queremos ter algo para as famílias, porque foi uma coisa que eu senti necessidade, porque acho que não há. Nas paróquias, há coisas para os pequeninos, para os mais velhos, para os adultos, para os grupos de jovens, mas o GTMR é um sítio onde toda a família pode estar junta. Temos aqui famílias inteiras, com os mais pequenos, os pais e até os avós”, salienta.

Este é um grupo que evangeliza? “Espero que sim! Um dos nossos objetivos é evangelizar através das artes. Tentamos evangelizar, sem ser forçado. Normalmente, no início do ensaio, fazemos um momento de concentração, fazemos uma oração simples, para ver se tudo corre bem, se alguém tem alguma intenção especial pode dizer, e só depois então é que fazemos um pequeno aquecimento físico antes de começarmos o ensaio propriamente dito”, responde, abrindo a ponta do véu para o segredo do GTMR - Grupo de Teatro Musical Religioso: “O segredo é a entrega das pessoas. Se vamos contabilizar, não se consegue fazer nada. Se pomos um preço em tudo, não me é possível fazer nada. Um grupo como este, pode ser útil às paróquias, porque, sem forçar, traz as pessoas para a paróquia e vai-se passando a mensagem, com temas apropriados”. O convite fica, por isso, feito, na pessoa do encenador Tiago Sepúlveda: “Depois das atuações, o GTMR prossegue a sua vida normal de ateliê, com um encontro semanal às segundas-feiras, entre as 19 e as 21 horas, na Paróquia da Parede. Se alguém se quiser juntar, é só aparecer”. 

 

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Perfil

Fundador do GTMR - Grupo de Teatro Musical Religioso, Tiago Sepúlveda, de 50 anos, é casado e pai de quatro filhos (dois rapazes e duas raparigas). Escuteiro da Paróquia da Parede, foi tenor do coro do Teatro São Carlos e dá, atualmente, aulas de canto nos Maristas e no CNG - Clube Nacional de Ginástica. Trabalhou vários anos com Filipe La Féria, que foi quem lhe meteu “o bicho do teatro musical”. “A minha primeira peça com o La Féria foi o ‘Maria Callas – Masterclass’, com a Rita Ribeiro. Depois, fiz quatro anos do musical ‘Amália’, que me deu uma grande tarimba porque esteve muito tempo em cena”, constata.

 

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Musical ‘Clara - Uma luz na noite’

Dia 14 de outubro, no auditório da Boa Nova, no Estoril, às 16h00 e às 21h00

Dia 21 de outubro, no Seminário de Vilar, no Porto, às 17h00

Preços: entre os 9¤ e os 12¤

Reservas: 214241840 ou 962713075

Informações: www.facebook.com/GrupoTeatroMusicalReligioso

texto por Diogo Paiva Brandão; fotos por GTMR
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