A existência de uma certa identidade europeia comum a todos os europeus, independentemente da sua nacionalidade, é uma convicção que tem sido muito realçada a vários níveis quer por cristãos quer por laicos. Trata-se de reconhecer que em cada cidadão europeu coexiste a “europeidade” e uma específica nacionalidade, o que, por outras palavras, quer dizer que há diversos modos de se ser europeu e nenhum deve ser considerado melhor. Alemães, franceses, portugueses, eslovacos, gregos ou polacos, são todos igualmente europeus. Aliás esta “europeidade” não coincide sequer com o facto de ser membro da União Europeia. Servos, suíços, ucranianos ou noruegueses são também europeus! Então o que é esta identidade europeia?
A Igreja tem tentado reflectir muito sobre isso e tem usado com frequência a ideia de raízes. Como bem sabemos, falar de raízes não é apenas recordar a história passada, mas ter presente todo um modo de viver, uma matriz e um estilo que dá forma à vida na Europa. Qualquer honesta consideração sobre esta questão obriga, como a Igreja tem repetidamente afirmado, falar do cristianismo. A fé cristã faz parte das raízes da Europa. Sem esta fé a “europeidade” perde consistência e as tentativas de manter as pessoas interessadas num projecto comum fica limitado ao ter “interesses comuns”. Coisa muito frágil e que facilmente degenera em conflito.
Podemos, então, olhar para a Europa a partir da fé cristã? Julgo que sim e, em concreto, vejo três pontos que podem ajudar a identificar estas raízes e a reforçar o entusiasmo por um projecto de futuro comum. Desde logo porque há uma série de valores e de modos de viver comunitariamente que só se compreendem a partir da fé; além disso, há uma percepção da missão que a Europa teve e tem e terá no mundo que, sem a fé cristã, deixará de fazer sentido.
Mas na base dessas duas questões, que esperamos desenvolver em futuros artigos, está a dimensão pessoal da experiência religiosa. Esta, na Europa, é marcada não só pela afirmação de que Deus existe, mas, muito mais: pela certeza que Deus nos ama e nos salva vindo ao nosso encontro. Acabámos de celebrar o Natal precisamente porque acreditamos nessa presença do divino entre nós.
Se esta fé pode ser considerada raiz da Europa é porque os europeus, ontem e hoje, com mais ou menos coerência de vida, têm uma relação viva com Deus. Essa é a interioridade cristã, sem a qual o cristianismo deixa de estar enraizado.
Há muita gente que tem falado da importância de ajudar a Europa a ter uma alma. Que seria de uma comunidade humana, qualquer que ela fosse, se os seus membros só tivessem interesses materiais? Contudo, o que caracteriza a Europa não é só o ter alma, mas o facto que esta alma é cristã! Na Europa não só se leva muito a sério a contínua procura de Deus, e se respeita o desejo de eterno e infinito que existe no coração humano, como se acolhe com trepidez e com entusiasmo a Revelação de Deus e, muito especialmente, a presença de Deus que encarnou, morreu e ressuscitou para nos salvar.
Perceber que em Jesus Cristo somos salvos é algo que faz parte da consciência dos cristãs e que determina, profundamente, a identidade europeia. Se desaparecesse a consciência do pecado e deixasse de fazer sentido a misericórdia divina (preferindo uma certa desculpabilização); se a oração, entendida como encontro com Deus, desaparecesse do quotidiano dos europeus; se estes passassem – como em muitos lugares está a acontecer – a pensar que o divino é apenas uma energia e não Alguém com quem se tem uma relação; ou se se relegasse Deus para um Céu longínquo e se considerasse impossível ter uma amizade com Deus, teríamos um Continente muito diferente.
Para o caso de alguém pensar que não podemos ter estas certezas se queremos viver em paz, lembro que é precisamente esta interioridade cristã a fazer-nos acolher os outros, a respeitá-los e a querer-lhes bem. Contudo, e também isso é importante recordar, a fé cristã não pactua com qualquer relativismo que leve a pensar que acreditar que Jesus é Deus não faz diferença!
Eis-nos diante de um desafio enorme e verdadeiramente decisivo: conseguir recuperar e desenvolver esta interioridade cristã entre os europeus. Até pode ser que a maioria dos que vivem na Europa, por um tempo, não se reveja na fé cristã. Mas se os cristãos se mantiverem fortemente enraizados numa relação pessoal com Jesus Cristo, por poucos que sejam, vão assegurar a presença da “europeidade” e, consequentemente, um futuro para todo o continente.