Com o quinto e último texto encerramos esta série dedicada a alguns elementos para uma cultura vocacional na transmissão e iniciação à fé dos mais novos.
Muitas vezes, tanto no sentir comum do povo como no testemunho de muitos dos jovens em discernimento vocacional, ouvimos dizer que o compromisso vocacional é uma procura de ser feliz e de realização.
Assim formulada, esta noção pode conduzir a uma deformação “psicologizante” da vocação, mais entendida a partir do sujeito do que do projecto do Reino de Deus e da sua justiça, a partir do qual todas as procuras encontram resposta total e definitiva (cf. Mt 6, 33).
Importa, por isso, entender o que é a felicidade, em termos cristãos. Um dos textos referência que nos é dado pela Sagrada Escritura é a palavra de Jesus no sermão da montanha:
«Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu. Felizes os que choram, porque serão consolados. Felizes os mansos, porque possuirão a terra. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu. Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa no Céu; pois também assim perseguiram os profetas que vos precederam.» (Mt 5, 3-12)
A verdadeira felicidade que Jesus vem oferecer tem pouco a ver com a satisfação sensível e imediata dos desejos ou motivações individuais, como tantas vezes a entendemos. Pelo contrário, a felicidade assume uma dimensão universal e eterna: referindo-se à condição pessoal de cada um, realiza-se numa participação solidária no caminho dos outros; começando na história pessoal de cada um, só se consuma na eternidade.
Ao contrário do que muitos julgam, não se trata de uma felicidade sofrida ou adiada; é antes oferecida uma felicidade que, por ser maior que as circunstâncias pessoais de cada um, permanece na dor e na alegria, experimenta-se como realidade e esperança, vive-se como algo definitivo que já se toca e depois será completo.
No nosso tempo, fortemente marcado pelo individual, pelo transitório e pelo sensível, não é facilmente que se experimenta esta felicidade maior. É preciso valorizar alguns aspectos que favoreçam a sua vivência:
É preciso educar para o sentido do Reino. A missão do Filho de Deus foi tornar o Reino presente entre nós para nos reabrir o caminho para o Reino. Se falha esta perspectiva, ou a felicidade fica reduzida a um horizonte passageiro que mais tarde ou mais cedo se evapora. Então os projectos de felicidade sucedem-se sem saciarem definitivamente. Ou o Reino fica encerrado numa qualquer realização histórica, social ou espiritual, ficando esvaziado da sua consumação apenas na eternidade.
É preciso educar para o inesperado. Este é um dos traços da revelação de Deus e de tudo o que Ele oferece à humanidade. Deus não deixa de surpreender, oferecendo-nos o que nem nos passava pela mente. Quantas ofertas divinas de felicidade rejeitamos porque só aceitamos contar com o que conhecemos, com o que controlamos, com o que sentimos ser capazes, com o que já esperamos… é indispensável ensinar a levar até ao fim os projectos assumidos, sem entrar neles “a ver se dá” ou “a ver se gosta”, acabando por desistir diante das dificuldades.
É preciso educar para o bem comum. Descobrir a felicidade como realidade eterna e universal, é descobrir que o bem comum alarga, aprofunda, completa o bem individual, não concorre com ele. Descobrir a felicidade como dom de Deus a participarmos da vida e missão de Jesus, é descobrir que promover o bem comum é participar da alegria com que Deus ama tanto o mundo.
É preciso educar para o sentido do dever. Hoje tão mal tratado porque colocado em oposição à opção livre baseada nos afectos, o dever aparece como obstáculo á felicidade. Quando esta visa a pessoa toda e não apenas parte dela, então qualquer projecto de felicidade há-de obedecer à ordem e à harmonia que nos garantem a existência. Viver o que se deve torna-se aprofundamento dessa ordem e da harmonia. Então se experimentará que ser feliz não é fazer o que se gosta mas aprender a gostar do que se é chamado a fazer.
No final desta série de textos, aqui ficam algumas pequenas pistas para “educar para a vocação”… Mais do que cumprir estas ou outras que se apresentem, o importante é favorecer um ambiente vocacional que ajude a respirar a confiança de que Deus é a fonte, o caminho e a meta da vida de cada um e de todos, bem como ajude a ganhar a certeza de que “quem quer o que Deus quer tem tudo quanto quer…”
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