Lisboa |
Padre Ismael, o padre de ferro
Correr para a Meta
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Foi o primeiro padre do mundo a participar na competição Ironman – que compreende 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42,195 km de corrida. O padre Ismael Teixeira, de 41 anos, corre “para a Meta, Jesus Cristo”, e sente o desporto “como campo de missão”.

 

Foi 1 hora e 21 minutos a nadar, 5 horas e 39 minutos a andar de bicicleta e 3 horas e 58 minutos a correr. No total, de cruz ao peito e vestindo a camisola com a cruz da paz e a inscrição nas costas ‘All for God’ (‘Tudo para Deus’), foram exatamente 11 horas, 13 minutos e 49 segundos que o padre Ismael Teixeira demorou para completar a prova de triatlo do Ironman que decorreu em Copenhaga, na Dinamarca, no passado dia 21 de agosto, tornando-se assim no primeiro padre do mundo a terminar esta dura prova de resistência. “A verdade é que me superei! O tempo que eu tinha planificado com o meu treinador era ficar abaixo das 12 horas e por pouco ia ficando na barreira das 10 horas, com a sensação que podia dar um pouco mais”, comenta este sacerdote, ao Jornal VOZ DA VERDADE. Ficou no lugar 910 da geral, entre 2425 participantes, e em 178º da sua categoria (atletas entre os 40 e os 45 anos). Para o padre Ismael, a participação nesta prova do Ironman – que já lhe valeu a alcunha de ironpriest (padre de ferro) –, inseriu-se no âmbito do ano jubilar que a Igreja está a viver. “O Papa Francisco propõe o Jubileu da Misericórdia, um ano extraordinário para fazer alguma coisa diferente como padre, para que Jesus brilhe, através de mim, para os outros. A prova foi uma ação palpável, visível, em que pude mostrar isso, como padre”, revela. Ao cortar a meta, após quase meio dia de prova, um sentimento: “Dediquei esta vitória, esta superação, ao Papa e à Igreja de Lisboa, que este ano celebra 300 anos da qualificação patriarcal e que está em Sínodo, numa procura conjunta de como levar este tesouro que temos a mais pessoas”, salienta.

‘Vai haver mais ironpriest?’, perguntamos. “Vai, com certeza!”, responde, firme, o padre Ismael. “Tenho tido bom acolhimento das pessoas, da comunidade cristã onde estou e de outras partes do mundo, também dos media, e é uma presença para continuar. Sinto isto também como instrumento pastoral do meu sacerdócio. Muito do trabalho que tenho como sacerdote resulta também desta minha presença no desporto. As pessoas conhecem-me nos treinos, pedem-me que as case, que batize os filhos, que as acompanhe num funeral, que vá benzer as casas ou o equipamento desportivo. O desporto tem-me trazido muito trabalho como padre e sinto-o, cada vez mais, como lugar da minha pastoral”, manifesta, satisfeito, este sacerdote. “Tenho procurado levar a alegria do Evangelho, a alegria do sacerdócio, a outras pessoas, que andam, não direi afastadas mas, noutro caminho, desligadas da Igreja. É a Igreja em saída, que o Papa Francisco nos tem proposto, e o levar o Evangelho a todos, como pede também o nosso Patriarca”, aponta.

Voltando a Copenhaga, onde a sua presença causou “algum alarido”, o padre Ismael recorda “gente a chorar, com medo, quando se aproximava a hora do embate”. “Os atletas pediam-me para rezar por eles e procurei confortar e animar, com pensamentos bíblicos e oração”, recorda.

 

Duro

Natural de Canaveses, no concelho de Valpaços, distrito de Vila Real, o padre Ismael Teixeira diz ser um rapaz do norte, transmontano. É o filho mais velho, tendo duas irmãs, ambas professoras. “Vivemos a infância em Trás-os-Montes, numa realidade muito diferente de Lisboa, mas que foi fundamental para eu ser aquilo que sou, para ser rijo como as pedras – mas não com um coração de pedra”, aponta. Na sua aldeia, brincava com burros, cavalos, bois, vacas. “Costumo dizer que o meu primeiro desporto foi levar os bois a pastar”, refere. Tinha então cinco, seis anos.

A educação cristã foi na comunidade da sua aldeia. “A igreja era uma casa de todos, uma casa comum onde todos se juntavam ao Domingo. A minha família ia à Missa e já aí me marcava a pessoa do sacerdote que nos acompanhava e ajudava a rezar, o padre Januário”. Era um sacerdote com os seus 40 anos, que causou “alguma admiração” no pequeno Ismael, também pelo “fator agregador da Missa” a que tanto gostava de ir. O padre Ismael lembra também a importância da avó, “uma mulher de muita oração”.

Após a escola primária, fez o 5º e o 6º ano pela tele-escola, por ser o que a sua aldeia lhe oferecia, e surgiu então a possibilidade, com quase 12 anos, de ir para Braga, para o Seminário Carmelita do Sameiro. “Quando lá cheguei, vi uma estrutura que não havia na minha aldeia, um edifício enorme, com campos de ténis, basquetebol, futebol… foi algo que me tocou. Percebi que o desporto faria parte do nosso dia-a-dia no seminário. Na aldeia havia 15, 20 rapazes e no seminário éramos 70 ou 80. Deus também usou isso para me chamar e agarrar”, assume. Entre Braga e Canaveses são cerca de 150 quilómetros, mas para este rapaz “era meio mundo” que o separava da família. Por isso, os primeiros meses, até ao Natal, “não foram fáceis”. “Marcado pelos bons padres da Ordem do Carmo, o caminho foi-se fazendo e começou a surgir em mim, cada vez mais, a vontade de ser padre. Via que eles eram homens felizes, bons, que faziam bem aos outros e começou a surgir essa interrogação”.

 

Três caminhos

A etapa em Braga, com os Carmelitas, terminou no 11º ano. Ismael tinha cerca de 18 anos e é então proposto ao postulantado da Ordem do Carmo, em Lisboa, na Rua de Santa Isabel, numa residência universitária, durante dois anos. “Na altura, o responsável pela residência e pela formação foi uma pessoa que me marcou muito, o padre Vitalino, hoje D. Vitalino Dantas, Bispo de Beja”. Durante este tempo, surgiram dois novos caminhos na vida do jovem Ismael: o militar e a televisão. “O caminho de sacerdote estava no ‘meio’, era o mais evidente, mas como eu sempre fui um miúdo duro, transmontano, e o meu pai tinha sido militar da polícia aérea, surgiu o desejo da tropa de elite, os comandos. Por outro lado, como tinha feito o curso profissional de operador de câmara e iluminação – D. Vitalino foi o fundador da Logomédia, que funcionava na nossa casa – senti-me entusiasmado…”

Terminado o postulantado, a Ordem convida Ismael para o noviciado, que funcionava na Quinta da Mata, em Felgueiras, mas durante o verão este jovem confessa aos pais “a vontade de fazer uma interrupção” no discernimento vocacional. “Não me sentia preparado, tinha uma confusão na cabeça sobre qual dos três caminhos seguir”, assume, referindo contudo que foi “conhecer o mestre do noviciado”. “O padre Fernando, um Carmelita que já morreu, foi uma pessoa que me ajudou a fazer um bom discernimento. Eu ia para estar uma semana, acabei por estar um mês em exercícios espirituais. Tornei-me mais próximo de Deus, voltou a ser mais evidente o desejo de ser padre e fiz todo o noviciado, em formação da espiritualidade carmelita, que é muito rica e continuo a amar”, conta.

 

Carmelitas e diocesano

Ismael tomou então o hábito carmelita, foi para a Universidade Católica de Braga, onde acaba o curso de Teologia, e é ordenado sacerdote a 5 de agosto de 2001. “O tempo de diácono foi já aqui na Diocese de Lisboa, em Santo António dos Cavaleiros, Loures, na paróquia confiada aos carmelitas. A ordenação foi na minha terra, em Valpaços, por D. Vitalino. O engraçado é que após a ordenação, foi-me proposto assumir o projeto que D. Vitalino tinha criado, que era a residência universitária em Lisboa”, frisa. “Foram 11 anos a acompanhar universitários, num trabalho que gostei muito”. No primeiro ano de padre, assume também a capelania da Universidade Lusíada, missão que ainda hoje mantém. Licenciou-se em Psicologia, “um curso importante para poder ser melhor padre”, depois tirou o mestrado em Gestão de Recursos Humanos e Análise Organizacional, “que permitiu ter uma experiência de colaboração durante dois anos como consultor numa multinacional, mantendo todas as missões sacerdotais”. Surge então o convite para dar aulas de Ética e Deontologia Profissional na Lusíada, que mantém atualmente.

Por “discernimento pessoal”, em 2011 o padre Ismael Teixeira deixa a Ordem do Carmo. O tempo de incardinação numa diocese, no caso Lisboa, é de cinco anos e está agora a terminar. Deixando os carmelitas, o padre Ismael deixou também a residência universitária e, desde 2013, que é coadjutor do padre José Manuel Pereira de Almeida na paróquia de Santa Isabel, sendo ainda reitor da Igreja de Nossa Senhora da Conceição ao Rato.

 

BTT, duatlo, triatlo

O desporto “foi sempre transversal” na vida do padre Ismael. “Era algo importante para o meu equilíbrio de jovem, de homem e de padre. Fiz futebol, râguebi nos torneios interuniversitários e depois no Benfica, e após várias lesões enveredei pelo BTT - Bicicleta Todo o Terreno, que era um desporto mais de natureza, campo, que me possibilitava ir a Fátima e Santiago de Compostela em peregrinações de bicicleta”, conta. Foi ao praticar esta nova modalidade sobre rodas que o padre Ismael Teixeira fundou, na Universidade Lusíada, o Núcleo de BTT e Desportos na Natureza.

Após o BTT, que lhe trouxe a alcunha de o padre todo-o-terreno, o padre Ismael é desafiado a fazer duatlo, uma modalidade que consiste em correr e andar de bicicleta. Após vários duatlos, há cerca de dois anos, começou a nascer neste sacerdote a vontade de experimentar o triatlo, modalidade que junta a natação ao duatlo. Havia, contudo, um problema: o padre Ismael “não sabia nadar ‘profissionalmente’, com desembaraço, para fazer grandes distâncias”. “Sabia nadar ‘à cão’, digamos, o que dava para furar uma onda e pouco mais…” É então que um amigo, Nuno Espanha – “uma espécie de irmão mais novo que eu tenho em Lisboa” –, que tinha feito o seu primeiro triatlo há pouco tempo, lhe oferece um presente de Natal especial: a inscrição numa prova de triatlo em Lisboa, que iria decorrer no primeiro sábado de maio. “Era uma inscrição que ainda custava 170 euros, e a verdade é que tinha pouco mais de quatro meses para aprender a nadar, mantendo o nível na corrida e na bicicleta”. Estávamos no Natal de 2014 e o padre Ismael inscreveu-se então na natação, nas piscinas mais próximas da paróquia de Santa Isabel. Esta prova de triatlo incluía quase 1 km de natação e o sacerdote explicou este dado ao professor. “Lá fui tendo aulas, duas vezes por semana, e fui aprendendo a nadar. Quando cheguei à prova, com 900 metros a nadar, 45 km de ciclismo e 10,5 km a correr, superei-me, fiz um bom tempo para estreia e, claro, foi o primeiro passo de uma escalada”, observa.

 

De ferro

A dureza das provas de triatlo foi então aumentando. O padre Ismael experimentou depois, em maio de 2015, em Lisboa, o Half Ironman, que dobra todas as distâncias – 1800 metros de natação, 90 km de ciclismo e 21 km de corrida. “Fiz abaixo das 6 horas de prova, o que não é mau tendo em conta que nem treinador tinha”. É então que o amigo do padre Ismael volta aos desafios: ‘Já viste se tu, no próximo ano, fosses o primeiro padre do mundo a fazer um Ironman?’ “‘Um ironpriest?’, comecei eu a brincar”, lembra. “Aquilo começou-me a entrar na cabeça e decidi aceitar”. O passo seguinte era escolher a prova onde participar, porque há diversos Ironman’s em vários pontos do mundo. “Participei no da Dinamarca, em Copenhaga, em agosto, mas podia ter sido em Zurique, em Lanzarote, no Arizona. Feita a inscrição, lá tive de me preparar à séria para a prova”, recorda.

Estávamos no final do ano passado – faltavam nove meses para a prova – e havia que encontrar um treinador. “Precisava de alguém que me planificasse os treinos, para eu não morrer na prova! O José Estrangeiro, que é atleta profissional de triatlo, tem também essa dimensão de treinar outros e foi sempre muito incentivador e compreensivo. Havia muita coisa técnica ao nível dos treinos que eu não dominava, não percebia, e ele enviava-me os mapas de treino mensais, com dicas de alimentação”, descreve. O Benfica, seu clube de coração, foi também importante nesta fase, sobretudo durante as lesões. “Sabendo que eu era padre, que tinha este projeto e era benfiquista, o Benfica contratou-me e passei a integrar o quadro de atletas do clube, o que me possibilitou ter um seguro, a clínica e os terapeutas. Foi importante nos últimos dois meses de treino”, observa, sentindo também aqui “as mãos de Deus” para levar por diante este projeto.

Para uma aventura destas, o aconselhável, segundo este sacerdote, são dois anos de treino. “Em nove meses, o tempo de um parto, também provei que é possível ‘dar à luz’ um ironpriest”, brinca o padre Ismael Teixeira, o primeiro padre do mundo a completar uma prova do Ironman. “As pessoas agora chamam-me ‘padre de ferro’, mas continuo a ser um transmontano de carne e osso, com fragilidades. Rijo como as fragas (pedras transmontanas), mas com um coração bondoso, o mais possível parecido com o coração d’Aquele que é a minha meta, para quem eu corro: Jesus”.

 

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Entregar a camisola e a medalha ao Papa Francisco

Cumprido o primeiro Ironman, o ironpriest português tem agora um sonho: entregar a camisola com que participou na prova de triatlo, e também a medalha recebida, ao Papa. “É um sonho, poder entregar a camisola e a medalha ao Papa Francisco e dizer-lhe que esta foi uma ação que um padre fez, incentivado por ele, para levar a alegria do amor de Deus, da misericórdia de Deus, à vida dos outros”, revela, o padre Ismael Teixeira, ao Jornal VOZ DA VERDADE.

texto por Diogo Paiva Brandão; fotos do arquivo pessoal do padre Ismael
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