Estamos muito perto da conclusão dessa magnífica experiência de renovação da fé que foi o Ano Paulino. Na Homilia das I Vésperas na Basílica de São Paulo extra Muros no passado dia 28 de Junho de 2008, o Santo Padre Bento XVI deixava algumas interpelações sobre o sentido desta comemoração jubilar: quem é Paulo? Qual a fonte da sua liberdade? Como se alimenta e exprime o seu amor pela Igreja de Cristo? Como compreender o sentido dos seus sofrimentos no anúncio do Evangelho?
Certamente que estas interpelações foram abundantemente vividas ao longo deste ano. Mas a II Leitura desta celebração eucarística ajuda-nos ainda a descobrir um pouco mais de Paulo. O cap. 5 da 2Cor inicia com uma consideração da escatologia individual, como o cristão pode esperar a plena comunhão com Deus. Nos vv. 6-10 Paulo procura corrigir uma má interpretação da condição histórica do humano no seu peregrinar na terra. O desejo e a possibilidade de comunhão com Deus, dado pelo Espírito (v. 5) não consente num pessimismo frente à vida neste mundo. O desejo de “habitar junto do Senhor” (v. 8), não é apenas a repetição antitética da experiência de estar distante do Senhor (v. 6). Provavelmente o uso da preposição não é apenas indicando um lugar. Porque exprime a comunhão interpessoal, não se trata apenas de estar no mesmo lugar, mas sobretudo em comunhão vital e ativa (cf. uso de pros em Mc 6,3). Mas estar com o Senhor como afirmação da vocação gloriosa dos crentes (cf. 1Tes 4,17; Flp 1,23) aponta para uma plenitude que não é possível ao crente que ainda caminha na fé, e não na visão.
A fé é assim o motor da experiência que mantém viva a confiança, que se concretiza no desejo de agradar ao Senhor. A separação “espacial” do crente não é definitiva. O ministério apostólico, a dinâmica pascal do anúncio do evangelho entre tristezas e tantas alegrias exprime já no tempo essa forma peculiar que o cristão já antecipa, embora de forma imperfeita.
A referência final ao julgamento (v. 10) concretiza essa tensão entre o desejo da glória e a experiência histórica da ação para agradar ao Senhor. Viver na fé não é resignar-se ao esmorecer no entusiasmo do que podemos já experimentar da comunhão com o Senhor ou do agir que aí encontra a sua fonte. Comparecer diante do tribunal de Cristo é um privilégio do cristão que vive já na terra a força do amor de Cristo, e cujo agir, é já expressão desse amor, mas assinalada com um carácter plenitude na visão de Deus.
Comentando Gal 2,20 na abertura do Ano Paulino, Bento XVI recordava:
“Tudo o que Paulo faz, parte deste centro. A sua fé é a experiência do ser amado por Jesus de modo muito pessoal; é a consciência do facto que Cristo enfrentou a morte não por qualquer coisa anónima, mas por amor a ele a Paulo e que, como Ressuscitado, ainda o ama, ou seja, que Cristo se entregou por ele. A sua fé é o ser atingido pelo amor de Jesus Cristo, um amor que o perturba profundamente e o transforma. A sua fé não é uma teoria, uma opinião sobre Deus e sobre o mundo. A sua fé é o impacto do amor de Deus sobre o seu coração. E assim esta mesma fé é amor por Jesus Cristo”.
A convergência entre a primeira leitura de Ez 17 e das parábolas evangélicas da semente atesta a certeza da ação de Deus; é essa a raiz da profunda convicção de que o Apóstolo Paulo se faz guia e exemplo vivo.
Ez 17 desenvolve um enigma que usa a imagem do cedro podado repetidamente, aludindo à instabilidade da sucessão davídica nas vésperas do Exílio pelos invasores de Babilónia. Os vv. 22-24 contrastam esse período de traições políticas e apostasia religiosa de Judá com a promessa divina de salvação. A intervenção direta do Senhor fará com que Jerusalém-Judá, representados num cedro, possa reflorescer com um rebento novo da casa de David. A imagem do rebento retirado por Deus do cimo do cedro e plantado num alto monte (v. 22) mostra que a repetida humilhação política e a deportação não são a última palavra, mas há ainda a esperança de um messias davídico. O tom messiânico da imagem (cf. Is 11,1; Jer 23,5-6; Zac 3,8; 6,12-13) ganha contornos máximos na afirmação de universalidade simbolizada nos pássaros que se abrigam em seus ramos (cf. Dan 4,17.32.34-37; Mt 13,31-32). No mesmo simbolismo do anúncio do que ainda não se vê, mas que só Deus pode operar, o apelo de Ezequiel nos tempos da crise do Exílio ressoa como um convite à fé, mesmo quando a esperança se confronta com cenários desconcertantes.
O dinamismo que une as duas parábolas de Mc 4,26-29.30-32 é a força da semente que cresce por si mesma, independente da ansiedade de quem a cuida ou das suas pequenas dimensões. O anúncio dirigido às multidões não cede perante o sentimento de cansaço, impotência ou fracassos: o Reino tem em si a força eficaz da ação de Deus. Traz em si o potencial revolucionário de uma abundância de colheita (v. 29) e de salvação oferecida a todos (a imagem das aves nos ramos v. 32).
Para muitos de nós, o termo de um ano pastoral das nossas comunidades não pode ser de desalento pelas dificuldades e sofrimentos. O caminho da fé é a aposta radical na relação com Deus, aquele que atua no mundo e tudo transforma. Que como Paulo e tantos que fizeram da fé em Cristo Jesus o centro de suas vidas, saibamos reafirmar a nossa confiança na ação poderosa de Deus.
Domingo XI do Tempo Comum - Ciclo B
Ez 17,22-24;
Sl 91 (92)
2Cor 5,6-10
Mc 4,26-34
![]() |
Tony Neves
Mértola é uma vila inspiradora e as localidades do município são belas e acolhedoras. Visitei diversas...
ver [+]
|
![]() |
Tony Neves
Mértola é uma Vila muito interessante, banhada pelas águas do Guadiana, que transpira história por...
ver [+]
|
![]() |
P. Gonçalo Portocarrero de Almada
O Papa “falou sobre liberdade, sobre o que é a verdadeira liberdade: não a liberdade desenfreada...
ver [+]
|
![]() |
Tony Neves
Leão XIV deu mais um toque missionário ao seu pontificado ao anunciar uma visita apostólica a quatro...
ver [+]
|