Domingo |
Um texto pleno de Espírito (Rom 8, 14-17)
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Também se lhe poderia chamar, partindo da etimologia de "texto", um "tecido" do Espírito. Tantas são as vezes que este termo nele aparece: 5 em apenas 4 versículos. E em 3 diferentes acepções: como "Espírito de Deus" (v. 14) ou simplesmente "Espírito" (v. 16), mas também como "nosso espírito" (v. 16); entre Deus e nós, como "Espírito de adopção filial", em oposição ao "espírito de escravidão" (v. 15).

Isto já dá para perceber o que nele está em jogo: a questão da vida (e da morte). Um tema incontornável para o ser humano, em todos os níveis e fases da sua existência: no seu ser e agir ético, no seu presente e futuro (i)mortal. Um tema inerente ao termo "espírito", desde a sua origem.

De facto, o latim "spiritus", como o grego "pneuma" e o hebraico "ruah", significa, em sentido próprio, o "ar" que temos de respirar, para podermos viver. É assim que Deus faz de cada um de nós um ser vivo: insuflando-nos "pelas narinas o sopro da vida", após nos formar do pó da terra (Gn 2, 7). E, como nós, os restantes seres vivos sobre a terra. Acerca deles se reza no Sl 104, 29s: "Se lhes tirais o alento, morrem e voltam ao pó donde vieram; se mandais o vosso espírito, recobram a vida."

 

Quer isto dizer também que, quanto mais intenso for o Espírito divino em nós, maior é a nossa vitalidade. Ou, ao contrário: se cortarmos com Deus, rejeitando a sua vontade, expressa particularmente na sua Lei, ficamos entregues a nós próprios, à debilidade e caducidade da nossa carne.

É, nesse sentido, que Paulo dá voz ao terrível drama do homem pecador: "Sim, eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita coisa boa; pois o querer está ao meu alcance, mas realizar o bem, isso não. É que não é o bem que eu quero, que faço; mas o mal que eu não quero, isso é que pratico." E, se o pratico, só me resta a morte, sentenciada pela Lei. Daí o grito de desespero: "Que homem miserável eu sou! Quem me libertará deste corpo de morte?" (Rm 7, 18-19.24a).

 

A resposta é formulada por quem já saboreia essa libertação: "Graças a Deus, por Jesus Cristo, nosso Senhor!" (7, 24b). E o processo de libertação é este: "De facto, Deus fez o que era impossível à Lei, por esta estar sujeita à fraqueza da carne: ao enviar o seu próprio Filho, em carne idêntica à do pecado e como sacrifício de expiação pelo pecado, condenou o pecado na carne, para que assim a justiça exigida pela Lei possa ser plenamente cumprida por nós, que não procedemos de acordo com a carne, mas com o Espírito" (8, 3-4).

 

É este Espírito que cria em nós, os crentes a quem Paulo escreve, um novo ser: "Vós não recebestes um espírito de escravidão para recair no temor, mas um Espírito de adopção filial, pelo qual exclamamos: «Abbá, Pai». O próprio Espírito dá testemunho, em união com o nosso espírito, de que somos filhos de Deus" (8, 15-16).

A exclamação remete-nos para Cristo. Foi Ele o primeiro a chamar a Deus "Abbá" - um diminutivo, só conhecido do âmbito profano das relações familiares mais íntimas (Mc 14, 36). E ensinou os discípulos a imitá-lo (Lc 11, 2). Daí que os primeiros cristãos, mesmo de língua grega, tenham mantido a invocação na versão aramaica (Gal 4, 6).

É, pois, na oração que mais sentimos a relação filial com o Pai, adquirida pelo Baptismo, em que fomos sepultados com Cristo, vencedor da morte, "para caminharmos numa vida nova" (Rom 6, 4), movidos pelo Espírito que então "bebemos" (1 Cor 12, 13), "o Espírito daquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos" (Rom 8, 11).

E, como efeito da oração, a conduta ética: "Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus" (8, 14). Isto é, na prática de vida manifestamos o que somos, aquilo que o Espírito faz de nós. E temos também garantido o futuro salvífico: "Se somos filhos, também somos herdeiros… de Deus e com Cristo"… (8, 17). Sem mais?

 

Com esta condição: "pressupondo que o Espírito de Deus habita em vós" (8, 9). Para que Ele habite, temos Rom 8, 14-17 - um texto pleno de Espírito, porque tecido pelo Espírito que actuou em Paulo, na sua textura: um texto inspirado e expirado por Deus. Respiremo-lo, lendo-o sem pressa e repetidamente… e teremos a plenitude da vida.

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