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P. Duarte da Cunha
Que projecto europeu?
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Quando depois da Segunda Guerra Mundial alguns políticos católicos de países que tinham sofrido muito com a guerra, interpretando o sentir dos seus povos e com visão da realidade, perceberam que a paz seria real quando fosse claro que o bem de um povo estava sempre associado ao bem dos outros povos e nações, nasceu aquilo que se pode chamar o primeiro projecto da Comunidade Europeia.

A lógica era simples e altamente eficaz como se viu no desenvolvimento dos anos sucessivos e na paz mantida na Europa ocidental. Tudo partia da consciência de que em algumas questões estratégicas – como matérias-primas e energia – seria necessário, para o bem de todos, haver uma clara interdependência. Só assim se poderia perceber que o bem de um país coincidia com o bem dos outros, e deixaria de se pensar nos outros como inimigos ou concorrentes. Não foi por acaso que este projecto tinha na sua base os princípios da Doutrina Social da Igreja: solidariedade, subsidiariedade, bem comum e dignidade da pessoa humana. Foi assim que surgiu a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, em 1952, e depois a Comunidade Europeia da Energia Atómica até surgir, em 1967, a CEE: Comunidade Económica Europeia.

O sucesso desta iniciativa foi rapidamente evidente e atraiu outros países. Não podemos esquecer, no entanto, que a Europa não coincidia com esta comunidade – como ainda não coincide hoje com a União Europeia. Aliás a CEE era composta apenas por países da Europa ocidental e a Europa, como repetidas vezes disse São João Paulo II, tem dois pulmões e precisa de ambos para ser ela mesma. A divisão entre Este e Oeste, relacionada com a separação entre países comunistas e democracias foi durante anos uma ferida profunda na Europa.

Quando em 1989 caiu o muro de Berlim abriu-se uma porta de esperança. Os dois pulmões poderiam finalmente respirar juntos. Mas do lado de cá, o liberalismo excessivo, juntamente com uma decadência moral que metia em crise valores fundamentais para os substituir pelo consumismo e pelo hedonismo, fez com que os países saídos de uma ditadura materialista, como era a comunista, não encontrassem no ocidente aquela energia espiritual que tanto procuravam. Já aí se sentia a necessidade de estar atento. Foi fundamental o alerta do Papa João Paulo II que em diversas ocasiões o fez notar. Ele que sempre fora um europeísta, aos poucos foi fazendo ver os desvios do projecto europeu e alertando para os perigos de um projecto que em vez de construir a Europa a faz perder a sua identidade. Mesmo na Igreja, foi impressionante ver como a frescura da fé dos que até há pouco eram perseguidos veio renovar e provocar a fé ocidental acomodada e que por vezes parecia confiar mais nas organizações por ela promovidas do que na Graça e na surpresa de Deus para prosseguir a sua missão.

O ideal de Schuman, Adeneaur e de Gasperi, que tinha levado ao nascimento desta comunidade estava a ser esquecido e um outro projecto, menos claro, estava a nascer. Aquela Europa de grandes ideais nascidos de raízes cristãs, onde se parte do princípio que há um bem a perseguir, e valores como a honestidade, a solidariedade, o respeito pelas culturas e pelas nações, a promoção da família fundada no casamento entre um homem e uma mulher, a cooperação económica para ajudar todos a desenvolverem-se, dá lugar a um jogo de interesses, ou seja, dá lugar a uma Europa em tensão, onde as pessoas se perguntam se há mesmo um Bem Comum.

Um projecto europeu cristão sabe que a unidade não nasce dos acordos, mas que estes brotam de uma unidade anterior, que é dom de Deus e que se realiza no amor. Por isso, descristianizar a Europa foi o pior que aconteceu à Europa. Numa lógica individualista, será que o amor ainda tem um lugar na reflexão política? Mesmo que se fale muito de solidariedade a propósito da necessidade de acolher refugiados, é necessário proteger as famílias, promover a educação para os valores, fomentar a fé, para que o significado do amor seja claro e leve à acção. O Papa Francisco, com a sua acutilância habitual, diz que esta Europa se assemelha a uma idosa incapaz de gerar filhos! Para que isso não seja uma fatalidade é preciso não ser cínico e estar decidido a fazer algo. Devemos procurar estar conscientes e activos; debater com segurança e convicção; realizar obras de misericórdia que mostrem que há um modo de viver bom que é possível; anunciar Jesus Cristo, porque sem Ele nada podemos fazer.