Lisboa |
O ‘Cozido’ da paróquia do Milharado
Criar comunidade (também) a partir da refeição
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É um projeto que enche a barriga a quem participa nele e, ao mesmo tempo, tem uma vertente de solidariedade. O ‘Cozido’ da paróquia do Milharado serve à descrição “o melhor cozido à portuguesa”, segundo a organização, e ajuda a criar comunidade.

 

São 7 horas da manhã de segunda-feira. O calendário marca o dia 4 de maio, mas tem sido assim, desde há quase três anos, em todas as primeiras segundas-feiras do mês: no salão da Associação Cultural e Desportiva do Milharado, três voluntários da paróquia e do centro social paroquial acendem os fogões onde estão as grandes panelas com as carnes que vão guarnecer o cozido à portuguesa. Na noite da véspera, já as voluntárias do centro social tinham preparado tudo o que é necessário para o dia: descascar as batatas, arranjar os legumes, temperar a carne com sal. Começa assim a ser preparado o ‘Cozido’ da paróquia de São Miguel do Milharado, uma iniciativa que nasceu em setembro de 2012, com a festa do padroeiro. Odília Rodrigues, a cozinheira chefe do ‘Cozido’ do Milharado, chega pelas 9 horas, após deixar os filhos na escola. “Quando chego, já tenho a carne a ferver, retifico os temperos e começo a ver o que já está cozido”, conta ao Jornal VOZ DA VERDADE. Enquanto isso, os voluntários começam a lavar os legumes, para que a cozinheira chefe possa dar início à cozedura das batatas, das cenouras, das couves, dos nabos, do feijão e também dos enchidos, como o chouriço de carne, o chouriço de sangue (vulgarmente conhecido como morcela) ou a farinheira. Sem esquecer o arroz, com aquele toque de hortelã.

Tem sido assim uma vez por mês, por norma na primeira segunda-feira: a paróquia do Milharado mobiliza-se para o projeto do ‘Cozido’ que visa angariar fundos para o centro social paroquial. Odília, que colabora há cerca de 15 anos na festa da paróquia como cozinheira de serviço voluntária, foi uma das primeiras pessoas a quem o pároco do Milharado, padre Paulo Serra, desafiou a integrar este projeto de solidariedade. “O senhor padre disse-me: ‘Vamos começar a fazer o ‘Cozido’ à segunda-feira, na primeira segunda-feira do mês, pode ser que isto ‘pegue’ e as pessoas comecem a vir”, recorda. Cozinheira de eventos de profissão, Odília lembra que “o centro social paroquial precisa do dinheiro” e que esta é “uma forma de ajudar” a sua terra. “Por norma aceito os desafios, mas tenho de ser sincera e dizer que quando o padre me convidou, pensei: ‘Vamos lá ver como é que isto vai correr… já há tantos almoços, as pessoas têm pouco dinheiro, vamos lá ver…’, mas realmente foi uma aposta ganha”, reconhece.

 

Uma romaria

Todos os meses, entre 250 a 280 pessoas têm-se deliciado com o cozido à portuguesa da paróquia do Milharado. A organização tem tudo preparado para receber 300 pessoas. “Há gente na retaguarda que vai vendo se é preciso cozer maiores quantidades”, assegura Odília. “As pessoas têm aderido muito, têm vindo de muito longe, porque uns vão dizendo a outros e atualmente mais de metade das pessoas que vem cá comer o cozido é gente de fora”, refere, satisfeita, a cozinheira chefe, garantindo: “O nosso ‘Cozido’ já se transformou numa romaria!”.

Com um custo de 10 travessas (o mesmo é dizer 10 euros) por pessoa, o ‘Cozido’ do Milharado é servido à descrição. Quem chega, pode comer as vezes que quiser e lhe apetecer. Além do cozido à portuguesa, o preço inclui ainda pão de Mafra, azeitonas, bebidas (como água, vinho ou sumos), sobremesa (podendo escolher entre doce ou fruta), café e digestivo. Há pessoas, sobretudo da terra, que preferem ir à Associação Cultural e Desportiva do Milharado buscar o seu cozido à portuguesa e levá-lo para casa. Neste caso, o preço é de 8 travessas a dose.

O ‘Cozido’ é um projeto do Centro Social Paroquial do Milharado que é assegurado por uma equipa de voluntários. Na cozinha, a coordenação tem de ser total. “Chegamos a ser 12 pessoas, mas cada uma já tem a sua função! Há pessoas que, desde o primeiro dia, tiram os legumes, outras preferem os enchidos. Eu fico sempre com a colocação das carnes nas travessas”, explica Odília. Além das voluntárias da cozinha, a paróquia do Milharado tem mais seis voluntários, maioritariamente reformados, que ajudam no serviço e na montagem e desmontagem das mesas e dos compridos bancos onde os clientes vão degustar o famoso cozido à portuguesa. “O padre está sempre no bar a tirar cafés. É o trabalho dele nestes dias de ‘Cozido’”, garante, sorridente, Odília.

Nestes anos de ‘Cozido’, os clientes são sobretudo reformados, que “gostam de comer bem e com tempo”, salienta esta voluntária. “O maior ‘drama’ é que as pessoas se sentam ao meio-dia e levantam-se às três da tarde. Muitas vezes às 11h30 já estão preparados para comer e eu ainda não tenho o almoço pronto! É um stress”, assegura a cozinheira chefe.

 

Uma mais-valia

O dinheiro angariado com esta atividade do ‘Cozido’ tem sido, nos últimos meses, um balão de oxigénio para o Centro Social Paroquial do Milharado, segundo refere ao Jornal VOZ DA VERDADE a diretora técnica da instituição, Sílvia Marçal. “O ‘Cozido’ tem sido uma mais-valia e um grande contributo para a nossa subsistência mensal. Neste momento, temos acordo com a Segurança Social para 30 utentes a nível de apoio domiciliário e 20 em centro de dia. Esta é uma zona rural e os nossos utentes têm reformas baixas, pelo que a sua contribuição para o centro social é muito pequena e as despesas da instituição são muitas. No apoio domiciliário, por exemplo, temos diariamente três carros a sair para a rua para irem a casa dos utentes e são muitos quilómetros percorridos, todos os dias, porque a freguesia é muito grande”, explica esta assistente social.

Na instituição há quatro anos, Sílvia integra também o projeto do ‘Cozido’ desde o primeiro dia, a exemplo da cozinheira chefe Odília. “Também fiquei na dúvida sobre o sucesso da iniciativa, sobretudo por ser a uma segunda-feira – dia de folga dos talhos, das cabeleireiras e de outras atividades do Milharado –, mas de facto tem sido uma mais-valia para o centro social”, reconhece, igualmente, esta diretora técnica. “A adesão das pessoas foi imediata. Nos primeiros seis meses, notou-se que eram sobretudo as pessoas da terra que vinham comer o cozido à portuguesa. A partir daí, começaram a vir pessoas de toda a Diocese de Lisboa. Como é para ajudar o centro social, as pessoas têm aderido muito”, observa, sublinhando que “todo o dinheiro angariado com as refeições do cozido é canalizado para a missão do Centro Social Paroquial do Milharado”.

Nas segundas-feiras em que há o ‘Cozido’, Sílvia é mais uma entre os voluntários. Veste a bata e começa a ajudar “no que for preciso”, em especial no serviço às mesas. “Se sou eu a gerir, tenho também de dar a cara, vestir a camisola e dar o exemplo. Com a ajuda de todos é que conseguimos! Todos é que fazem tudo”, garante a diretora técnica da instituição, dando “graças a Deus pelos muitos voluntários que o Milharado tem”.

 

Viver a Igreja

O pároco do Milharado, padre Paulo Serra, foi quem ‘cozinhou’ a ideia de organizar mensalmente um cozido à portuguesa na paróquia do Milharado. “Esta é uma terra com muitos lugares, onde todos os fins-de-semana há um almoço. Pensei então: ‘Por que não fazer um almoço por mês, com cozido?’. Na altura muitos duvidaram, mas a verdade é que esta iniciativa tem crescido, não só com gente da terra, mas têm vindo também muitas pessoas de fora”, aponta, enaltecendo “a ajuda financeira que esta iniciativa representa para o centro social”. Este sacerdote, que esta semana cumpriu 43 anos de idade, destaca que “todos têm colaborado com gosto no ‘Cozido’”. “Isto não é algo que vem só do ‘ter de ajudar’, mas brota do sermos cristãos, desta entrega e da preocupação do outro e do servir o outro. Esta iniciativa brota muito do modo como vivemos a Igreja e como somos Igreja”, garante o padre Paulo, lembrando que o ‘Cozido’ começa com a festa do padroeiro e termina no próximo mês de junho, com o início das festas de verão. “Em setembro, retomamos o nosso ‘Cozido’”, assegura o pároco.

 

Uma comunidade para todos

Situado a cerca de 30 minutos do centro de Lisboa, o Milharado é uma freguesia do concelho de Mafra, com 24,43 quilómetros quadrados de área e 7.023 habitantes (Censos de 2011). “O Milharado é uma terra que junta um misto de campo e de cidade. Há muita gente que veio da cidade para morar aqui, mas há também alguns jovens que foram estudar para Lisboa”, frisa o pároco. A paróquia de São Miguel do Milharado tem nove lugares com igrejas e, “apesar de cada um dos lugares ter a sua especificidade, a sua forma de estar, a sua festa e o seu padroeiro, a sua capela e a sua associação”, todos estão “muito unidos à paróquia”. “Todos vêm à paróquia e todos na paróquia colaboram e trabalham, em especial na festa do padroeiro, São Miguel, que é celebrada no seu dia, 29 de setembro, e em que tudo para no Milharado”, conta o padre Paulo Serra.

Esta paróquia da Vigararia de Mafra tem “muitas crianças e muitos jovens, fruto do trabalho da Igreja, em especial desde o tempo do agora Bispo Coadjutor de Beja, D. João Marcos”, que foi pároco do Milharado entre 1985 e 1994. “O então padre João Marcos começou a dinamizar e esse fruto, essa dinamização, essa evangelização ficou e ainda hoje se bebe disso, em especial na questão das crianças”, salienta o atual pároco. Os números dizem que a paróquia do Milharado tem “quase 500 crianças na catequese, para 80 catequistas”, e o agrupamento de escuteiros “reúne 155 elementos e está a romper pelas costuras”, havendo mesmo “uma lista de espera de 50 crianças e jovens”.

Em colaboração com o CASA - Centro de Apoio ao Sem Abrigo, em Lisboa, nos escuteiros da paróquia nasceu um grupo de apoio aos sem-abrigo, chamado GMASA - Grupo de Milharado de Apoio aos Sem Abrigo, que “vai distribuir refeições quentes à capital portuguesa, no Domingo” e que neste momento “dá também apoio às escolas e à paróquia”. O Caminho Neocatecumenal é “uma grande presença e uma grande força na paróquia”. “Temos oito comunidades e todos estão em tudo. Às vezes nem se percebe quem está em quê, porque estão em tudo! Tem muito dinamismo, muita vida. É estupendo! Puxa pelo padre e o padre puxa pela comunidade”, garante o pároco.

Ordenado em 2004, o padre Paulo Serra chegou ao Milharado no ano seguinte, estando por isso perto de cumprir uma década como pároco desta paróquia da zona de Mafra. “A minha aposta tem sido sobretudo a evangelização. A pastoral social tem também crescido”, refere, salientando as valências do Centro Social Paroquial do Milharado: “A instituição tem 15 anos. Quando eu cheguei à paróquia, havia um projeto para um novo edifício que não foi possível cumprir. Temos apoio domiciliário e centro de dia, não conseguindo abranger a infância”. Este sacerdote frisa, por outro lado, a abertura, no ano passado, do Centro Intergeracional Póvoa da Galega - Milharado. “É o edifício onde está o centro de dia e também a biblioteca. Começámos a fazer atividades com jovens e crianças, que têm mantido uma relação com os idosos. Os jovens ‘adotaram’ avós e é muito importante as crianças começarem a tomar conta dos mais velhos”, acentua.

O padre Paulo Serra, que é igualmente pároco do Gradil e Vila Franca do Rosário, salienta que uma comunidade tem de ser constituída por todos: “Trabalho sempre no sentido da comunidade no todo e não na fração. A comunidade, para mim, é comunidade com crianças, jovens, famílias, idosos, não separados em setores mas juntos, onde todos se ajudam e todos são necessários a todos. É muito bonito ver a comunidade assim. É bom ver respirar cristianismo no Milharado”.

 

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O ‘Cozido’ do Milharado em números

- 85 kg carne vaca

- 50 kg carne porco

- 10 galinhas

- 10 kg farinheira

- 10 kg chouriço de sangue

- 10 kg chouriço de carne

- 45 kg batata

- 30 kg nabo

- 20 kg cenoura

- 40 kg couve portuguesa

- 40kg couve lombardo

- 10 kg cebola

- 7 kg arroz

- 20 pães caseiros

- 5 kg azeitonas

- 30 l de vinho

- 17 l de pudim Mandarim

- 2 kg de arroz doce

 

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Data do próximo ‘Cozido’

Dia 8 de junho, a partir das 12h00, na Associação Cultural e Desportiva do Milharado

Informações: 219750113 ou cspmilharado@sapo.pt

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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