A primeira leitura deste Domingo (At 9,26-31) parece comprometer a ideia difusa da comunidade de Jerusalém como “comunidade modelo”. Se nos primeiros capítulos Lucas nos descreve o vigor inicial e a universalidade de judeus e helenistas, a partir do martírio de Estêvão os helenistas são perseguidos e a comunidade de Jerusalém passa a ser constituída apenas por uma cultura palestiniana (8,1). É nesse contexto que a presença de Paulo se torna uma interpelação: será a comunidade capaz de acolher um cristão vindo da Diáspora, de um mundo tão diverso, com um percurso que vai da perseguição dos cristãos até ao longo retiro na Arábia. Não se terá tornado Jerusalém um grupo minoritário, que chama prudência à sua insegurança, que em vez do acolhimento fraterno joga à defesa?
O relato põe evidência aspetos essenciais do viver em Igreja. A primeira dimensão é a iniciativa de procurar os Apóstolos, mais concretamente, Pedro e Tiago (cf. Gal 1,18-20 de forma autobiográfica). Não há Igreja sem esse mistério de comunhão eclesial. E perante as dificuldades, Barnabé é o instrumento dessa comunhão, salientando dois elementos essenciais que ligam Paulo à Igreja: uma unidade de vocação, pois “viu o Senhor que lhe falava”, e a unidade da missão, “pregando com coragem o nome de Jesus”. Ninguém é Igreja sozinho, e a comunhão eclesial assinala visivelmente a obra de Deus no mundo. Essa comunhão visível permite que Paulo retome a evangelização dos helenistas que estava interrompida desde o martírio de Estêvão. Porém a pregação de Paulo, insistindo na novidade radical de Cristo encontra oposição, e Paulo fica em risco de vida. Lucas deixa entrever que a decisão de fazer para Tarso é uma forma de poupar a vida de Paulo. Mas esse sofrimento pela Palavra do Evangelho que já começara com o insucesso da pregação em Damasco (9,19-25) fará parte da identificação do missionário com a Cruz de Cristo. Por outro lado, mostra ainda uma Igreja fechada sobre si mesma, e que só pelo testemunho da obra do Espírito Santo se deixará convencer definitivamente da abertura do mistério da salvação aos gentios que não partilham da mesma cultura. É nesse sentido que o sumário final do v. 31, referindo a paz e o crescimento da Igreja pela ação do Espírito anuncia quase como profecia o que a obra da Evangelização tornará evidente: na unidade da mesma vocação e da mesma missão se realiza a catolicidade da Igreja. Todos são chamados à salvação.
Para o Evangelho, Jo 15,1-8, com a imagem da Vinha retomada do Antigo Testamento (Is 5,1-7; 65,8; Sl 80,8-9) Jesus opera uma metamorfose total do significado bíblico da vinha. Essa já não designa Israel como povo, mas é o próprio Cristo. A relação de Deus com a vinha já não é externa, porque o Pai é o agricultor, e o Filho brota de uma total comunhão de amor. Só na pessoa de Jesus se dá a garantia produzir fruto abundante, e é essa fecundidade que faz frutificar eficazmente o crente que caracteriza o discípulo de Jesus (veja o dito “pelos frutos os conhecereis” Mt 7,20; cf. Lc 6,43-44). Se a vida que liga cada cristão a Cristo é o amor, esse frutifica em dois elementos essenciais: obediência como escuta da Palavra, e alegria pela participação íntima em Cristo. A obediência marca a causa da fecundidade, enquanto a alegria é o seu resultado.
O dinamismo da Palavra da Páscoa aponta uma vez mais para a nossa realidade pessoal, mas sempre em referência à Igreja. Os nossos medos em acolher o outro nas nossas comunidades, a nossa resistência em reconhecer outras formas de ser cristão no mundo, a dificuldade em acolher um neófito ou quem há pouco se reaproximou da Igreja, alguém que pertence a um Movimento ou outro grupo eclesial diverso das nossas experiências locais tantas vezes comprometem o dinamismo apostólico da Igreja. Mesmo dizendo evitar a soberba e o orgulho de quem pensa saber tudo, não estaremos ainda demasiado descrentes que a força do Reino é obra do Espírito. Se a comunhão eclesial é o sinal visível, a ação de Deus revela-se nos frutos que brotam da ligação a Jesus: a obediência da escuta da Palavra e a alegria da comunhão em Cristo.
Um breve aceno à segunda leitura, 1 Jo 3,18-24 dá-nos uma concretização do amor requerido ao discípulo. Não é possível “amar só por palavras”. Tal amor seria uma blasfémia. O amor indivisível a Deus e ao próximo é uma luta contra o nosso escrúpulo que nos torna inoperativos, contra as nossas dúvidas, e mesmo contra as nossas culpas e nossos fracassos. A Epístola joanina insiste na inseparável relação entre o amor de Deus e do próximo, entre a gratuidade da salvação oferecida por Deus e a gratuidade posta a prova no trato quotidiano com os irmãos. Só Deus pode dar-nos a garantia da salvação. Por isso, a coragem de filhos e a abertura interior ao dom divino é, na linguagem joanina, a possibilidade de dizer que vivemos em Deus porque Ele vive em nós (v. 24). É esse mistério que nascendo da obediência e da fé em Jesus permite romper as fronteiras estreitas que nos impomos, abrir a porta ao horizonte infinito das possibilidades de Deus.
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