09.02.2014
Paquistão: um país sequestrado pela lei da blasfémia
Viver no meio do terror
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A lei da blasfémia, cada vez mais invocada no Paquistão, permite, lançando falsas acusações, incriminar qualquer pessoa condenando-a à prisão ou até à morte. Os Cristãos são, provavelmente, a minoria religiosa que mais tem sofrido com este sistema. Asia Bibi ou Shahbaz Bhatti são exemplo disso.
Falta menos de um mês para se assinalar mais um aniversário do assassinato de Shahbaz Bhatti, o ministro paquistanês que pagou com a vida a sua luta em favor de Asia Bibi, condenada injustamente pela lei da blasfémia. Três anos depois, o Paquistão continua a estar sequestrado por esta lei iníqua que permite lançar qualquer suspeita sobre qualquer pessoa, incriminando-a de ter insultado o profeta Maomé, ou de ter ofendido, de alguma forma, o Alcorão. Por trás da defesa da blasfémia estão os taliban que, em 2007, declararam mesmo guerra ao poder central e desejam instaurar no país a lei islâmica. Para isso, têm recorrido à força. Só no mês passado calcula-se que mais de uma centena de pessoas tenham perdido a vida em ataques terroristas promovidos pelos taliban.
Quando saiu de casa, dia 2 de Março de 2011, Shahbaz Bhatti, ministro paquistanês das Minorias Religiosas, não ignorava as inúmeras ameaças de morte que grupos extremistas continuavam a proferir contra si. O único cristão do Governo do Paquistão dirigia-se para o gabinete, em Islamabad, quando o seu automóvel foi crivado de balas. A lei da blasfémia fazia mais uma vítima. Meses antes, em Janeiro, o governador do Punjab, Salman Taseer, também fora assassinado por ter também denunciado o carácter particularmente injusto desta lei.
Acusações grosseiras
São inúmeras as histórias que demonstram como a lei da blasfémia tem vindo a ser usada de forma abusiva para a incriminação de inocentes no Paquistão. Os Cristãos têm sido particularmente visados. Asia Bibi, que simplesmente bebeu um copo de água de um poço, foi acusada, em 2010, de ter cometido um crime grave, por ter tornado a água impura, e isso bastou para a sua condenação à morte por blasfémia. Tanto o governador Taseer, como o ministro Bhatti, revoltaram-se com a profunda injustiça desta lei e com a forma negligente como as autoridades condenam à morte pessoas com base em acusações tão grosseiras.
Os seus argumentos foram inúteis e o terror falou mais alto. Asia Bibi continua presa, no corredor da morte, vivendo apavorada todos os dias, sempre à espera que a sentença venha a ser cumprida. Daí, do corredor da morte, Asia Bibi apela às nossas orações, onde vai buscar a energia que a mantém viva. “Não sei se aguento muito mais. Se ainda estou viva é graças à força que as suas orações me dão”, escreveu, no Natal, ao Papa Francisco.
A história de Malala
As minorias religiosas são perseguidas no Paquistão com uma persistência e violência assustadoras. A imposição da lei da blasfémia, por grupos extremistas, tem condenado o país a uma obscuridade cultural e religiosa terrível. A história da jovem Malala, atingida a tiro na cabeça pelos talibãs, no dia 9 de Outubro de 2012, apenas porque queria ir para a escola, é sintomática disso mesmo.
Malala, que entretanto ganhou o Prémio Sakharov dos Direitos Humanos, reafirmou, numa sessão especial da ONU, em Julho do ano passado, a sua luta pela liberdade. A declaração desta adolescente de apenas 16 anos é assombrosa pela sua coragem. “Eles pensavam que as balas nos iam silenciar, mas enganaram-se. E desse silêncio nasceram milhares de vozes”. Malala combate o obscurantismo que permite perseguir e matar em nome da religião. Para Malala, tudo passa pela educação. A sua receita é simples: “Um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”.
As Irmãs da Sagrada Família
O combate à ignorância e ao fanatismo é uma das prioridades da Igreja Católica no Paquistão. Porém, esta é uma tarefa particularmente difícil. Em certas regiões, como no noroeste do país, grupos extremistas têm levado a cabo, nos últimos anos, campanhas de destruição de escolas, especialmente as que se destinam ao ensino das raparigas. Às campanhas de medo, a Igreja tem respondido com uma invulgar coragem. Só na Diocese de Faisalabad, há 82 escolas em pleno funcionamento. Só por estarem abertas, apesar das ameaças, é um forte sinal que é dado a toda a comunidade. Mas são imensas as dificuldades. As famílias são muito pobres e não conseguem custear o transporte das crianças. A solução passa, muitas vezes, pelo regime de internato. Mas isso também tem custos. As Irmãs da Sagrada Família dirigem um internato na vila de Chak, permitindo que 45 meninas, oriundas de regiões longínquas, possam frequentar os seus estudos. Agora, estas religiosas querem abrir uma nova residência para que mais raparigas tenham a possibilidade de estudar. Algumas têm até manifestado o desejo de seguir a vida religiosa. A Fundação AIS está a promover uma campanha de apoio a estas Irmãs da Sagrada Família, para poderem assim abrir mais uma escola. O importante mesmo é que o sofrimento e o martírio de Malala, de Taseer, de Bhatti e de Asia Bibi não tenham sido em vão. E isso pode depender apenas de si.
www.fundacao-ais.pt | 217 544 000
texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre