Domingo |
O diálogo entre Jesus e Nicodemos
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O texto do Evangelho de hoje coloca-nos no centro de um dos capítulos mais significativos do Evangelho de S. João: O diálogo entre Jesus e Nicodemos. Trata-se de um texto muito bonito, embora de difícil enquadramento e complexo na sua compreensão.

É fundamental integrar este episódio narrado por S. João no contexto do Antigo Testamento e olhar para ele como uma leitura hermenêutica do texto de Nm 21,4-9, em que Jesus se apresenta como a ‘nova medicina’ de Deus para o Seu povo. Este encontro entre Jesus e Nicodemos constitui um óptimo momento para verificarmos como S. João é um bom conhecedor da teologia do Êxodo, fazendo a sua aplicação ao mistério de Jesus. Os temas são vários: o Cordeiro Pascal, o Maná, a Serpente do deserto, a Água viva. São tradições veterotestamentárias que são relidas pelo Autor do IV Evangelho à luz da liturgia judaica, constituindo assim os verdadeiros ‘sinais’ que Deus envia ao Seu povo através de Jesus, também Ele agora apresentado como um novo Moisés.

 

No entanto, o tema do Evangelho de hoje não se esgota nessa releitura de Nm 21,4-9; ele é muito mais amplo e incorpora em si novidades mais radicais, uma autêntica inversão daquilo que poderíamos chamar de ‘lógica teológica’ do Judaísmo. Para o pensamento judeu contemporâneo de Jesus, o mundo, ou seja, tudo aquilo que não entrava na órbita dos comportamentos farisaicos, devia ser condenado. Essa seria a função do Messias futuro. Para todos os que situavam no ‘mundo’ não havia esperança de salvação, nem para eles brilharia qualquer luz de esperança. O mesmo conhecemos também de Qumran, onde todos aqueles que não eram os ‘eleitos’ do movimento deviam ser condenados, pois eram os ‘filhos das trevas’ e para esses não havia esperança nem redenção possível.

 

Ora, para S. João, Jesus inaugura um tempo novo, uma nova etapa na relação de Deus com o Seu povo e isso traduz-se exactamente na inversão dessa lógica farisaica: ‘Deus não enviou o Seu filho ao mundo para o condenar, mas para o salvar’ (J0 3, 17). A nova ordem inaugurada por Jesus não se fundamenta na condenação nem na manifestação do poder de Deus, mas tão-somente no testemunho do Seu amor. É no amor que está o centro do mistério da salvação e é desse amor que Jesus dá testemunho. Para o mostrar de forma evidente, João coloca Jesus a dialogar com um Mestre do Judaísmo (Jo 3,10), de modo que se torne evidente que Ele vem mostrar não só a superação das tradições judaicas, mas também a caducidade destas face à nova relação de comunhão entre Deus e os homens que Jesus vem inaugurar. Jesus supera a dicotomia que o judaísmo havia estabelecido entre ‘povo eleito’ e mundo, entre carne e espírito, entre ‘cá de baixo’ e ‘lá de cima’, mostrando que uma nova revelação se impõe através do grande sinal que João apresenta e esse sinal é Jesus. Todas as revelações que pretendiam dar sinais de salvação, duma salvação que separa, mas não integra, que divide, mas não congrega tinham sido superadas por aquela que Jesus oferece. E essa salvação é um dom gratuito, a manifestação plena do amor de Deus.

 

É interessante notar que o judaísmo helenista tinha já feito uma releitura do texto de Nm 21,4-9, mostrando que a verdadeira medicina de Deus, a Sua cura era dada pela Palavra, pois só esta ‘é capaz de tudo sarar’ (Sab 16,7-12). Para S. João, a verdadeira cura é o amor de Deus, pois só este é capaz de levar o Homem a renascer, a restabelecer a sua comunhão com Deus. No entanto, importa ter presente que essa relação tem a marca, a iniciativa de Deus, pois é Ele que envia o Seu filho ao mundo porque o ama e não porque o homem o mereça. Esta gratuidade do amor de Deus, tão fortemente realçada no IV Evangelho, constitui não apenas um traço diferenciador face ao Judaísmo, mas está nela o essencial do mistério cristão, já que sem compreendermos e aceitarmos isso dificilmente podemos aceder ao essencial da nossa fé. Sem isso, podemos viver de acordo com uma lógica religiosa, praticar e cumprir belos princípios ético-morais, mas, apesar disso, continuaremos escravos de uma lógica de tipo social, olhando para Deus como seus servos e tendo-O a Ele como uma espécie de soberano que administra prémios e castigos, conformes aos nossos procedimentos.      

 

A verdadeira evangelização passa por aqui: testemunhar hoje no mundo este dom gratuito do amor de Deus, único capaz de nos reintroduzir numa nova relação de comunhão com Ele, ou seja, como diz S. João, levar-nos a ‘nascer de novo’, não apenas espiritualmente, mas numa relação de Comunhão. Sentirmo-nos e viver como evangelizados é deixar que aconteça em nós esta gratuidade que recebemos pelo baptismo e que nos vem do acto de Jesus ‘ter sido elevado da terra’, isto é, do Seu mistério pascal. A liturgia do Baptismo que está muito centrada neste texto de S. João constitui assim um momento único para nos deixarmos tocar por esta medicina de Deus que nos cura do nosso pecado e refaz a nossa relação de comunhão com o Pai. Ao homem cabe aderir, aceitar este desafio, numa atitude de grande humildade, pois renascer é sempre um acto de humildade, de despojamento interior, é um despir-se do que somos para nos deixarmos encher por Deus.


Dia 22 de Março – Evangelho do 4º Domingo da Quaresma

Comentário ao texto de Jo 3, 14-21

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