Domingo |
À procura da Palavra
“Uma só é necessária”

DOMINGO XVI COMUM  Ano C

"Maria escolheu a melhor parte.”

Lc 10, 42

 

Nunca gostei da expressão “doméstica” para designar a profissão de incontáveis mulheres e mães. Para além de sugerir alguém “domesticado”, sempre se desvalorizou o trabalho incalculável em tempo e dedicação que uma casa e uma família requerem. Talvez pudesse definir-se como “gestora de cuidados familiares”, “licenciada em tudo e mais alguma coisa”, “chefe do governo familiar”. Na riqueza destes novos tempos de partilha das responsabilidades associadas a uma casa e a uma família, a “fatia de leão” continua a pertencer à mulher!

No tempo de Jesus, todos os trabalhos da casa repousavam ainda mais nos ombros da mulher. Assim, é natural a atitude de Marta em ocupar-se das actividades próprias para acolher aquele hóspede tão especial que é Jesus. O que não é usual (e pouco próprio, como vemos pelas palavras que lhe dirige a irmã) é a atitude de Maria: sentada aos pés de Jesus a escutar as suas palavras. É a atitude do discípulo, que coloca em primeiro lugar a escuta do Mestre. E também isso é novo e bem referido por São Lucas: muitas discípulas seguiam Jesus. A resposta de Jesus não põe em causa o trabalho que generosamente Marta desempenha, mas sim que ela fique tão absorvida e atarefada, a ponto de perder a sua paz interior. E sublinha essa novidade de que também a mulher é chamada a ser discípula, com a mesma igualdade e dignidade dos “habituais” discípulos varões! O acolhimento de Jesus é acolhimento da sua palavra e da sua presença; não é gastar-se a “fazer coisas” cuja necessidade imediata pode ser facilmente discutível.

A escuta da Palavra de Deus será sempre um dos maiores desafios do cristão. Escutar parece não ser produtivo, não se vêm os seus efeitos imediatos (ao contrário do “fazer” que, mal ou bem, se vê imediatamente). Na escuta, o grande trabalho é interior, são os pensamentos, as perguntas e respostas, o conhecimento pessoal, que se tornam a matéria para as grandes realizações. Gosto de pensar que São Lucas nos dá Maria como modelo de escuta porque Jesus encontrou nas mulheres as melhores ouvintes da sua boa nova. Tantas vezes, ainda hoje, sem voz, elas são verdadeiras especialistas em escutar, e isso dá fruto a seu tempo de muitas formas. Como cultivamos esta escuta de Jesus na nossa vida pessoal e comunitária? Como alimentamos as palavras que dizemos com a escuta do que Deus nos diz?

Ando a ler um livro que tem por título “Uma nova oportunidade para o Evangelho”. Tem servido à renovação pastoral em algumas dioceses de França. Duas das experiências nele referidas vão ao encontro do Evangelho de hoje: a “Mesa da Palavra” (“um grupo humano em que os participantes estão ao alcance da voz uns dos outros. Ela evoca a convivialidade de palavras livres que se troca, numa escuta e benevolência mútuas (...) A Palavra viva toma a seu cargo a vida concreta dos leitores”) e as “Casas do Evangelho” (“…encontros regulares de cristãos, não nas salas do centro paroquial, mas em casa de um ou de outro (…) Encontrar-se para ler juntos relatos do Evangelho, colocar-se à escuta da Palavra que aí se revela, deixar-se transformar por ela.”). Talvez seja assim que descobrimos a “coisa mais necessária”. É possível tentar?

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