Perante a ‘desordem’ que Jesus provoca nos espaços circundantes ao Templo (dispersão dos animais para os sacrifícios, derrube das mesas de câmbio...), os judeus perguntam-lhe «Que sinal nos dás de poderes fazer isto?» (cf. Jo 2,18).
Surpreende-nos não só a pergunta como a sua própria possibilidade de perante tais circunstâncias. Esperaríamos um outro tipo de reacção: uma revolta (cf. Lc 4,28-29), nunca um diálogo. Surpreende-nos, também, a resposta de Jesus. Fala-lhes da eventualidade da destruição e da reconstrução de um Templo em três dias (cf. Jo 2,19). Palavras incompreensíveis para judeus bem conscientes dos 46 anos que demorara a construção do actual Templo. É necessária a intervenção do narrador, que nos explique que Jesus está a falar do Templo que é o seu corpo, ele próprio (cf. Jo 2,21). Sem as suas palavras seríamos como os judeus, também nós, incapazes de compreender as palavras e os gestos de Jesus. É ainda este narrador quem nos conta que os próprios discípulos se recordaram destas mesmas palavras e gesto de Jesus depois da sua ressurreição (cf. Jo 2,22).
Curiosamente, este é o segundo sinal dado por Jesus, no decurso do Evangelho segundo João, imediatamente depois do sinal de Caná. As imagens de desordem escolhidas pelo autor situam Jesus na linha dos gestos dos profetas. Neste caso, particular, invoca-se Jr 7, onde o profeta acusa os seus contemporâneos de viver na ilusão de uma salvação automática, condenando a sua dissociação de uma acção perversa e corrupta; que termina por transformar o Templo num ‘esconderijo’ de ladrões (Jr 7,11). Sim, o Templo lugar da presença de Deus entre o seu povo tornara-se um lugar de recurso, onde prevaleciam as aparências de uma piedade momentânea sem qualquer continuidade na vida. Não é por isso, por acaso, que Jesus retoma as palavras dos profetas Zacarias «... já não haverá mais comerciantes no templo do Senhor do universo.» (Zc 14,21). Também ele percebe que existe uma ideia de Templo e de sacrifícios a ser transformada.
Tal como nos testos proféticos, também nós corremos o risco de ficar no exterior da violência da imagem de desordem fortuita, ou até mesmo na agressividade das palavras pronunciadas, incapazes de compreender o que o gesto e palavra nos quer revelar. Precisamos, de facto, do testemunho do autor e dos discípulos que, relendo este gesto à luz da Páscoa, percebem que Jesus não realiza um acto de hostilidade, mas de amor em relação ao Templo, o lugar por excelência da presença de Deus. É necessário que este amor e a afirmação desta presença sejam desde já associadas à pessoa de Jesus. É agora que pelo dom da sua vida se torna o lugar da presença de Deus e o cordeiro do verdadeiro sacrifício.
Falando aos cristãos da comunidade de Corinto, Paulo reconhece este pedido e necessidade que os judeus têm de sinais, assim como os pagãos de sabedoria. E num ímpeto excelente oferece-lhe o grande sinal «um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios» (1Cor 1,23). Tal como as palavras e os gestos de Jesus, também a sua cruz não responde a uma lógia humana, é autêntica loucura. Porém, é aqui mesmo que, segundo Paulo, habita o desígnio de Deus: «o que é tido como loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é tido como fraqueza de Deus é mais forte do que os homens» (1Cor 1,25).
Não continuamos nós hoje a pedir sinais, exactamente como os judeus do tempo de Jesus? Na verdade, é o próprio Jesus quem nos diz, ‘apenas um sinal nos será dado’ (cf. Lc 11,30): o sinal da cruz; o sinal daquele que nos amou primeiro.
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