Domingo |
O Deus da Vida
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II Domingo da Quaresma, 8 de Março de 2009

Gn 22,1-2.9.10-13.15-18

Sl 115 (116),10.15-18

Rom 8,31-34

Mac 9,2-10

No ciclo de Abraão ficamos surpreendidos com dois ritmos de um mesmo itinerário: o de Abraão e o de Deus. Deus compromete-se a viver em Aliança com Abraão, e um filho será o sinal da fidelidade de Deus. Abraão, embora acreditando, fica inquieto em programar a vida e imaginar, à sua medida, como isso há de ser. Um filho deveria ser grande como os poderosos da época, como um filho do faraó; e Abraão vai para o Egipto, expondo a própria esposa ao perigo (Gn 12,10-20). E se não assim, porque não Lot (13,1-18)? Ou Eliezer (15,1-19)? Ou mesmo um filho da escrava (16,1-10)? Um filho de Sara parecia-lhe o termo da espera, e podia julgar que tinha a propriedade da promessa cumprida. No debate sobre a possibilidade de dispor da própria vida, ou da criança ou doente terminal, a Palavra dá testemunho de uma outra lógica: Deus é fiel, e cumprirá as suas promessas, mas sempre surpreendendo a nossa estreiteza e reclamando a nossa obediência confiante. Só então o nosso ritmo se cruza com o de Deus.

 

O episódio do sacrifício de Isaac provoca a purificação do ritmo da fé de todo o crente. Logo no início é dito “O Senhor colocou Abraão à prova” (22,1). Desde o início é dito que se trata de uma relação purificada, capaz de se mostrar matura, no contexto de um dom recíproco. O texto é provocatório: o Deus da Vida não pode querer vítimas humanas nem o sofrimento sem sentido. Quando Deus põe os seus amigos à prova é para purificar as nossas fantasias sobre Deus e o mundo (cf. Dt 8,2.16; 13,3; 33,8; Jz 2,22; 3,1.4; Sl 26,3). Purificando, vence a nossa obsessão em controlar, programar e apropriarmo-nos da própria vida e da dos outros. Abraão ilustra que a fé nasce da obediência, do abrir-se a uma lógica nova de não-posse e do não-programado, numa relação onde Deus se revela como Senhor da Vida.

 

Para o povo do AT foi difícil purificar-se de uma ideia trágica da divindade ligada à morte e ao sacrifício de crianças (cf. Dt 12,31; 18,10; Jos 6:26; 2Rs 21,6), proibindo-se esses ritos ou qualquer forma de dispor da vida humana. Para além do terror de uma religiosidade ancorada numa ideia maléfica do divino, é a própria raiz do desejo de posse e vitimização do outro que Gn 22 purifica. A voz que diz “Não estendas a mão contra o menino e não lhe faças mal” e o sacrifício substitutivo do cordeiro mostram um Deus definitivamente comprometido com a vida, que protege a vítima, que providencia que cada homem e mulher sejam poupados à visão trágica que parece triunfar por toda a parte. Ao descobrir que o Senhor é o Deus incondicionalmente do lado da vida, Abraão descobre que Isaac não é apenas de um filho, sua propriedade na mentalidade da época, mas como um dom, um outro inviolável como o próprio Deus. Não há desafio divino, não há imperativo de fé que não conduza necessariamente à mesma descoberta de Abraão: onde a fé se traduz em ritmo de obediência, aí triunfa a vida.

 

Na Transfiguração cruza-se o ritmo pascal de Jesus com o caminho dos seus discípulos ainda escandalizados. Em Mc 8,31-38 fora já anunciado o paradoxo do Messias: mostrar-se vitorioso no dom da própria vida. A revelação da glória de Cristo no Monte antecipa a compreensão de uma lógica de amor que se faz dom na linha das promessas divinas. Moisés e Elias apontam para a consumação da revelação divina — Profecia e Lei — que só podem chegar à plenitude quando Deus dá o seu Filho ao mundo como dom irreversível de vida. Tal dom ecoa em toda a pregação de S. Paulo: Se Deus está por nós, quem será contra nós? Ele que não poupou o seu Filho, mas O deu por todos nós, como não nos dará com Ele todas as coisas? (Rm 8, 32).

 

Este é o meu Filho muito amado; escutai-O (Mc 9,7), antecipa o anúncio do centurião que confessa o crucificado como Filho de Deus (15,39). É já na luz da glória antecipada que somos chamados ao caminho quaresmal: um Deus que dá a vida, porque é o Deus da Vida.


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