É assim que Marcos nos apresenta Jesus, no princípio quer do seu Evangelho quer deste tempo quaresmal: depois de conduzido ao deserto, onde é tentado por Satanás (vv. 12s), inicia a sua actividade messiânica de anúncio do Reinado de Deus, com um apelo à conversão e à fé (vv. 14s).
São duas cenas programáticas e paradigmáticas: resumem o que é descrito no resto do Evangelho e, na passagem de uma à outra, pretendem arrastar os leitores. Todos somos tentados, e a vitória sobre o poder do mal só é possível pelo caminho percorrido por Jesus e com Jesus… até à cruz, onde se revela definitivamente como Messias e Filho de Deus e encarna plenamente o Evangelho que anuncia, ao entregar-se totalmente a Deus, para triunfar para sempre sobre a morte e o pecado. É, pois, no seguimento de Jesus e com os olhos em todo o Evangelho que são de interpretar as duas cenas.
1. Das tentações por Satanás…
As tentações de Jesus seguem-se ao seu Baptismo (1,9-10) e como consequência dele. Pode parecer estranho, mas foi por Deus lhe ter declarado: “Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus o meu enlevo”, que Ele é tentado por Satanás; e é para isso que o mesmo Espírito, antes recebido, o impele para o deserto.
É que as tentações são tanto mais, quanto maiores forem, por um lado, a necessidade e a vontade de viver e, por outro, os obstáculos a vencer, nos desertos das privações e provações. Já no grego correspondente, “tentar” e “ser tentado” implica submeter-se a um peso que põe à prova a vitalidade de quem é submetido; o que tanto pode levar à debilitação ou até perda da vida, como ao seu reforço. Neste último caso, a tentação ou provação acaba por se revelar como um bem. E, seja em que âmbito for, só assim a vida se desenvolve, incluindo a nível propriamente religioso.
Por isso, há casos em que é o próprio Deus a pôr à prova: Abraão, para sacrificar o filho único Isaac (Gn 22,1); Israel, com a fome e sede no deserto (Dt 8,2s). Ou então permite ao Tentador, seu adversário, que tente crentes, como Job (1,6ss), para os fortalecer na fé. E Jesus não nos ensina a pedir a Deus que nos livre das tentações, mas somente do Mal, seja ele o de nos separarmos de Deus, único Criador e Senhor da vida, ou o Maligno que a isso nos seduz.
Resta saber como vencer tais tentações, fazendo delas ocasião para reavivar a fé, a exemplo e no seguimento de Jesus.
2. …Ao anúncio do Reinado de Deus
Que as tentações de Jesus se prolongaram para além da estadia inicial no deserto é sugerido já pelo número de dias que duraram: quarenta simboliza toda uma vida. À semelhança de Israel, também ele posto à prova muito para além dos quarenta anos no deserto, o confronto de Jesus com o poder do mal surge nas etapas mais marcantes da sua caminhada messiânica: com espíritos impuros, sobretudo no princípio (1,23-25.34; 3,11s; 5,1-20); com Pedro, a quem chama Satanás, por querer desviá-lo do caminho da cruz (8,27-33); com aqueles que, pouco antes de morrer, repetidamente o desafiam a descer da cruz, como prova do seu poder messiânico (15,29-32).
A reacção de Jesus é sempre a mesma: no final da primeira jornada de actividade messiânica, “retirou-se para um lugar deserto e ali se pôs em oração” (1,35); a seguir à confissão e tentação de Pedro, subiu “a um monte elevado”, onde, transfigurado, de novo se fez ouvir a voz de Deus: “Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o” (9,2-7); o dom da vida na cruz é preparado em dois momentos de intensa oração: no Getsémani, para onde se retirou (14,32-42), e no Gólgota, onde iria expirar (15,34).
Ou seja, quanto mais se confiou a Deus, mais Deus reinou sobre Ele e mais convincente se tornou o seu anúncio do Reinado de Deus. Hoje, é nessa condição de crucificado ressuscitado que por nós deu a vida, que Ele nos convida àquela conversão e fé, que se exprime na oração, na abstinência e na partilha de bens e leva ao anúncio do Reinado de Deus… num mundo que lhe é cada vez mais adverso e onde por isso aumentam, por um lado, os desertos das privações e provações e, por outro, a necessidade e expectativa do Reinado de Deus.
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