Lisboa |
Movimento Esperança e Vida
Valorizar a viuvez abrindo-se aos outros
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Na semana em que a Igreja celebra a Solenidade de Todos os Santos e comemora os Fiéis Defuntos, o Jornal VOZ DA VERDADE dá a conhecer o Movimento Esperança e Vida, uma espiritualidade que procura ajudar e apoiar mulheres viúvas.

 

Maria Delfina Carvalho é uma mulher viúva de 81 anos, que transpira força e garra pela vida. Reside, actualmente na Lourinhã, depois de durante muito tempo ter tido residência em vários lugares, devido à colocação profissional do seu marido. Natural da região de Coimbra, Maria Delfina sentiu-se, há muitos anos atrás, tocada pela espiritualidade de um movimento da Igreja que procura ajudar e apoiar espiritualmente as mulheres viúvas: o Movimento Esperança e Vida (MEV). Segundo conta ao Jornal VOZ DA VERDADE, conheceu este movimento quando ainda partilhava a vida com o seu marido. Foi num encontro de movimentos em Fátima, há mais de 30 anos, que ouviu falar pela primeira vez desta forma de viver a viuvez. “Ouvi o testemunho de uma mulher e fiquei encantada com o que ouvi. Pela sua atitude, pela sua forma de vestir, pela forma de falar, fiquei encantada! Então, comentei com o meu marido: ‘Era um movimento que fazia falta na Lourinhã!’. Falei com o pároco de então, o padre Escudeiro que não conhecia o movimento, e que me pôs em contacto com uma viúva para darmos início ao trabalho. Eu ofereci-me para ajudar no que fosse preciso… mas mais tarde fui eu quem ficou viúva”, relata.

 

Persistência no Oeste

Viúva há 27 anos, Maria Delfina Carvalho já assumiu na Diocese de Lisboa a coordenação diocesana do movimento e, actualmente, vai conseguindo manter um núcleo no Oeste, o único a funcionar a nível diocesano. “Desde que o assistente diocesano teve de deixar, o movimento parou na diocese e a própria direcção diocesana desmantelou-se”, conta. No entanto, pela sua persistência e resistência, e por sentir que o MEV é um movimento laical “com perspectivas tão boas”, Delfina vai conseguindo manter de pé os catorze centros que existem em toda a região Oeste da diocese. “Não deixei o Oeste ir abaixo!”, afirma com alguma manifestação de sofrimento pelo facto do movimento “estar tão apagado” no resto da Diocese de Lisboa. “Sozinha, peguei, continuei a fomentar as reuniões, a distribuição do jornal mensal e continuo a organizar o retiro anual”, conta ao Jornal VOZ DA VERDADE. “Aqui, da Lourinhã, vai todos os anos um autocarro com cerca de cinquenta pessoas a Fátima para fazer retiro. Da zona de Caldas da Rainha e Alcobaça também vão! Somos cerca de 150 viúvas do Oeste a participar neste retiro anual”, sublinha. Quanto ao número total de mulheres que integram o movimento no Oeste, aponta para “cerca de duzentas”.

 

Origens no pós Segunda Guerra Mundial

O Movimento Esperança e Vida nasceu em França, em 1944, no contexto da Segunda Guerra Mundial. “As viúvas mais jovens achavam que era oportuno ajudarem-se. Pediram ajuda ao padre Caffarel e iniciaram o movimento que se foi alastrando por toda a Europa”, conta Maria Delfina.

Em Portugal, o movimento surge em 1958, quando, acompanhadas pelo cónego Correia de Sá, oito viúvas foram de Lisboa a Lourdes, para participar na peregrinação organizada pelo movimento que antes se chamava ‘Grupo Espiritual de Viúvas’. A 3 de Dezembro desse mesmo ano realizou-se na igreja de São Domingos, em Lisboa, uma primeira reunião iniciando, aí, o movimento que veio a difundir-se por todo o país. Mas, acentua esta avó de 81 anos, em Portugal e nomeadamente em Lisboa, o movimento “deve muito ao padre José António Duarte que foi, durante 40 anos, o seu assistente diocesano”.

 

Sair da solidão

Actualmente, o MEV é, segundo o artigo primeiro dos Estatutos, “uma Associação de Apostolado Laical de nível nacional, constituída e dirigida por mulheres viúvas que se sentem chamadas, em espírito cristão e apostólico, a dar apoio a mulheres atingidas pela provação da viuvez”.

Segundo este documento, aprovado em Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa, a 12 de Dezembro de 2002, os objectivos do MEV são “ajudar a viúva a encontrar ou a reforçar o equilíbrio humano e espiritual, normalmente abalado pela viuvez, descobrir o apelo de Deus contido na provação da viuvez e responder-lhe generosamente” e, entre outros, “sair do isolamento, solidão e desânimo em que, por força das circunstâncias, por vezes se encontra”. Segundo Maria Delfina Carvalho, este é um aspecto importante, embora considere que “a viuvez de hoje não é como há cinquenta anos, em que a viúva ficava muito isolada”, salienta. Por isso, apela, “é preciso que as viúvas não se fechem em si próprias e se abram à possibilidade de virem a ser muito úteis, não apenas aos outros mas a si próprias. Não se devem colocar na posição da pessoa mais infeliz, porque haverá quem seja ainda mais infeliz. Por isso, é preciso que se abra à vida e não se esqueça que Deus a ama e a morte não é o fim”, lembra.

 

Aceitar a viuvez e desprender-se

Recordando a sua própria experiência, Maria Delfina revela ao nosso jornal que embora tivesse sido precursora deste movimento na Lourinhã, no início fez “uma certa resistência em entrar” porque não era capaz de aceitar a sua condição. “Não era capaz de me sentir viúva, até que finalmente tomei consciência que não estava a ser coerente. Achava que o movimento era bom para as senhoras viúvas, e pensava muitas vezes: ‘Agora que estou viúva estou a fechar-me? Não! Eu devo ir!’ Vim e comecei participar”, partilha com emoção.

Hoje, Delfina não tem dúvidas sobre o bem que o movimento lhe tem proporcionado: “A espiritualidade do MEV deu-me a capacidade de me desprender. Fiz a experiência da precariedade das coisas. E esta espiritualidade ajudou-me e ainda ajuda até hoje! Porque, não estando desinteressada de nada descobri que devia aproveitar o tempo que me resta, mais no sentido espiritual do que no sentido humano”.

 

Os novos problemas da viuvez

Dos objectivos referenciados nos estatutos do MEV, faz parte também a ajuda «a estudar os novos problemas da vida das viúvas, a fim de melhor os poder encarar e resolver». Nesse sentido, a dinâmica proporcionada pelo movimento oferece reuniões mensais, onde são apresentados diversos temas, que são enviados pela coordenação nacional, localizada no Porto, e adaptados às realidades concretas de cada lugar. Todos os anos realiza-se um retiro anual, e há ainda peregrinações que são programadas por cada centro. “Estes são também meios de evangelização”, salienta Maria Delfina Carvalho.

 

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É preciso renascer!

Actualmente é assistente do Movimento Esperança e Vida, na Diocese de Lisboa, o padre Ricardo Jorge Ferreira, também vigário judicial no Patriarcado de Lisboa. O movimento não dispõe de uma coordenação diocesana, pelo que, lamenta esta mulher que tem lutado pela resistência do MEV, “é pena que esteja um pouco apagado!”. No seu parecer, “muitos sacerdotes não conhecem o movimento”. No entanto afirma: “É preciso apostar nele porque este é um meio de formação contínuo e de ajuda fraterna muito grande. Há um grupo etário de pessoas que já viveram uma vida, muitas vezes, longe de Deus e que podem encontrar ajuda espiritual e assim tornarem-se válidas. Hoje, a avó tem um papel importante na família, e até mesmo nas paróquias”.

Maria Delfina Carvalho garante que “a viuvez pode ser uma missão e tem dois caminhos abertos”: “Ou se instala, ou então abre-se para os outros. Se se instala, fica egoísta, orgulhosa. Mas, se se abre aos outros, aproveita esta possibilidade de valorizar a sua viuvez e a sua vida, pode tornar-se uma pessoa muito válida e proveitosa para a Igreja e para as pessoas à sua volta. Daí, penso que é o Movimento Esperança e Vida vale a pena ser ajudado”.

texto e fotos por Nuno Rosário Fernandes
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