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Para mudar o nosso retrato
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Trabalhava eu numa fábrica, em Genebra, durante as férias de Verão. Era o mês de Agosto de 1970. Há poucos dias tinha ocorrido a morte biológica de Salazar. Portugal por uns dias ocupou algum espaço nos jornais.

Num fim-de-semana, em convívio com amigos da família que me acolhera, uma francesa caracterizou os portugueses de uma forma curiosa: “são simpáticos, mas têm os dentes estragados”. Não me recordo se sorri ou se fiquei sério, mas jamais esqueci o retrato que de nós tinha.

Portugal era um país isolado, atrasado e exausto pela guerra colonial. Ter saúde era uma sorte que todos desejavam. Muita coisa entretanto mudou e essas mudanças aproximaram-nos da Europa. Nalguns sectores, como na saúde materno infantil, conseguimos um lugar cimeiro no contexto mundial; já tão felizes não fomos no que se refere à saúde oral. Apesar do progresso, não só na saúde, constatamos que o sonho de sermos um país europeu livre, estável, socialmente equilibrado e justo, sem manchas de subdesenvolvimento, parece que se evapora. Lembrando a tal expressão, constato que hoje há pessoas que não têm meios para tratar os dentes, para comprar medicamentos, nem para se alimentar razoavelmente; assim até a vontade de ser simpático desaparece.

 

A Europa em que estamos
A adesão à Europa deu-nos muitas oportunidades, umas aproveitadas, outras desperdiçadas com alguns vícios à mistura. Mas chegou a hora da verdade e as medidas “draconianas” da troika estão a bater à porta de muitos portugueses, quando já 1 em cada 5 vive no limiar da pobreza.
Nada mais nos resta do que ser realistas e sensatos ou simplesmente insensatos. A preocupação pelo bem comum – esse conjunto de condições da vida social que permitem alcançar mais facilmente a própria perfeição – nos impele a interrogarmo-nos por que é que, apesar do progresso verificado, nos encontramos em situação de mendigos. Isto leva-nos a entender que se impõe mudar as mentalidades por parte dos cidadãos e por parte dos políticos. Os cidadãos precisam de acreditar em si mesmos, na sua dignidade, no seu lugar e no bem-estar como direito e não como esmola e, ao mesmo tempo, assumir as suas obrigações sem estar à espera de que outros os substituam. Os políticos devem interiorizar a dignidade da sua missão e a ideia de que não são donos de ninguém e que o interesse geral tem que sobrepor-se aos interesses pessoais ou partidários. Têm que saber e não se lhes pode permitir que utilizem o povo como arma de arremesso de interesses particulares. Lamentavelmente a desarticulação e a oposição sistemática de posições deixam uma imagem confrangedora junto de quem procuramos maior credibilidade.


A nossa mais-valia

Os seguidores de Jesus têm que ser activos, como todos os outros, na construção de uma sociedade justa, progressiva e feliz. A consciência da fé e do bem comum será um reforço para essa atitude. Há dias decorreram em Fátima dois eventos que são a expressão desta preocupação da Igreja: o 27º Encontro da Pastoral Social, com vista a preparar as pessoas para responderem aos desafios actuais, como criando nas paróquias um grupo atento e actuante e conducente à autonomia das pessoas. E as Jornadas Missionárias 2011, desejando levar as pessoas, melhor preparadas, a contribuírem para preencher o vazio deixado pela incapacidade do Estado em prover às necessidades básicas dos cidadãos.
Nestas questões notam-se por vezes tonalidades assistencialistas. Mas não é isso que se quer. Torna-se urgente actuar junto da governação de forma a inviabilizar a tendência tão marcada para fazer do cargo público uma coutada privada. Convém perguntar: em que é que os intelectuais crentes, os capacitados para ler nas linhas e entrelinhas dos documentos orientadores da coisa comum, os relacionados com as várias instâncias do poder têm contribuído para evitar que a história não repita os erros de sempre, porque nunca atalhados na sua raiz? Ou para tornar claro quais as motivações atrás das grandes opções dos governantes, procurando saber o que os move, quem os influencia ou eventualmente ao serviço de quem estão a trabalhar, despojando assim o povo do direito a uma vida mais feliz? Há que ter presente que a pessoa, como do pão para a boca, igualmente necessita de sentir-se parte plena da sociedade e nunca objecto descartável.

texto pelo P. Valentim Gonçalves, CJP-CIRP
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