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Sudão do Sul a um mês do nascimento como Estado independente: Pode o petróleo matar a liberdade de um povo?
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Faltam poucas semanas para se formalizar o nascimento de um novo país: o Sudão do Sul, fruto da vontade popular expressa num referendo que pôs ponto final numa guerra civil das mais tenebrosas da história africana. No entanto, novos conflitos estão a ameaçar o sonho. A posse da região de Abyei pode deitar tudo a perder. Afinal, o petróleo pode mesmo matar a liberdade de um povo.

 

O mundo tem vindo a assistir com estupefacção, mas, ao mesmo tempo, com estranha indiferença, ao avolumar de sinais de fogo entre o Norte e o Sul do Sudão. A menos de um mês do seu nascimento como estado independente, a 9 de Julho, assiste-se ao reacender da violência na região fronteiriça de Abyei e ao assumir do controlo da capital desta província pelas tropas do Norte.

 

Sons de guerra

Tudo terá acontecido após um alegado assalto, a 20 de Maio, a um comboio militar de soldados de Cartum. O Norte acusou o Sul desse ataque, o que provocou mais tarde uma retaliação. De acordo com o que foi já publicado pelo jornal New York Times, a resposta militar foi bem planeada. Bombardeamentos aéreos, milhares de soldados transportados em tanques e uma constatação: a cidade de Abyei está ocupada. E não se tratou apenas de uma resposta militar. O presidente sudanês, Omar Hassan al-Bashir, decretou o fim da administração mista de Abyei, que resultara do acordo de paz, assinado em 2005, em Nairobi, entre o Governo do Sudão e os rebeldes do Exército Popular.

 

A paz por um fio

A questão de Abyei é demasiado sensível. Todo o processo de paz pode estar à beira da ruptura, o que poderá ter consequências imprevisíveis. Irene Panozzo, da Universidade de Durham, afirmou, ao jornal La Repubblica, que esta região sempre sob disputa do Norte e do Sul é “uma ferida que nunca cicatrizou totalmente”. E porquê esta disputa tão acesa? É que a região de Abyei é rica em petróleo e em água, e ali isso vale ouro.

Depois da invasão de Abyei, al-Bashir, o homem forte do Norte, que tinha garantido que respeitaria o referendo (que deu uma esmagadora maioria de votos – 98,83% – pela independência), declarou que Cartum não tem nenhuma intenção de se retirar. “Abyei é território do Norte do Sudão”, afirmou.

 

A força do petróleo

Mais uma vez, a questão dos recursos naturais pode sobrepor-se à vontade das populações. De facto, os principais poços petrolíferos do Sudão estão no Sul, o que aumenta extraordinariamente a importância estratégica da região de Abyei, que também é rica em recursos naturais. E qual tem sido, nos últimos dias, a resposta das autoridades do Sul a este recrudescer da violência? “Sem Abyei não há diálogo sobre outras questões: não perderemos tempo a discutir a dívida externa, direitos de cidadania ou propriedade do petróleo”, afirmou o ministro do Sul para a Cooperação Regional.  

 

Milhares em fuga

 

Para já, o que se sabe desta disputa é que o povo do Sudão voltou a ser a principal vítima desta disputa. Segundo a ONU, a última ofensiva de Cartum provocou a fuga a pelo menos 40.000 pessoas. Um terço das estruturas civis da cidade de Abyei foram reduzidas a cinzas. A ONU fala de uma verdadeira “limpeza étnica patrocinada pelo Estado”. Num último desenvolvimento desta questão, o Norte e o Sul do Sudão decidiram lançar patrulhas conjuntas e a criação de uma zona-tampão, desmilitarizada, sob os auspícios da União Africana.

 

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A Igreja como sinal de reconciliação

A evolução desta questão volta também a colocar em grande plano o trabalho único dos homens e das mulheres da Igreja – nomeadamente da Fundação AIS – que, no Sudão, procuram ser agentes de paz, reconciliação e de desenvolvimento de uma região massacrada pela guerra e destruição. Recorde-se que a guerra civil durou 22 anos e teve como pano de fundo também um conflito religioso entre o Norte muçulmano e o Sul cristão e animista. A guerra civil provocou mais de dois milhões de mortos e cerca de seis milhões de refugiados.

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