Porque na Páscoa temos a superação do obstáculo maior que é a morte, vem a propósito tirar daí o sentido para todos os obstáculos, também para o que agora nos envolve.
A Comissão Justiça e Paz dos Institutos Religiosos, no seguimento do seu Encontro Nacional no passado dia 9 de Abril, centrado na crise, apresentou algumas considerações, que agora retomamos:
“Queremos encarar a crise como uma oportunidade”, afirma o comunicado, na linha da Encíclica Caridade na Verdade: “A crise torna-se ocasião de discernimento e elaboração de nova planificação. Com esta chave, feita mais de confiança do que de resignação, convém enfrentar as dificuldades da hora actual” (21). É um apelo à confiança, e não à maledicência ou resignação. É um apelo a que “o esforço para minorar as dificuldades dos mais fragilizados seja continuado e reforçado, não sucumbindo às críticas de quem o considera menor ou alienante”. Mas é ao mesmo tempo um alerta para que “esses esforços não redundem em meros paliativos para uma doença que precisa de ser atacada nas suas causas.”
Todos estamos nesta
É uma situação que nos envolve a todos. Na sua raiz encontra-se a visão que dá primazia ao ter em vez do ser. O modelo, que não foi de desenvolvimento, fomentou o que agora temos: desigualdades crescentes e escandalosas tanto no acesso aos bens como às oportunidades. É uma crise há muito anunciada, com puxões de orelhas aos nossos representantes, mas sempre escamoteada pelos partidos no poder que se iam revezando sem corrigir a trajectória, uma vez que o interesse maior cedia o lugar a conveniências eleitoralistas e partidárias. Essas práticas expuseram ao mundo a sua fragilidade: sem crédito no mundo financeiro, sem autonomia económica, humilhados politicamente como os irmãos pobres e desgovernados da família rica, já pouco temos a dizer para além de aceitar o que nos vão impondo; enquanto a tróica vai traçando a dura sorte do país, os seus representantes envolvem-se em tricas domésticas e mesquinhas como que se nada estivesse a acontecer. Ao fim e ao cabo fomos legitimando essas práticas pelo nosso voto ou pela nossa demissão, arrastados na ilusão do dinheiro fácil que ninguém dá de graça, no embuste da felicidade apoiada no ter muito, no engodo de quem muito oferece escondendo as cláusulas de letra pequenina mas que fará cumprir, na corrida para o precipício de quem espera dos outros que façam o seu trabalho e apenas lhe proporcionem os benefícios.
Não à fatalidade, sim à oportunidade
Perante isso “manifestamos alegria por algum ressurgir de uma sociedade civil que questiona esse modelo de crescimento e as distorções que provocou; mas preocupa-nos o perigo de algumas oligarquias corporativas que, com o nome do povo e da democracia, buscam mais o interesse pessoal, esquecendo a dimensão da solidariedade e contribuindo para uma vida ainda mais penalizada para os desprovidos de poder.” E assinalam “parâmetros que nos parecem indispensáveis: uma vida mais simples, menos dependente das pressões publicitárias viradas para o consumismo, e uma organização mais justa, mais orientada para o cidadão. Essa perspectiva envolve a todos: o Estado com a transparência nos projectos, a verdade nas opções e a avaliação nos resultados; a família que deve ser respeitada e apreciada, constatando que a sua subalternização a outros valores tem sido causa de muitos desequilíbrios; a escola que não se pode limitar à informação, mas deve educar para a cidadania; a administração pública assumidamente ao serviço do cidadão; passa por uma justiça que, ultrapassando o formalismo, recupera a sua dignidade e promove maior bem-estar porque realizando a justiça real; implica toda a sociedade civil que, quando se vê respeitada, mais motivada fica para cumprir as suas obrigações e para evitar sistemas alternativos de participação.”
Concluem afirmando que ninguém virá resolver os nossos problemas e que “perante carências básicas é inaceitável negar o acesso ao mínimo de condições de alimentação e cuidados de saúde, quando ao lado há ostentação e esbanjamento. Isto vale para todos: para os indivíduos e para as nossas comunidades religiosas e paroquiais, instituições, bem como para o Estado”.
![]() |
Tony Neves
O Papa Leão entrou em África por quatro portas linguísticas diferentes: a Argélia, onde o francês é...
ver [+]
|
![]() |
Guilherme d'Oliveira Martins
O périplo africano do Papa Leão XIV constitui no momento atual motivo de séria reflexão, pela importância...
ver [+]
|
![]() |
Tony Neves
Aterrei na Cidade do México e, ao sobrevoar, deu para perceber a sua enorme dimensão. Segundo estatísticas,...
ver [+]
|
![]() |
Tony Neves
Mértola é uma vila inspiradora e as localidades do município são belas e acolhedoras. Visitei diversas...
ver [+]
|