Beatificação de Madre Clara |
Irmã Maria Clara e Padre Beirão: Juntos numa obra de Deus em contra corrente
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Nasceu em plena contradição à lei vigente. Desde 1833/34, que o governo liberal português havia proibido as Ordens religiosas. E foi precisamente pela sua extinção que, a 3 de Maio de 1871, em Lisboa, surgiu a Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (CONFHIC).

Era uma resposta evangélica às inúmeras carências com que se debatia o povo português. Depauperado pelas guerras liberais e por maus anos agrícolas, sem poder contar com os socorros que lhe advinham do clero e das Ordens religiosas, suprimidas e expulsas, via-se forçado a emigrar em massa para a capital, onde uma industrialização crescente e desenfreada o transformava no proletariado mais escravizado e desprotegido da Europa.

Eram multidão os pobres, os doentes e os órfãos que vagueavam pelas ruas, privados de assistência social e religiosa, presa fácil de ideologias e de todas as degradações humanas.

Face a tanta miséria, era urgente encontrar solução. Suscitou Deus como obreiros transformadores o Padre Raimundo dos Anjos Beirão (1810-1878), natural de Lisboa, e D. Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque (1843-1899), nascida na Amadora. Professando particularmente com o nome de Irmã Maria Clara do Menino Jesus, nas terceiras seculares de São Francisco de Assis, em São Patrício, D. Libânia do Carmo e o grupo dessas terceiras capuchinhas dedicavam-se à educação de meninas pobres, as mais miseráveis da capital. Havia, porém, necessidade absoluta de cuidar dos doentes abandonados em suas casas e pelas ruas.

Assim foi crescendo o projecto de fundar uma Congregação que se ocupasse dos desvalidos, com total gratuidade, por amor de Deus, tornando visível no mundo a Misericórdia divina, servindo a humanidade sofredora e exercendo para com todos as Obras de Misericórdia.

Não sendo possível professar em Portugal, por se manter a proibição de emitir votos religiosos, o Padre Beirão recorreu à Congregação francesa das Irmãs Hospitaleiras e Mestras. Em 1870, seguiu para França um pequeno grupo de senhoras, tendo à frente a Irmã Maria Clara do Menino Jesus.

Feito o noviciado e emitida a profissão canónica, em Calais, regressaram a Lisboa, no começo de Maio de 1871. A Irmã Maria Clara tomou, então, posse do cargo de superiora da Casa de São Patrício, onde, ajudada pelo Padre Beirão, começou, imediatamente, a estabelecer e organizar uma Congregação autónoma, genuinamente portuguesa. Redigidos os Estatutos, o dia 22 de Maio de 1874 trouxe-lhe a aprovação pela assinatura do Governo português. Obtida também a aprovação pontifícia, em 1876, a Irmã Maria Clara foi nomeada Superiora Geral e considerada, desde então, como Fundadora.

Em 1878, após a morte do Padre Raimundo, assumiu totalmente o governo da Congregação, dando-lhe um tal impulso que, no espaço de 20 anos, encheu Portugal de lés a lés com o serviço dedicado das suas Irmãs que se transformaram, também, nas primeiras missionárias portuguesas. As Hospitaleiras chegaram a Angola, em 1883; à Índia, em 1886; à Guiné-Bissau e a Cabo Verde, em meses diferentes de 1893.

Mesmo que perseguida pelos seus antagonistas, a vasta obra que por toda a parte semeou a Madre Maria Clara avançava a olhos vistos. Creches, escolas, colégios, hospitais, casas de assistência a inválidos e a crianças, tratamento a domicílio, cozinhas económicas foram mudando a situação, de tal modo que a história regista esta fundadora entre as pioneiras da acção social portuguesa do seu tempo. No mesmo ritmo, a Congregação continuou a prosperar, depois da sua morte. Todavia, os contratempos históricos também se sucedem e dão vez ao inesperado.

Em Outubro de 1910, o governo revolucionário republicano expulsa todas as religiosas do País. Declarada extinta, a Congregação pôde reagrupar-se e restabelecer-se, a partir de 1 de Janeiro de 1911, graças à hospitalidade que ofereceu a Espanha, em Tui, às Irmãs de Portugal, e a Índia, na cidade de Bombaim, às Irmãs de Goa. Entretanto, algumas religiosas, aceites pelas associações que antes serviam, nunca saíram do País, continuando clandestinamente a sua missão.

A partir de Tui ou de Bombaim, a Congregação continuou a expandir-se: outras localidades de Espanha, Índia inglesa e Brasil, em 1911; Moçambique, 1922; Açores, 1929; Itália, 1952; São Tomé e Príncipe, 1958; Estados Unidos, 1960; Filipinas, 1992; África do Sul, 1996; México, 1999 e Timor em 2007. Conta, actualmente, com sete Províncias e duas Delegações, distribuindo-se as Fraternidades por quatro continentes e 14 países.

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