É já a chamada revolução de veludo e está a alastrar nos países do Médio Oriente. Depois da Tunísia, o Egipto. O povo quer o fim dos governos de ditadura, mas muitos temem opções religiosas radicais…
Estamos em Fevereiro e o mundo segue, algo perplexo, o movimento popular que tem alastrado no Médio Oriente em que multidões inimagináveis têm exigido o fim de ditaduras que regem os seus povos desde há décadas. Tudo começou na Tunísia, quando um jovem resolveu imolar-se pelo fogo frente ao Governo da cidade de Sidi Bouzid. Ele acendeu, com esse gesto extremo, um rastilho de ira popular que levou à fuga do ditador Bem Ali. Poucos dias depois, a revolta das ruas (já referida como a revolução de jasmim), alastrou ao Egipto com manifestações de mais de um milhão de pessoas a exigirem o afastamento de Mubarak e de todos os que estão no poder.
300 mortos e milhares de feridos
Os conflitos que se seguiram entre manifestantes a favor e contra a manutenção no poder do presidente já fizeram mais de 300 mortos e largos milhares de feridos. Até agora, porém, estas manifestações não têm tido sinais de confrontos religiosos extremistas, tendo até já se verificado situações que revelam sinais prometedores no meio do caos em que se transformou a cidade do Cairo: é o caso da celebração de uma missa, no passado domingo, em plena praça da Liberdade (o palco por excelência destas manifestações), no centro da capital. Um padre copta celebrou a eucaristia em homenagem às vítimas recentes da repressão, perante cerca de mil fiéis que estavam literalmente protegidos pelos muçulmanos ali presentes. No entanto, muitos analistas temem que a situação no Egipto, que continua explosiva, possa degenerar com a recusa do presidente Mubarak em abandonar o poder e o aumento de influência dos Irmãos Muçulmanos, grupo radical que procura promover os valores islâmicos.
Passagem de ano sangrenta
Como pano de fundo a tudo isto, os cristãos ainda não esqueceram a passagem de ano trágica que se viveu na Igreja do Santo Al-Qiddissine, em Alexandria, quando um carro bomba explodiu e fez 21 mortos e 60 feridos entre a comunidade copta que assistia à celebração religiosa. Aliás, logo no primeiro dia do ano – Dia Mundial da Paz – o Papa Bento XVI denunciou o "acto covarde" dos autores do ataque, lamentando a "estratégia de violência que atinge os cristãos". O Egipto é um país de maioria muçulmana, sendo que o Islão é a religião de cerca de 90 % dos seus quase 80 milhões de habitantes. Em contraste, e em larga minoria, existem os cristãos coptas, os cristãos coptas ortodoxos e os protestantes, que constituem apenas 10 % da população.
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“Isto está a ficar cada vez pior”
Confrontada com os tristes acontecimentos no Egipto, a Fundação AIS escutou a opinião da irmã Agnes, directora de um colégio católico feminino com 1.200 alunas mas que, das quais, 90 % são muçulmanas. A opinião da irmã é importante até porque, diz, a escola é o melhor lugar para se lutar contra os fundamentalismos.
Como descreve a situação actual?
Está a ficar cada vez pior. As nossas crianças estão imersas num ambiente de fanatismo. Os nossos professores mais jovens não querem ficar. Eles temem pelo futuro dos seus filhos. Eles percebem que são um alvo.
Os cristãos não estão protegidos pelo Governo?
O Governo é muito fraco. As leis são justas, mas não são cumpridas. O Governo quer demonstrar aos países muçulmanos que é "mais muçulmanos do que os outros". Com a chegada de Sadat, em 1970, o Egipto tem mudado. Era um país aberto. As mulheres não tinham de usar o véu. O Egipto, inicialmente um país laico, está a tornar-se um país religioso. Ouvimos os sermões nas mesquitas às sextas-feiras. Eles estão a incitar o ódio aos cristãos.
Como definir o exercício da liberdade religiosa no Egipto?
Um sheik pode falar em voz alta. Um padre não. Na escola, se uma jovem muçulmana se converte ao Cristianismo, eu proíbo-a de falar disso. É arriscado para nós e para ela. Corremos o risco de encerramento da escola. A liberdade religiosa existe, mas não a liberdade de se praticar a religião escolhida. Algumas meninas são forçadas a converter-se ao Islão. Os pais estão assustados.
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