O Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, está a acolher a exposição de pintura ‘Esculpindo a Luz - procurando novos caminhos na pintura’, da autoria de João Alvim. Inaugurada no final da tarde da passada sexta-feira, 16 de outubro, a mostra reúne 20 obras que propõem uma reflexão sobre a materialidade da pintura e a experiência de contemplar uma obra de arte presencialmente, num tempo marcado pela crescente presença das imagens digitais e da inteligência artificial.
Patente até dia 31 de janeiro de 2027, a exposição convida os visitantes a descobrir uma abordagem à pintura que privilegia a textura, o relevo e a relação entre a luz e a escuridão. Segundo o comunicado de apresentação, as obras “partem de uma pergunta: que lugar resta à pintura num tempo dominado pelo ecrã e pela imagem gerada por inteligência artificial?”. A resposta proposta passa por “um regresso à matéria – telas com relevo, espessura e peso, que só se revelam por inteiro quando vistas ao vivo”. O processo criativo de João Alvim começa na preparação do suporte, trabalhado com misturas de materiais de revestimento que criam sulcos, rugosidades e relevos. Como explica o comunicado, “a tela, em grande formato 120x140, ganha uma topografia própria e passa a reagir à luz: a obra muda consoante a posição de quem a observa e a iluminação ambiente”. Esta dimensão material confere às pinturas um carácter que ultrapassa a representação visual, valorizando a relação entre a superfície, a luz e o olhar de quem contempla cada obra. Do escuro para a luz Outra característica da exposição é a utilização do negro como ponto de partida para cada composição, em contraste com a tradição ocidental do fundo branco. De acordo com a nota de imprensa, “a cor resulta do encontro com essa sombra: camadas espessas de tinta alternam com velaturas transparentes, que ora escondem, ora deixam ver a profundidade do fundo”. O resultado é um conjunto de obras em que a cor e a luz emergem progressivamente da escuridão, criando diferentes efeitos visuais consoante as condições de observação. O gesto, a intuição e o acaso assumem igualmente um lugar central no trabalho do artista. As pinturas “guardam o tempo em que foram feitas e a marca física da mão” e, por isso, “recusam ser vistas apenas à distância de um clique”, sublinha o comunicado. João Alvim sintetiza esta abordagem afirmando que “na era da imagem imaterial e do ecrã luminoso, o regresso à textura física da tela e à escuridão primordial afirma-se como um ato de libertação criativa”. Mosteiro promove o diálogo entre património e criação contemporânea Na inauguração, a coordenadora do Museu do Mosteiro de São Vicente de Fora, Joana Santos Coelho, destacou a importância de acolher projetos artísticos que aproximem o património de novas formas de expressão. “O Mosteiro é um espaço onde a história, a arte e a espiritualidade se cruzam. Acolher projetos artísticos como este permite-nos manter esse diálogo vivo, aproximando o nosso património de novas linguagens e de novas formas de olhar e interpretar o mundo”, afirmou. A responsável sublinhou também a atualidade da reflexão proposta pela exposição, questionando “que lugar resta à pintura num tempo em que grande parte da nossa relação com as imagens acontece através de ecrãs?”. Na sua perspetiva, a proposta de João Alvim “convida-nos a regressar à matéria, à presença física da obra e à experiência de a observar ao vivo – uma experiência que exige tempo, proximidade e atenção”. Joana Santos Coelho agradeceu ainda ao artista e ao curador da exposição, e manifestou a satisfação do Mosteiro em receber o projeto, que “desafia a olhar para a pintura de outra forma e a descobrir novas relações entre a luz, a matéria e o espaço”. Um percurso artístico com várias exposições João Alvim frequentou os cursos de Pintura e de Arquitetura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, bem como o atelier do professor Carlos Amado. Licenciou-se em Comunicação Visual, Publicidade e Artes Plásticas no Instituto Superior de Saint-Luc, em Bruxelas. Expõe regularmente desde 1991, tendo participado em diversas exposições. Entre os trabalhos apresentados ao longo do seu percurso contam-se ‘Padre António Vieira’, na Reitoria da Universidade de Lisboa, e ‘Olhares cruzados, palavras pressentidas’, dedicada aos Painéis de São Vicente. A exposição temporária ‘Esculpindo a Luz - procurando novos caminhos na pintura’ está patente na Galeria Exposições do Mosteiro de São Vicente de Fora, até ao dia 31 de janeiro de 2027, podendo ser visitada todos os dias, das 10h00 às 19h00 até 31 de outubro (última entrada 18h00), e das 10h00 às 18h00 a partir de 1 de novembro (última entrada às 17h00).![]() |
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