Lisboa |
100.º Dia Mundial das Missões
“Que sejamos uma Igreja desassossegada pela missão”
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O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, presidiu à Vigília Missionária, na noite deste sábado, 17 de outubro, na Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, em Lisboa, salientando que “a missão é da essência da Igreja”. Na véspera do 100.º Dia Mundial das Missões, o Patriarca apelou à renovação do “compromisso missionário” dos cristãos.

Promovida pelo Serviço de Animação Missionária do Patriarcado de Lisboa (SAMPL), a celebração teve como tema ‘Um em Cristo, unidos na Missão!’ e convocou a comunidade diocesana para uma renovada consciência missionária. Na véspera do Dia Mundial das Missões, que se celebra neste Domingo, 18 de outubro, assinalando a sua 100.ª edição, o Patriarca D. Rui Valério começou por recordar, na homilia, uma experiência da infância que marcou a sua consciência missionária. Quando frequentava a escola primária, na sua terra natal, Urqueira, perto de Fátima, ouviu um missionário falar de pessoas que nunca tinham ouvido falar de Jesus. O testemunho despertou-lhe o desejo de levar o Evangelho a quem ainda não o conhecia.

O Patriarca apresentou esta memória como sinal de que a missão pertence à própria identidade da Igreja, recordando o ensinamento de São Paulo VI e a afirmação do Papa Francisco sobre a natureza missionária da comunidade cristã. “A missão é verdadeiramente constitutiva do ADN da Igreja”, afirmou, sublinhando que o anúncio do Evangelho não pode ser entendido como uma atividade secundária: “A Igreja na sua essência é missionária”.

Na presença do diretor do SAMPL, Padre Albino dos Anjos, e do pároco da Penha de França, Padre Bartolomeu Teixeira da Mota, além de muitos fiéis e numerosas religiosas, D. Rui Valério manifestou, contudo, preocupação com o que considera ser o enfraquecimento do impulso missionário entre os cristãos. “A minha pergunta é: mas que se passa, que o apelo, a urgência da missão parece que está silenciada?”, questionou.

Para o Patriarca, a missão não se limita a lugares distantes, uma vez que há pessoas próximas que também não conhecem Jesus. “Aquela terra ou aquelas terras onde há pessoas que nunca ouviram falar de Jesus, nem do nome de Jesus, já não é lá, é aqui onde eu estou”, garantiu.

 

Levar aos outros aquilo que recebemos

Na sua reflexão na Vigília Missionária, D. Rui Valério destacou que a missão nasce de uma experiência pessoal de encontro com Cristo, cuja presença leva os cristãos a partilhar com os outros a bondade que receberam. “A missão brota sempre de uma experiência”, realçou, explicando que a relação e a intimidade com Jesus estruturam a identidade missionária. O anúncio do Evangelho surge, assim, como consequência de uma presença que não pode ficar limitada à experiência individual. “Aquilo que nós temos que fazer é levar o que nós próprios recebemos. É dar o que a nós próprios também nos foi dado”, explicou.

O Patriarca relacionou este compromisso com a capacidade de promover a vida, suscitar esperança e construir a paz. Recordou que, pelo Batismo, os cristãos são chamados a contribuir para a transformação das realidades marcadas pelo sofrimento, pelo desespero, pela violência e pelo ódio.

 

Unidade e proximidade que transformam vidas

A partir do tema da vigília, ‘Um em Cristo, unidos na Missão!’, D. Rui Valério sublinhou que a unidade cristã exige atenção concreta aos outros e disponibilidade para partilhar as suas dificuldades. Para ilustrar esta ideia, contou o episódio de uma jovem que, num momento de sofrimento, foi abordada por um professor que lhe dirigiu palavras simples de encorajamento. Um ano depois, a jovem voltou a procurá-lo para agradecer o gesto, que a tinha ajudado a abandonar uma intenção de pôr termo à própria vida.

O Patriarca de Lisboa apresentou este episódio como exemplo de uma atitude missionária que começa por não ser indiferente ao outro e que procura transformar a sua realidade. A missão, explicou, implica gerar “comunhão”, mas também “transformar, para dar vida”.

Na conclusão da homilia, D. Rui Valério pediu que a Igreja viva com renovado dinamismo missionário. “Que sejamos uma Igreja desassossegada pela missão, pela urgência da missão e que esse desassossego seja por nós visto como uma graça da santidade”, convidou.

 

Jovens missionários chamados a reconhecer Cristo no outro

A Vigília Missionária incluiu o testemunho de Hugo, jovem que participou no projeto Missão Agora, realizado em abril, na Paróquia de São Maximiliano Kolbe, em Chelas, Lisboa. O projeto reúne pequenos grupos de jovens que vivem numa comunidade missionária inserida numa paróquia, conciliando a vida académica ou profissional com o serviço à comunidade e a colaboração com instituições locais.

Ao recordar a experiência junto das Missionárias da Caridade, Hugo contou o encontro com um homem com deficiência que necessitava de cuidados pessoais. Apesar da dificuldade inicial perante uma tarefa que nunca tinha realizado, a experiência levou-o a reconhecer Cristo na pessoa que estava a servir. “É tentar ver Cristo no outro”, resumiu, apresentando esta descoberta como uma das marcas mais profundas da missão.

O jovem destacou também a importância da oração comunitária, da fraternidade, da formação e da evangelização, considerando que “se não tivermos uma vida de oração comunitária, nunca poderemos levar Cristo para os outros”.

No final do testemunho, deixou o convite à participação no Missão Agora, sublinhando que a missão é uma responsabilidade de todos, independentemente da idade, e que pode concretizar-se nos diferentes contextos da vida quotidiana.

 

‘Sementes de Esperança’ marcam o envio missionário

Após a exposição do Santíssimo Sacramento, a Vigília Missionária teve ainda um gesto simbólico, ‘Sementes de Esperança: O Envio em Missão’. O Patriarca convidou os participantes a receberem um pequeno saco de sementes e uma pagela com a oração de São Francisco de Assis, num sinal de compromisso com a construção de um mundo novo.

Ao explicar o significado deste gesto, o diretor do Serviço de Animação Missionária do Patriarcado de Lisboa, Padre Albino dos Anjos, apresentou as sementes como símbolo da missão e da esperança cristã. “Semeia com fé, com amor e com esperança. E amanhã terás o mundo novo”, afirmou o sacerdote dos Missionários da Boa Nova, associando o gesto às palavras de Cristo e ao compromisso de cada cristão em levar o Evangelho ao quotidiano.

A distribuição das sementes, acompanhada por um cântico de envio, assinalou este momento da celebração e recordou o apelo lançado ao longo da vigília: viver a missão através do encontro com Cristo, da proximidade com os outros e do compromisso de fazer nascer esperança.

A Vigília Missionária 2026, na noite da véspera do 100.º Dia Mundial das Missões, terminou com a consagração junto a Nossa Senhora da Penha de França.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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