Lisboa |
III Jornadas Motivar para a Mudança
Patriarca destaca voluntariado como força de “transformação” da sociedade
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O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, afirmou que “o voluntariado cristão não começa verdadeiramente quando perguntamos o que podemos dar, mas quando descobrimos de que maneira podemos dar-nos”, sublinhando a capacidade do voluntariado para transformar a vida das pessoas e a sociedade. O Patriarca participou, na manhã deste sábado, dia 17 de outubro, na sessão de abertura das III Jornadas Motivar para a Mudança, promovidas pela Comunidade Vida e Paz, com o tema ‘Voluntariado: O Poder Transformador’.

No auditório da Igreja de São João de Deus, em Lisboa, no Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, o Patriarca D. Rui Valério destacou, na sua intervenção, que o voluntariado não pode ser entendido apenas como uma atividade que contribui para melhorar a sociedade, mas como uma presença indispensável à construção de relações humanas mais solidárias.

“Há realidades cuja importância só compreendemos quando procuramos imaginar o mundo sem elas. O voluntariado é uma dessas realidades”, salientou, lembrando o contributo dos voluntários junto das pessoas em situação de sem-abrigo, dos idosos, dos doentes e das famílias que atravessam momentos difíceis.

O Patriarca sublinhou que, no trabalho desenvolvido pela Comunidade Vida e Paz, a resposta às necessidades materiais é fundamental, mas não esgota o significado do encontro com cada pessoa. “Há uma diferença fundamental entre receber alimento e experimentar que alguém se preocupou connosco”, observou.

Para D. Rui Valério, o voluntariado permite reconhecer que o valor da intervenção humana ultrapassa a execução de tarefas e a prestação de serviços. “Uma sociedade pode desenvolver sistemas de proteção cada vez mais sofisticados e deve fazê-lo. Mas nenhuma organização, por mais eficiente que seja, consegue substituir integralmente a experiência de alguém que se aproxima livremente de outra pessoa e lhe oferece uma presença que não resulta de uma obrigação profissional ou contratual”, afirmou.

 

“Nem tudo tem um preço”

O Patriarca de Lisboa considerou ainda que o voluntariado introduz na sociedade uma lógica de gratuidade, que contrasta com a redução das relações humanas à troca e à compensação. “A lógica mercantil não é o alfa e o ómega, não esgota toda a nossa vida. Nem tudo tem um preço. Nem tudo tem que ter um preço”, realçou, defendendo que a ação voluntária recorda a capacidade de cada pessoa para agir em benefício dos outros sem esperar uma compensação equivalente.

Segundo D. Rui Valério, esta dimensão gratuita confere ao voluntariado uma força transformadora, ao introduzir novas formas de relação na vida social. O voluntário, explicou, demonstra que o ser humano pode oferecer livremente o seu tempo, as suas capacidades e a sua presença para o bem de outra pessoa.

O Patriarca relacionou esta perspetiva com a fé cristã, situando “no Evangelho e na Páscoa de Jesus Cristo” o fundamento do serviço aos outros. “Aquela transformação que fez com que da morte se passasse à vida, do despojamento se passasse à plenitude, do desencanto e desilusão se passasse à esperança. É a partir deste acontecimento que podemos compreender o voluntariado como expressão de uma existência oferecida e, finalmente, como manifestação concreta da Igreja enquanto o Corpo de Deus”, manifestou.

 

“Mais do que dar, é dar-se”

Na conclusão da intervenção, D. Rui Valério insistiu na diferença entre oferecer alguma coisa e entregar-se pessoalmente ao serviço dos outros. “Voluntariado é isto: mais do que o dar, é o dar-se”, afirmou, acrescentando que esta atitude transforma a relação com o tempo, os bens, as capacidades e a liberdade de cada pessoa.

O Patriarca de Lisboa recordou ainda que, para os cristãos, o amor de Deus se manifesta na entrega de si mesmo: “Deus não nos amou oferecendo apenas alguma coisa. Amou-nos, dando-se a si mesmo”. “É esta a vida que constrói comunidade, que devolve dignidade e que gera paz. E é esta, afinal, a vida de Cristo em nós”, concluiu.

 

Ver, sentir compaixão, ir ao encontro e cuidar

Na mesma sessão, o presidente da direção da Comunidade Vida e Paz, Diácono Horácio Félix, apresentou uma reflexão sobre o voluntariado a partir da parábola do Bom Samaritano, identificando quatro gestos fundamentais: ver, sentir compaixão, ir ao encontro e cuidar.

O responsável destacou o trabalho dos voluntários que percorrem as ruas de Lisboa durante as chamadas “voltas da noite”, aproximando-se das pessoas em situação de sem-abrigo, escutando-as e estabelecendo relações de confiança. Sublinhou que este serviço exige reconhecer a “dignidade de cada pessoa” e não ficar “indiferente” ao seu sofrimento.

O Diácono Horácio Félix salientou ainda que o voluntariado transforma tanto quem recebe ajuda como quem a presta. “O voluntariado transforma quem recebe, mas transforma igualmente quem dá”, afirmou o presidente da direção da Comunidade Vida e Paz, defendendo que o encontro com os outros permite reconhecer o valor das pequenas coisas e renovar o compromisso com uma sociedade mais humana.

 

Uma manhã de reflexão sobre o compromisso social

Organizada pela Comunidade Vida e Paz, instituição tutelada pelo Patriarcado de Lisboa, a terceira edição das Jornadas Motivar para a Mudança reuniu profissionais, voluntários e agentes de intervenção social para uma manhã de reflexão e partilha sobre o papel do voluntariado na construção de uma sociedade mais solidária e inclusiva.

A iniciativa constituiu um espaço de encontro e diálogo entre pessoas e organizações que trabalham diariamente na resposta aos desafios sociais e no combate à pobreza e à exclusão.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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