Na Missa das Universidades, no final da tarde de quinta-feira, 15 de outubro, na Igreja de São João de Deus, em Lisboa, o Patriarca D. Rui Valério desafiou os universitários a viverem o percurso académico para além da competição e da procura de resultados, e a cultivarem a gratuidade, a dimensão ética e a procura pela verdade, para evitar que o conhecimento se desumanize.
A celebração, que assinalou a abertura do novo ano académico, reuniu numerosos jovens universitários, em particular do 1.º ano, e foi apresentada pelo Patriarca de Lisboa como uma ocasião para acolher o dom do Espírito Santo e confiar-Lhe o início desta nova etapa. A Eucaristia foi concelebrada por D. Alexandre Palma, Bispo Auxiliar de Lisboa, pelo pároco, Cónego Vítor Gonçalves, e por mais de uma dezena de sacerdotes que acompanham os universitários da diocese, entre os quais os Padres Miguel Vasconcelos e António Ribeiro de Matos, respetivamente diretor e diretor adjunto do Setor Pastoral Universitária do Patriarcado de Lisboa. Universidade: um dom que promove a gratuidade Partindo das leituras bíblicas, o Patriarca apresentou três desafios para a vida universitária, começando pela “gratuidade”, entendida como a capacidade de reconhecer os dons recebidos e de os colocar ao serviço dos outros. D. Rui Valério destacou a universidade como uma oportunidade para aprofundar conhecimentos, investigar e procurar a verdade, sublinhando que esta experiência vai muito além da preparação para uma profissão. “A universidade é um dom que, de alguma maneira é gratuito e como gratuito que é, está vocacionada e está chamada a promover a gratuidade na nossa vida”, realçou. Para o Patriarca, a formação universitária não se limita à aquisição de competências profissionais, uma vez que proporciona também “uma perspetiva, uma forma de vida”, inteligência e sabedoria. Perante a competitividade que pode marcar o percurso académico, D. Rui Valério recordou a importância de valorizar o conhecimento para além da sua utilidade imediata. “Nem tudo aquilo que nós fazemos é em vista de uma utilidade imediata”, observou, apelando aos estudantes para que sejam “apóstolos de gratuidade”. Competência técnica e formação humana O segundo desafio apresentado pelo Patriarca de Lisboa aos universitários partiu da pergunta sobre a responsabilidade de cada geração perante Deus e a sociedade. D. Rui Valério convidou os estudantes a refletirem sobre o modo como utilizam o tempo de formação e sobre os valores que orientam a investigação e o exercício profissional. “O estudo é um caminho para Jesus Cristo, que é a vida, a verdade e caminho”, afirmou, questionando se o percurso universitário é vivido como uma procura e um amor à verdade ou se acaba por ser condicionado por outros interesses. O Patriarca colocou também a questão da formação integral da pessoa: “O tempo da investigação, o tempo universitário, o tempo da dedicação, foi só um tempo para formar o técnico, com a sua competência, ou é um tempo para formar o ser humano em cada um de vós? Foi um tempo de humanidade”. Para ilustrar este desafio, evocou o relato de um antigo responsável nazi que justificava a sua atuação num campo de concentração com o cumprimento eficiente das tarefas que lhe eram atribuídas. O exemplo serviu para distinguir a competência técnica da responsabilidade ética perante a vida humana. “Estes carregamentos de três mil não eram coisas, eram pessoas”, observou D. Rui Valério, sublinhando a necessidade de não separar o conhecimento da consciência moral. O Patriarca relacionou esta reflexão com os desafios do desenvolvimento tecnológico contemporâneo, incluindo a inteligência artificial, alertando para a importância de preservar a dignidade humana. A formação universitária, defendeu, deve promover não apenas a competência científica, mas também “o desenvolvimento da ética, dos valores” e do sentido de responsabilidade. Fé e ciência na procura da verdade A terceira dimensão da homilia centrou-se na relação entre a fé e o conhecimento científico. Partindo da passagem evangélica sobre a “chave da ciência”, D. Rui Valério identificou essa chave com a fé, entendida como abertura à possibilidade de reconhecer em Jesus Cristo a presença de Deus. O Patriarca recordou a relação entre acreditar e compreender, evocando a expressão de Santo Agostinho ‘creio para compreender’, e reconheceu que a história da relação entre fé e ciência no Ocidente foi marcada por dificuldades e tensões. Na sua intervenção, defendeu que a procura científica da verdade não deve ser entendida como incompatível com a fé. “Eu acredito sinceramente que a verdade é um caminho em sentido”, afirmou, acrescentando que não deve existir receio perante as descobertas alcançadas através da investigação. D. Rui Valério desafiou, por isso, os universitários a desenvolverem a capacidade de olhar para além do que é imediatamente “visível” e de reconhecerem “a presença de Deus” no mundo e na verdade que procuram. A terminar, deixou aos estudantes um apelo a colocarem o conhecimento ao serviço dos outros, recuperando a imagem evangélica da chave da ciência: “Por favor, abri aquela porta para que outros possam entrar”. Bênção dos novos estudantes e convívio universitário Durante a celebração, os alunos do primeiro ano, que ingressaram este ano nas universidades de Lisboa, foram chamados à frente do altar, onde receberam a bênção do Patriarca de Lisboa, num gesto de acolhimento e de acompanhamento espiritual no início do percurso académico. A Missa das Universidades terminou com um jantar-convívio, seguido de uma conversa com D. Alexandre Palma, Bispo Auxiliar de Lisboa, em torno da pergunta ‘É preciso ser radical para ser cristão?’.![]() |
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