O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, participou na abertura da Jornada de Estudo e Reflexão ‘Igreja de Lisboa em missão: o sonho missionário de chegar a todos’, na manhã deste sábado, 10 de outubro, defendendo que o anúncio do Evangelho exige comunidades capazes de escutar, acolher e acompanhar cada pessoa.
A iniciativa, organizada pelo Instituto Diocesano da Formação Cristã e pelo Serviço de Animação Missionária, decorreu no auditório da Igreja de São João de Deus, em Lisboa, no âmbito do centenário da Semana das Missões. A palestra de D. Rui Valério teve como tema ‘Os desafios da missão: anunciar Cristo num tempo que desaprendeu a escutar’. Partindo da relação entre o anúncio da Palavra e a disponibilidade para a acolher, o Patriarca de Lisboa considerou que um dos grandes desafios missionários do presente se encontra na distância entre ouvir e acreditar. “A fé vem da escuta, e a escuta da palavra de Cristo”, recordou, citando São Paulo, para sublinhar que o anúncio cristão não depende apenas da capacidade de comunicar, mas também da abertura do coração de quem escuta. Perante mais de uma centena de participantes, D. Rui Valério defendeu que a missão não começa na Igreja, mas em Deus, e que os cristãos são chamados a participar numa iniciativa divina que os precede. “A missão cristã não consiste, assim, em transportar um Deus ausente para um território onde Ele ainda não está. Consiste em colaborar com um Deus que nos precede”, afirmou. Esta perspetiva, acrescentou, deve transformar a ação pastoral. Antes de perguntar o que pode fazer, a Igreja deve procurar reconhecer o que Deus já está a realizar na vida das pessoas. O Patriarca alertou ainda para os riscos da ansiedade e do orgulho na evangelização, lembrando que os cristãos são necessários para anunciar, mas não são os responsáveis últimos pela conversão. “O missionário pode falar ao ouvido, mas só Deus pode abrir o coração”, declarou. Evangelizar é transformar a vida Na reflexão sobre a finalidade da evangelização, D. Rui Valério salientou que o anúncio do Evangelho não se pode limitar à transmissão de conhecimentos religiosos ou à participação em atividades eclesiais. A sua finalidade é transformar a existência a partir de dentro, influenciando as escolhas, as relações, a forma de amar e a maneira de enfrentar as dificuldades. Citando a exortação apostólica ‘Evangelii nuntiandi’, de São Paulo VI, o Patriarca destacou que evangelizar significa levar a Boa Nova à humanidade e, pelo seu influxo, “transformá-las a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade”. Neste sentido, apresentou a missão como um processo de acompanhamento que procura ajudar cada pessoa a configurar a sua vida com Cristo. “Poderíamos encontrar aqui uma belíssima definição da missão: evangelizar é trabalhar, sofrer e acompanhar até que Cristo tome forma numa pessoa”, afirmou. O Patriarca sublinhou também a dimensão comunitária da evangelização, observando que o Evangelho cria relações novas, fraternidade e comunhão. Uma comunidade dividida pode anunciar corretamente a mensagem cristã, mas comprometer a sua credibilidade através da forma como vive. “A credibilidade do Cristianismo é muito mais que uma coerência lógica: é uma coerência de vida e de comunidade”, realçou, recordando as palavras de Jesus: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros”. Escutar para criar condições de encontro Ao abordar as dificuldades de escuta na sociedade contemporânea, D. Rui Valério chamou a atenção para uma cultura marcada pela personalização da informação e pela tendência para procurar conteúdos e relações que confirmem as próprias preferências. “Vivemos numa época de extraordinária comunicação e, paradoxalmente, podemos tornar-nos cada vez menos capazes de alteridade”, frisou, alertando para o risco de cada pessoa ficar encerrada numa realidade que corresponde apenas às suas convicções. O Patriarca considerou que este desafio também diz respeito à Igreja, que deve questionar a sua própria capacidade de escutar. “Também dentro da Igreja podemos escutar apenas aquilo que confirma as nossas opções”, reconheceu. Por isso, antes de perguntar por que razão os outros já não escutam a mensagem cristã, propôs uma interrogação dirigida aos próprios evangelizadores: “Que espécie de ouvintes nos tornámos nós?”. Como referência para a ação missionária, D. Rui Valério apresentou a forma como Jesus se relacionava com as pessoas, através da proximidade, das perguntas e da atenção às suas histórias concretas. “Uma pessoa nunca é simplesmente um problema à espera de uma solução. É uma história à espera de encontro”, afirmou o Patriarca, defendendo que a escuta não dispensa o anúncio da verdade, mas cria condições para que a mensagem cristã possa ser acolhida. Comunidades capazes de gerar cristãos Na parte final da palestra, D. Rui Valério defendeu que a resposta aos desafios da missão não passa apenas pela formação de melhores comunicadores, mas pela construção de comunidades capazes de acompanhar as pessoas e ajudá-las a crescer na fé. “Uma comunidade pode comunicar muitíssimo e gerar muito pouco”, observou, distinguindo a quantidade de iniciativas e a circulação de informação da capacidade de formar discípulos. Segundo o Patriarca, gerar cristãos exige tempo, relações, acompanhamento, testemunho, oração e vida partilhada. Por isso, propôs que as comunidades avaliem a sua fecundidade missionária a partir da experiência concreta de quem delas se aproxima. “O que acontece concretamente a uma pessoa quando entra no meio de nós?”, questionou, apontando para a importância de cada pessoa ser conhecida pelo nome, encontrar espaço para colocar perguntas, partilhar dúvidas e descobrir alguém disposto a caminhar consigo. D. Rui Valério considerou que algumas das realidades missionárias mais fecundas acontecem longe da visibilidade pública, através de conversas, acompanhamento pessoal e gestos de fidelidade mantidos ao longo do tempo. Apontar para Cristo Na conclusão, o Patriarca de Lisboa sintetizou o caminho missionário como um percurso que começa no envio, passa pela proximidade e pela escuta e conduz ao anúncio de Jesus Cristo. “Não para manipular essa abertura; não para aproveitar a fragilidade; não para transformar a confiança em ocasião de poder religioso. Mas para que uma verdadeira relação possa tornar novamente possível a escuta”, afirmou, sublinhando a necessidade de respeitar a liberdade de cada pessoa e o trabalho da graça. D. Rui Valério apresentou duas expressões evangélicas como referências para a missão: «Que queres que Eu te faça?» e «Eis o Cordeiro de Deus». A primeira traduz a atenção à história concreta do outro; a segunda recorda que o evangelizador é chamado a apontar para Cristo, sem se colocar no centro do encontro. “A Igreja existe para servir este encontro. A missão existe para servir este encontro. As nossas comunidades existem para ser tempo e lugar deste encontro”, salientou. O Patriarca concluiu defendendo que a missão cristã deve ajudar homens e mulheres a encontrar Jesus Cristo e a descobrir nele o sentido da própria existência. Para isso, considerou necessária uma Igreja capaz de escutar, de se aproximar das pessoas e de testemunhar, com palavras e obras, a presença de Cristo. Uma Igreja de Lisboa cada vez mais missionária Na abertura da Jornada de Estudo e Reflexão, o diretor do Instituto Diocesano da Formação Cristã (IDFC), Padre David Palatino, destacou a importância de assinalar os 100 anos da Semana das Missões e os 10 anos do Sínodo Diocesano de Lisboa, realizado em 2016. “Estamos, passados 10 anos, talvez menos sonhadores e mais realistas, mas também otimistas de que este sonho pode ser, de facto, possível”, afirmou, referindo-se ao desafio de manter vivo o “sonho missionário de chegar a todos”. O sacerdote apresentou a iniciativa como um passo no itinerário pastoral da diocese rumo ao Jubileu de 2033, salientando a necessidade de uma conversão missionária efetiva e de uma participação ativa de todos os fiéis na evangelização. “Não se trata apenas de pedir operários para a messe do Senhor, mas de nos tornar conscientes da parte ativa que somos: todos somos missão”, sublinhou o Padre David Palatino, evocando também o apelo do Patriarca de Lisboa a uma Igreja vocacionada para a santidade e para a missão. IDFC como “verdadeira pérola” da diocese Antes da palestra, o Patriarca D. Rui Valério presidiu à Eucaristia, na Igreja de São João de Deus, em Lisboa, onde destacou o papel do Instituto Diocesano da Formação Cristã no aprofundamento da fé e na missão da Igreja. Na saudação inicial, o Patriarca referiu-se ao IDFC como “uma verdadeira pérola que temos na diocese”, sublinhando que a jornada constituía uma oportunidade “de memória” e de “projeção de esperança”. Na homilia, D. Rui Valério salientou ainda a importância da formação cristã na configuração da vida com Cristo, afirmando que “o aprofundamento” e “o amadurecimento da fé” devem conduzir a uma “identificação cada vez maior com Jesus”. O Patriarca apelou também à divulgação do trabalho do IDFC, convidando os participantes a falar “do maravilhoso caminho que aqui se está a efetuar”.![]() |
Tony Neves
O Papa Leão XIV pisou terras francesas, com visitas a Paris, Lourdes e Metz (25 a 28 de setembro)....
ver [+]
|
![]() |
Tony Neves
O mundo da Cultura é agridoce, em constante efervescência, sempre a borbulhar, a provocar contínua inquietação.
ver [+]
|
![]() |
P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Leão XIV não é a continuação de Francisco, nem a ruptura com o pontificado anterior, mas uma nova etapa de uma evolução na continuidade.
ver [+]
|
![]() |
Tony Neves
Neste 25 de setembro, o Papa Leão XIV pisa terras francesas. Chega a Paris, cidade visitada pela última...
ver [+]
|