Lisboa |
Festa dos 800 anos da morte de São Francisco de Assis
Patriarca aponta São Francisco de Assis como caminho de paz
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“Chefes das nações, de todas, por favor, colocai-vos, fazei-vos à estrada e ide ao encontro do outro para com ele estabelecer ligações e uniões de paz”. O apelo foi deixado na manhã deste Domingo, dia 4 de outubro, pelo Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, na celebração dos 800 anos da morte de São Francisco de Assis, que presidiu no Convento de Santo António do Varatojo, em Torres Vedras.

Perante a Família Franciscana e os fiéis que acompanharam a celebração em direto através da TVI, o Patriarca apresentou o santo de Assis como uma figura de profunda atualidade, capaz de inspirar a transformação pessoal, da Igreja e da sociedade.

Na homilia, D. Rui Valério recordou que São Francisco de Assis tem “este carisma de uma completa e total configuração a Jesus” e, por isso, “o tempo não passa por ele”. “É o santo perpétuo e eternamente atual”, afirmou, sublinhando que o seu testemunho continua a ser “princípio” e “força de transformação interior e força de transformação da sociedade do mundo”.

A partir das palavras do Evangelho, o Patriarca estruturou a reflexão em três etapas, relacionando a mensagem de Jesus com a vida e o carisma de São Francisco. A primeira centrou-se na atitude de gratidão e de despojamento. D. Rui Valério destacou a frase de Jesus, «Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra», para explicar a forma como Francisco reconhecia tudo como dom de Deus. “Não são palavras de um conquistador, mas são palavras de um agraciado, de alguém que, olhando para si, olhando para a vida, olhando para a história, olhando para o mundo, olhando para os acontecimentos, diz: ‘Dom de Deus’”, frisou.

Desta consciência, explicou, nasce a liberdade interior que marcou o santo de Assis. “Se tudo vem de Deus, se tudo é dom do Pai, então significa que entre cada um de nós e aquilo que existe e tudo o que existe, existe uma comunhão profunda”, observou, relacionando esta atitude com a abertura de Francisco à natureza, às criaturas e à própria morte, a quem chamava “irmão” e “irmã”.

 

“Um conhecimento que é amor”

A segunda etapa da homilia foi dedicada à “sabedoria da cruz”, a partir da passagem do Evangelho em que Jesus afirma que Deus revelou estas coisas “aos pequeninos”. Para D. Rui Valério, esta nova forma de conhecimento está ligada à experiência de Francisco diante do crucifixo de São Damião. Ao contemplar Cristo, Francisco “sentiu-se olhado, sentiu-se visto”. Nesse encontro, o Patriarca identificou a experiência de um Deus que conhece o ser humano na sua fragilidade, mas não o condena.

“É um conhecimento que ama, um conhecimento que é amor”, afirmou. “Quanto mais Deus nos conhece, nos vê, nos olha, tanto mais nos ama”, acrescentou, realçando que este amor não é meramente teórico, mas “transforma e por isso é um amor que salva”.

Foi a partir desta transformação interior que, segundo o Patriarca, nasceu a ação de Francisco na Igreja e na sociedade. “A transformação que Francisco de Assis operou na sociedade, mas sobretudo aquela restauração pela Igreja brota, deriva, acontece a partir daquela transformação interior”, explicou.

Essa experiência permitia a Francisco aproximar-se do mundo sem medo. “Ele não receava o outro, mesmo que este outro fosse uma outra religião”, apontou D. Rui Valério, porque “o conhecimento à maneira de Jesus, ao estilo da cruz é aquele conhecimento para amar”.

 

“Mais importante do que o convento é a estrada”

Na terceira etapa, o Patriarca refletiu sobre o convite de Jesus: «Vinde, aproximai-vos de mim, todos os que andais cansados e oprimidos». A partir desta passagem, apresentou São Francisco como alguém que assumiu os cansaços e as tribulações do mundo, tornando-se testemunha de uma paz que procura chegar às feridas da humanidade.

“A paz, uma paz tão necessária para nós e para o nosso mundo. Uma paz tão indispensável para que o homem se reencontre, vá ao encontro do homem”, afirmou.

Para D. Rui Valério, esta paz não nasce apenas de estratégias ou tratados, mas concretiza-se no encontro. “Como viveu, que forma deu Francisco de Assis à paz? aquela de ir ao encontro, aquela deixar a sua zona de conforto e ir em busca e à procura do outro, de todos os outros”.

É neste contexto que o Patriarca destacou uma dimensão essencial da espiritualidade franciscana: “Para a família franciscana mais importante do que o convento é a estrada para ir ao encontro do outro”. O caminho implica iniciativa e proximidade: “Não ficar à espera, de sermos nós, iluminados e inspirados por Deus a fazer este primeiro passo”.

 

“Voltados um para o outro”

No final da homilia, D. Rui Valério dirigiu a mensagem de São Francisco também aos responsáveis políticos e às nações, fazendo do santo de Assis uma referência para o mundo contemporâneo.

“Chefes das nações, de todas, por favor, colocai-vos, fazei-vos à estrada e ide ao encontro do outro para com ele estabelecer ligações e uniões de paz”, pediu. E concretizou a proposta: “Uma ponte, não muros. Aproximação, não distanciamento, voltados um para o outro, como Cristo está voltado para nós a partir da cruz, não de costas voltadas”.

Ao assinalar os 800 anos da morte de São Francisco, o Patriarca de Lisboa concluiu afirmando que o santo continua a ser uma presença transformadora. “Francisco de Assis surge como uma dádiva”, disse, num mundo marcado pela “complexidade”, pela oscilação e pela “incerteza e dúvida”. A sua mensagem, acrescentou, aponta para “o caminho da Páscoa”, entendido como “o caminho de cada um de nós, de todos irmos ao encontro do outro”.

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