Um em cada 30 jovens tem escoliose. Frequentemente associada à adolescência, esta deformidade da coluna surge sobretudo a partir dos 10 anos, coincidindo com o período de crescimento mais rápido. Na maioria dos casos, trata-se de uma escoliose idiopática, onde embora exista uma componente genética, mas não é conhecida uma causa única e objetiva que permita prevenir o seu aparecimento.
É precisamente por isso que a vigilância durante a infância e a adolescência assume particular importância. Pais, pediatras, médicos de família, professores de Educação Física e treinadores devem estar atentos a sinais como assimetrias dos ombros ou da cintura, diferenças na posição das omoplatas ou outras assimetrias do tronco. Uma avaliação atempada permite confirmar o diagnóstico, acompanhar a evolução da curvatura e, quando necessário, iniciar o tratamento no momento mais adequado.
Nem todas as escolioses são iguais e o tratamento deve ser individualizado. Nas curvas de menor magnitude, a vigilância clínica e radiográfica pode ser suficiente. Em curvas moderadas, sobretudo em crianças e adolescentes que ainda têm crescimento significativo pela frente, o uso adequado de uma ortótese (colete) pode reduzir de forma importante o risco de progressão. Nas situações mais graves, ou quando existe progressão significativa apesar do tratamento conservador, pode estar indicada a cirurgia.
Nesta área, temos assistido a uma evolução significativa. Para além da tradicional fusão vertebral - que desde há décadas constitui a principal opção cirúrgica para as formas mais graves de escoliose - existem atualmente técnicas que procuram corrigir progressivamente a deformidade, preservando, tanto quanto possível, o crescimento e a mobilidade da coluna. Entre estas encontram-se o Posterior Vertebral Pedicular Tethering (PVPT), o Vertebral Body Tethering (VBT) e o Posterior Dynamic Distraction Device (PDDD).
No PVPT, técnica implementada no Hospital CUF Descobertas, as vértebras são fixadas com parafusos ligados por uma corda, colocados no lado convexo da curva. No Hospital CUF Porto, o PDDD (colocação de um distrator no lado côncavo da curva) é a técnica de não fusão mais usada. Ambas procuram aproveitar o crescimento remanescente da criança ou do adolescente para contribuir para a correção progressiva da curvatura. O objetivo é corrigir a deformidade sem recorrer à fusão vertebral, preservando a mobilidade dos segmentos tratados e procurando favorecer o regresso às atividades quotidianas e desportivas mais precocemente.
Importa também desfazer alguns mitos. A escoliose idiopática não é causada por má postura, pelo peso das mochilas escolares ou pela prática de determinadas modalidades desportivas. Da mesma forma, modalidades como o ballet ou a natação não previnem nem tratam a escoliose.
Detetar cedo não significa operar. Significa ganhar tempo para avaliar cada caso, acompanhar a evolução da deformidade e escolher, em cada momento, o tratamento mais adequado. O objetivo é tratar quando necessário, evitando tratamentos desnecessários e procurando preservar, tanto quanto possível, a função, o crescimento e a mobilidade da coluna ao longo da vida.
Nuno Alegrete, Coordenador da Unidade de Ortopedia da Criança e do Adolescente no Hospital CUF Porto
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