Lisboa |
Missa pelas vítimas do acidente
“A memória verdadeira gera responsabilidade” um ano após o acidente do Elevador da Glória
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Um ano depois do acidente do Elevador da Glória, o Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, afirmou que a memória da tragédia deve transformar-se em “responsabilidade, gratidão e cuidado”, defendendo que uma cidade se mede, antes de tudo, pela forma como cuida das pessoas que nela vivem.

Na Missa celebrada esta quinta-feira, 3 de setembro, na Igreja de São Roque, em Lisboa, em memória das vítimas do acidente, D. Rui Valério recordou que “passar não significa esquecer” e sublinhou que há acontecimentos que permanecem na memória de uma família e de uma cidade para ensinar “alguma coisa acerca da responsabilidade com que devem construir o futuro”.

Partindo da passagem da Primeira Carta aos Coríntios – «Tudo é vosso: o mundo, a vida e a morte, as coisas presentes e as futuras. Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus» –, o Patriarca destacou que a vida humana é um dom que deve ser acolhido e guardado com responsabilidade.

“Esta consciência não diminui o valor da vida; pelo contrário, torna-a ainda mais preciosa, porque aquilo que é dom deve ser acolhido com gratidão e guardado com responsabilidade”, realçou.

 

“Uma cidade não se mede apenas pelas suas infraestruturas”

Na sua homilia, D. Rui Valério quis afastar a memória das vítimas de uma visão meramente estatística. “Não como números de uma tragédia, não como nomes inscritos numa notícia ou numa placa, mas como pessoas concretas e irrepetíveis”, disse, recordando que cada vítima tinha “uma história, uma família, amizades, projetos e sonhos”.

A partir do Salmo proclamado na celebração – «Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe, o mundo e quantos nele habitam» –, o Patriarca apontou para uma questão fundamental sobre a vida em sociedade: “uma cidade não se mede apenas pela qualidade das suas infraestruturas, pela eficiência dos seus serviços ou pela grandeza do seu património; mede-se, antes de tudo, pela forma como cuida de quem nela vive”.

Por isso, considerou que uma tragédia como a do Elevador da Glória não pode deixar apenas uma memória dolorosa. “Tem também de nos colocar uma pergunta: que sociedade queremos construir depois daquilo que aconteceu?”, questionou.

Para D. Rui Valério, “a memória verdadeira gera responsabilidade”. O cuidado da vida humana deve traduzir-se numa cultura onde “a atenção, a prevenção, a competência e a responsabilidade” sejam assumidas como expressões concretas do respeito pela dignidade de cada pessoa.

“Quando está em causa uma vida humana, nada deve ser considerado insignificante”, sublinhou, defendendo uma atitude de vigilância, capacidade de previsão, humildade para corrigir e disponibilidade para aprender.

Sem procurar fazer, naquele contexto, uma avaliação das responsabilidades pelo acidente – “não se trata de procurar culpados nesta celebração, nem de fazer avaliações que competem a outras instâncias” –, o Patriarca deixou, contudo, uma afirmação clara: “O progresso só merece esse nome quando está verdadeiramente ao serviço do ser humano”.

 

“Cristo entra nesse barco”

A segunda parte da homilia foi marcada pelo Evangelho da pesca milagrosa. D. Rui Valério deteve-se na imagem de Pedro, que depois de uma noite de trabalho regressa com as redes vazias, até que Jesus entra no seu barco e lhe diz: «Faz-te ao largo».

Para o Patriarca, este pormenor contém uma mensagem particularmente importante para quem vive o sofrimento. “Cristo não espera que a situação esteja resolvida para Se aproximar”, afirmou. Pelo contrário, “entra precisamente naquele barco marcado pelo cansaço e pelo fracasso”.

A imagem foi aplicada às famílias e a todos os que continuam a viver as consequências do acidente. “Há também noites assim na nossa vida. A noite da ausência, da saudade, da pergunta que continua sem resposta, do lugar vazio à mesa”, disse.

Um ano depois, observou, “certas ausências continuam a fazer-se sentir com a mesma intensidade”. A fé cristã, explicou, não exige que se negue essa dor nem oferece “explicações fáceis” para o sofrimento. A sua resposta é outra: “Cristo entra nesse barco”.

“Não permanece à distância do sofrimento humano. Aproxima-Se e, no interior da fragilidade, abre novamente um horizonte”, garantiu.

 

“A dor não pode ser o último lugar onde a nossa vida fica ancorada”

O convite de Jesus – «Faz-te ao largo» – não significa, para D. Rui Valério, esquecer o que aconteceu. “O amor nunca exige esquecimento”, sublinhou. Significa, antes, “não permitir que a dor seja o último lugar onde a nossa vida fica ancorada”. O Patriarca distinguiu assim entre uma memória que encerra no passado e outra que se transforma “em responsabilidade, gratidão e cuidado”.

“Honramos verdadeiramente aqueles que partiram quando a recordação das suas vidas nos torna mais atentos à vida dos outros, mais próximos de quem sofre e mais conscientes da responsabilidade que todos temos uns pelos outros”, salientou.

 

“Ninguém deve ser deixado sozinho”

A imagem dos barcos voltou a surgir na homilia quando Pedro e os seus companheiros, perante o peso da pesca, chamam outro barco para os ajudar. Para o Patriarca de Lisboa, também esta passagem ilumina a experiência vivida por Lisboa há um ano: “Há pesos que não conseguimos carregar sozinhos. Há dores que precisam da presença dos outros e há responsabilidades que nenhuma pessoa ou instituição pode assumir isoladamente”.

D. Rui Valério recordou, neste contexto, a resposta dada no dia do acidente por bombeiros, equipas de emergência, profissionais de saúde, autoridades, voluntários e cidadãos. Foram, nas suas palavras, muitos “outros barcos” que se aproximaram para ajudar.

“A fraternidade tornou-se então uma realidade concreta”, afirmou, apontando esta experiência como “uma das grandes lições que devemos conservar”: “Uma sociedade torna-se verdadeiramente humana quando ninguém é deixado sozinho com o peso que não consegue suportar”.

 

“Que esta memória nos torne melhores”

No final da celebração, o Patriarca dirigiu uma palavra de proximidade às famílias das vítimas, recordou os feridos e todos aqueles que continuam a carregar “no corpo ou na memória” as consequências daquele dia.

Renovou também a esperança cristã, reconhecendo que “a fé não elimina a saudade nem apaga a dor”, mas afirmando que “a morte não possui a última palavra sobre a existência humana”.

D. Rui Valério confiou novamente ao Senhor aqueles que morreram e pediu que fossem acolhidos na sua misericórdia. Rezou pelos feridos e pelas suas famílias e agradeceu a todos os que serviram no dia do acidente e continuam a servir Lisboa.

Por fim, deixou um pedido: “Que esta memória nos torne melhores. Mais atentos, mais responsáveis, mais próximos e mais capazes de cuidar”. “Talvez seja essa uma das medidas mais verdadeiras de uma cidade e de uma sociedade: a maneira como cuida da vida que lhe é confiada”, observou.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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