O Patriarca de Lisboa presidiu à oração na inauguração do memorial de homenagem às vítimas do acidente, na manhã deste dia 3 de setembro, um ano depois da tragédia que matou 16 pessoas. No Largo da Oliveirinha, D. Rui Valério deixou uma mensagem de consolação às famílias e sublinhou que recordar deve implicar um compromisso renovado com a proteção da vida humana.
Um ano depois do acidente, D. Rui Valério recordou diante de Deus aqueles que “aqui encontraram o seu último entardecer”, sublinhando que cada uma das vítimas tinha “um nome, um rosto, uma história, pessoas que amava e por quem era amado”. “Para nós, permanecem na saudade; para Vós, Senhor, nenhuma vida se perde e ninguém é esquecido”, afirmou o Patriarca, confiando as vítimas à misericórdia de Deus e pedindo que sejam acolhidas “na luz” da Sua presença. Na oração, D. Rui Valério dirigiu também uma palavra às famílias e amigos das vítimas, reconhecendo a dor provocada por uma ausência que o tempo não apaga. “Há ausências que o passar dos dias não apaga, porque há amores que o tempo não desfaz”, afirmou, pedindo a Deus que seja “consolação” e “força” para aqueles que continuam a viver com a saudade. Uma oliveira como sinal de memória O memorial inclui a plantação de uma oliveira, árvore que o Patriarca apresentou como símbolo de memória, resistência, paz, reconciliação e esperança. “Fazei, Senhor, que também esta árvore fale silenciosamente a todos os que por aqui passarem”, pediu D. Rui Valério, para que a oliveira recorde as vidas homenageadas e transmita a ideia de que “a verdadeira memória não consiste apenas em recordar o passado, mas em cuidar melhor da vida no presente”. Na oração, o Patriarca recorreu ainda a uma antiga narrativa sobre o rei Salomão, segundo a qual, perante a morte do rei, outras árvores manifestavam exteriormente a sua tristeza, enquanto a oliveira permanecia verde, guardando no interior do tronco a marca da dor. A imagem serviu a D. Rui Valério para lembrar o sofrimento que muitas vezes permanece invisível. “Também o sofrimento humano é muitas vezes assim: não está sempre visível aos olhos dos outros, mas permanece no mais íntimo de quem perdeu alguém que amava”, afirmou. Por isso, pediu que a oliveira seja também “um sinal de respeito por essa dor que ninguém deve julgar, medir ou apressar”, deixando uma palavra de esperança às famílias: “a saudade não é o contrário da esperança: é também a marca deixada pelo amor”. “Que a memória se transforme em compromisso” A oração assumiu, contudo, uma dimensão que ultrapassa a evocação das vítimas. D. Rui Valério pediu que a memória da tragédia se transforme num compromisso coletivo de proteção da vida. “Que a recordação daqueles que perderam a vida nos ensine a reconhecer de novo quanto cada existência humana é preciosa”, manifestou. O Patriarca pediu ainda que esta memória torne a sociedade “mais atenta” e “mais responsável”, capaz de “prevenir, de proteger e de cuidar”, para que nenhuma preocupação, interesse ou urgência faça esquecer que “a pessoa humana deve permanecer no centro de tudo aquilo que construímos”. Recorrendo ao simbolismo do azeite da oliveira, associado na tradição bíblica à cura e à consolação, D. Rui Valério evocou também Jesus Cristo como aquele que tomou sobre si as feridas da humanidade e, pela morte e Ressurreição, abriu “as portas da vida”. No final, pediu a Deus que guarde na Sua paz as vítimas, sustente aqueles que continuam a sentir a sua falta e faça da oliveira uma “memória viva”: memória dos que partiram, sinal do amor que permanece e compromisso de cuidar “sempre da vida que nos é confiada”.![]() |
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