O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, proferiu a conferência ‘Artesãs da paz e da esperança’, na XI Assembleia Provincial das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, na manhã desta quarta-feira, 29 de julho, sublinhando às religiosas que “a paz começa quando voltamos a reconhecer um rosto, uma história e uma dignidade”.
Na Casa Provincial, no Campo Grande, em Lisboa, o Patriarca desafiou as Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo a construir a paz e a esperança através de gestos concretos, do cuidado e da proximidade com cada pessoa. “A primeira missão das artesãs da paz é, portanto, guardar aberta a porta do futuro”, afirmou. Subordinada ao tema ‘Artesãs da paz e da esperança’, a conferência procurou traduzir esta vocação em atitudes concretas perante uma humanidade “frequentemente ferida, fragmentada e cansada”. Para D. Rui Valério, não é possível construir uma verdadeira paz quando desaparece a esperança. “Só quem acredita num futuro aberto pode verdadeiramente trabalhar pela paz”, salientou. “A esperança, pelo contrário, abre novamente o tempo. Não apaga o mal cometido, não nega a gravidade das feridas nem transforma ingenuamente a realidade. Mas recusa-se a considerar o mal como a palavra definitiva sobre alguém”, explicou. A parábola do filho pródigo foi apresentada como expressão da esperança de Deus, que não encerra o ser humano no seu passado. “É aqui que nasce a paz: na possibilidade de uma identidade restituída”, afirmou o Patriarca, lembrando que a paz começa quando voltamos a reconhecer “um rosto, uma história e uma dignidade”. Uma paz “desarmada e desarmante” D. Rui Valério retomou a expressão usada pelo Papa Leão XIV na sua primeira bênção ‘Urbi et Orbi’: “uma paz desarmada e uma paz que desarma, humilde e perseverante”. Segundo referiu às religiosas, esta paz não se impõe pela força nem pelo medo. “É a força de quem não necessita destruir o outro para afirmar a verdade”, considerou o Patriarca, alertando para as muitas “armas” que podem existir nas relações: “palavras usadas como balas, silêncios como castigo, memórias guardadas para serem lançadas como granadas, ironias que humilham, olhares que excluem”. A paz desarmante interrompe a lógica da violência. “Podemos impedir que a sua violência determine a qualidade do nosso coração”, referiu, considerando que não permitir que o mal recebido determine aquilo em que nos tornamos é “a última liberdade que resta ao ser humano: escolher como quer sofrer”. Esta paz exige ainda humildade e perseverança, porque a reconciliação “raramente se constrói com um único gesto” e implica “tempo, repetição, fidelidade e, muitas vezes, capacidade de recomeçar”. “A primeira oficina da paz é o coração” Na sua intervenção, o Patriarca afirmou ainda que “a primeira oficina da paz é o coração”, defendendo que não existe paz social duradoura sem pessoas interiormente reconciliadas. A reconciliação com Deus permite também a reconciliação consigo próprio. “Somos amados antes de merecermos!”, afirmou D. Rui Valério, acrescentando: “Deus não nos olha apenas a partir daquilo que fizemos. Olha-nos a partir daquilo que a graça ainda pode realizar em nós”. Na vida comunitária, a paz passa por viver a diferença sem a transformar em ameaça. “A paz autêntica procura a verdade na caridade”, afirmou, defendendo que é necessário aprender “a falar com o outro, e não apenas sobre o outro”. O Patriarca lembrou ainda que a paz integral inclui a relação com a natureza, uma vez que “a destruição ambiental atinge sobretudo os mais pobres” e o cuidado da criação faz parte da missão caritativa. “Permanecer humanos” num mundo tecnológico A missão das Filhas da Caridade foi também relacionada com os desafios da Inteligência Artificial. D. Rui Valério sublinhou que a dignidade humana não depende da produtividade, da capacidade ou da utilidade social. “Uma pessoa não vale menos quando deixa de produzir. Não perde dignidade quando já não consegue comunicar. Não se torna descartável quando necessita de cuidados permanentes”, alertou Neste contexto, o Patriarca resumiu a missão cristã do presente como a necessidade de “permanecer humanos e ajudar os outros a reconhecer a sua humanidade”. A tecnologia pode ajudar a melhorar os cuidados, mas não substitui “presença, compaixão, consciência moral, responsabilidade e amor”. “Pode tornar um serviço mais eficiente. Não pode oferecer a experiência de ser amado”, reforçou. Por isso, as Filhas da Caridade têm uma missão particularmente necessária: “Recordar, por meio da presença concreta, que o cuidado é uma relação e que cada corpo humano é digno de atenção, ternura e respeito”. Artesãs da paz e da esperança Ao concretizar esta missão, D. Rui Valério apontou a escuta, o cuidado da linguagem, a criação de pontes, a proteção das vítimas e a colaboração. “A escuta é um ato de hospitalidade: oferece ao outro espaço dentro de nós”, realçou. Também as palavras podem construir ou destruir. “Desarmar as palavras significa abandonar a agressividade, a generalização e a suspeita permanente. Significa aprender uma linguagem verdadeira que não humilhe”, acrescentou. Sobre as vítimas, foi igualmente claro: “A paz cristã nunca pode significar neutralidade diante da injustiça”. O perdão não elimina a justiça e a reconciliação não pode ser imposta à vítima. “A paz sem justiça torna-se silêncio imposto”, manifestou. Quanto à esperança, o Patriarca defendeu que esta deve assumir formas visíveis e concretas. “A verdadeira esperança acredita nas capacidades da pessoa”, afirmou, sublinhando que a caridade deve “acompanhar, capacitar e restituir protagonismo”. Perante as mudanças na vida religiosa, acrescentou, “a esperança permite abandonar formas sem abandonar a missão”. “Cristo, nossa paz e nossa esperança” No centro da reflexão esteve Jesus Cristo. “A esperança cristã tem um rosto: Jesus Cristo”, apontou D. Rui Valério, recordando que Cristo é a esperança porque assumiu plenamente a condição humana e é a paz porque, na Cruz, reconciliou aquilo que estava dividido. “As feridas permanecem como memória, mas já não como fonte de condenação. Tornam-se sinais de um amor maior”, frisou. Na conclusão, o Patriarca retomou o desafio lançado às Filhas da Caridade: “O nosso tempo precisa de paz. Mas não apenas de tréguas provisórias ou equilíbrios sustentados pelo medo. Precisa daquela paz desarmada e desarmante que nasce de Deus e começa no coração”. E precisa também de esperança, não apenas de discursos, mas de pessoas que mostrem, pela própria vida, “que ninguém está definitivamente perdido e que o futuro pode permanecer aberto”. D. Rui Valério lembrou que esta missão se concretiza nos pequenos gestos: “Talvez não possamos terminar todas as guerras, mas podemos desarmar uma palavra. Talvez não possamos eliminar toda a pobreza, mas podemos restituir dignidade a uma pessoa. Talvez não possamos resolver todas as divisões, mas podemos impedir que o ressentimento governe a nossa comunidade. Talvez não possamos garantir o futuro, mas podemos oferecer um sinal de que vale a pena esperar”. “Permaneçamos unidos a Cristo, nossa paz e nossa esperança”, concluiu o Patriarca, apelando a que as Filhas da Caridade assumam “com alegria a missão de trabalhar, dia após dia, pela reconstrução das relações, pela dignidade dos pobres e pela civilização do amor”. No final da conferência, o Patriarca de Lisboa presidiu à Eucaristia. A XI Assembleia Provincial das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo está a decorrer desde o passado dia 27 de julho e prolonga-se até ao próximo dia 3 de agosto.![]() |
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